Periscópio 2 - Dois ou Três possíveis para a poesia brasileira - Luis Maffei
Falar de poesia brasileira solicita-me o duplo papel, velho papel, de leitor e autor, com dois complicadores no meio do caminho. O primeiro deles é também ser editor de livros de poesia, livros de ensaio sobre poesia e, muito em breve, coeditor de uma revista de poesia. Não sei até que ponto esse complicador realmente complica, talvez não, talvez, pelo contrário, me ponha num ponto que é, acima de todos, um ponto de vista, lugar de visão de um panorama. O lugar, claro, é parcial, míope, como todos, mas o segundo complicador me estrangeira um pouco: sou professor de Literatura Portuguesa, dedicado majoritariamente à poesia — ainda que quisesse, muitas vezes, dedicar mais de meu tempo à chamada prosa, que em nada difere, em certo nível, da poesia. Isso me aliena um pouco do que se escreve no Brasil, ainda que eu escreva no Brasil.
Não quero pensar na categoria "poesia brasileira", se existe ou não existe, e, se existe, o quanto existe — não só a brasileira, qualquer uma dotada de nacionalidade. Sinto-me mesmo um pouco deslocado de meus pares neste momento de esforço pela manutenção da literatura portuguesa nos curricula do ensino médio, pois entendo que, portuguesa ou não, o que se deve cultivar nos jovens é um coração cheio de libido para e com a literatura. Só assim esses jovens chegarão à universidade, à vida adulta, à reflexão cívica e/ou política com alguns romances e poemas no bolso. Mas a digressão pare aqui, mesmo porque eu só queria dizer que não me dedicarei a pensar na categoria "poesia brasileira" em termos de validade ou não. Acolhê-la-ei como um fato dado, e, desde meu complicado lugar de leitor de uma poesia estrangeira, ainda que feita na mesma língua (tampouco me deterei nas nuances do que seja esta língua, plural na sua singularidade), o que, de certa maneira, quiçá complique ainda mais meu ponto de vista parcialmente murado, tentarei dizer umas ou outras coisas que a poesia brasileira pode fazer, ou evitar fazer. Não é um manifesto, não é um protesto, não é um afago, uma aderência, um apascentamento, nada disso. É um conjunto de possíveis pensado por alguém que se encontra no complicado lugar recém-exposto, e que, por isso, é digno de confiança muito relativa. E talvez esse conjunto possa ser pensado para qualquer poesia, ou nenhuma. Associo-o à brasileira porque noto, míope, certas tendências, certas fumaças, e porque, afinal de contas, aqui estou, aqui leio e escrevo.
Possível 1: à poesia é facultada a possibilidade de evitar a saída esperta, sair dessa saída
O tempo da poesia é criativo. O tempo da recepção de poesia, também. Não quero dizer que esse tempo, esses tempos encontrados em desejo e, talvez, desespero, sejam necessariamente lentos, mas têm o direito de ser — o que me sugere uma espécie de possível 1,5, a saber: a poesia pode ser lenta, devagar, ruminante como alguns grandes animais. Esse tempo mais crítico que cronológico pode abrir mão de querer do leitor um sorriso imediato, ou imediado. O poema não precisa, forçosamente, seduzir fazendo-se de esperto, arrogando-se uma sabedoria tão sábia que aparentemente ingênua, o que quase sempre postula uma iconoclastia, que resulta, no entanto, incapaz de quebrar o que seja. Poesia, que não é publicidade, torna-se-me mais desejável quando pretende outros pactos, outros efeitos.
Possível 2: a poesia tem muitas possibilidades de explorar a forma
Poesia é forma, o que se sabe desde antes do Antigo Testamento. Como tal, a poesia pode ser, pois é formação, também reforma, deformação, metamorfose. Desde o século XIX, as formas fixas enfrentam uma crise que, no limite, as fez praticamente desaparecer. O verso livre tem uma música inimitável, só sua, música plural e assimétrica. Mas a métrica pode ser também agônica; a quem não o percebeu, sugiro a leitura das Canções camonianas. Para além da agonia de muitos metros, as formas não raro se irritam ainda mais quando, dentro de sonetos, por exemplo, batem a cabeça na parede querendo sair, ou tão somente sangrar. Além, ou aquém, de tudo isso, a técnica, que é uma excelente amiga da paixão e ajuda bastante na construção da música, do sopro, da forma, qualquer que ela seja, inclusive a que recupere as estruturas dispostas pela tradição — olhar a tradição, aliás, é boa estratégia para nos movermos com mais tensão do risco do hodiernocentrismo.
Possível 3: a poesia pode não ser bem-humorada
Se a poesia pode não ser esperta, ela pode não fazer rir, nem sorrir. Não preciso dizer que a poesia pode fazer rir, sorrir, gargalhar, isso é sabido e cultivado, ainda bem. Contudo, talvez valha a pena dizer, não o contrário, mas este outro óbvio: é perfeitamente concebível que um poema cause no leitor um efeito que não passe pelo risinho no canto do lábio, ou pelo riso mais solto. Um poema tem a possibilidade de não ter graça nenhuma, de causar, a contrapelo, um efeito de antigraça, até de desgraça. Um poema pode demorar muito a se revelar, pode exigir um leitor que trabalhe por eles — eles são o poema, que demanda trabalho para se tornar relacional ao leitor, e o próprio leitor, que precisa trabalhar para alcançar justamente seu estatuto de leitor. Esse encontro que dará graça à antigraça, sem dela retirar a desgraça, muitas vezes atende pelo nome de leitura. De poesia.
Possível 4: pode ser um exercício fecundo para a poesia falar do que não conhece e com quem (o poeta) não conhece
Uma das causas que nos leva a escolher falar do que conhecemos é querermos falar com propriedade, conhecimento de causa, muitas vezes com razão. A poesia tem toda a liberdade para o contrário: falar do que não conhece, por vários motivos. Um deles: a poesia fala poesia, não necessitando falar de ou sobre alguma coisa. Outro: falar em alguma coisa se tensiona entre recuperá-la e inventá-la; por que devemos conhecer as coisas que queremos inventar enquanto recuperamos suas memórias? Por que o conhecimento não pode começar no ato justo do encontro, do toque, do perigo? A poesia pode, perfeitamente, não ter razão. A poesia pode também, por isso, desviar-se dos que conhecem o poeta, seus amigos ou pares. Nada contra falar com amigos ou pares, mas, se a poesia possui certa estrangeiridade irredutível, mesmo nossos amigos ou pares serão postos num universo cheio de desconhecimento, ainda cheio de afetação. É que há sempre o risco da uma tautologia arriscadamente sedutora, que pode levar o poeta a eleger os seus e falar com eles, falar deles, e eles, quando pertencentes a um circuito próximo ao do poeta e da sociabilidade do circuito de poesia, acolherão o gesto e tenderão a manter tudo num território excessivamente conhecido. É claro que, no fundo, o que quero dizer é: a poesia tem muito a ganhar com o desconforto, e o desconhecimento é lugar desconfortável.
Possível 5: a poesia pode enfrentar, acolher, acariciar o nada
Resultado do possível 4, o possível 5 quer indicar que nem tudo, na verdade quase nada, está em nossas mãos. Por isso, temos toda a liberdade, se quisermos, para explorar a pobreza, o vazio, o nada. É lugar-comum dizermos, com pose elegante, geralmente blasé, que a poesia não salva. Mas não é incomum esquecermos disso e investirmos todas as nossas fichas numa salvação pressurosa, nem que seja a salvação de nosso nome, nossa fama. Esquecemos que a poesia, para alguns poetas, é mensagem em garrafa, e esquecemos também que afirmar em negativo é também uma afirmação, apenas mais cônscia que a maioria das outras de seu lugar escasso, quase vazio ou mesmo vazio. Por essas e outras, o silêncio, a estranheza radical e a descontinuidade às vezes são conquistas de vária poesia, especialmente aquela que consegue, a partir de seus saber, seus saberes (e sempre há alguma saber, algo na bagagem do poeta, da mulher, do homem), procurar o que não conhece, como diz o possível 3, desfazer-se de seu saber (por outros?), desfazer-se seu saber após ter sabido. Não sei se estou falando de sabedoria, acho que não. Estou falando de crise, de resistir a certas crises (da linguagem, por exemplo, que aparentemente constrange o poético) e de criar certas crises (na linguagem, por exemplo, a fim de não constranger o poético), criar na crise, sê-la.
Possível 6: a poesia pode pretender grandes coisas
Quase o oposto do anterior, este possível investe na abrangência: a poesia pode orar, imprecar, pretender encontros universais, viagens transformadoras, revoluções — daí ela costuma sair com o joelho ralado, mas este mesmo sanguinho se transforma em rio de sangue, trampolim vital para novo salto, nova raladura. Pouco importa que não se leia poesia, quantitativamente, como se lê romance (e que não se leia romance como se lê autoajuda, o que não é melhor que não ler nada); pouco importa também que seja démodé falar de poderes da poesia. Poesia é ficção, portanto exercício criativo de liberdade. Há uma entrada desse exercício no mundo, há, eu sei, sabemos, portas. Há corpos à espera, atingíveis, e eu conheço muita gente cuja vida a poesia, alguma poesia, foi capaz de alterar. Isso é uma grande coisa.
Possível 7: não estar na moda se encontra no horizonte da poesia
A poesia não tem qualquer obrigação de ser atual, de estar na moda, de ser up to date, mesmo porque, já indiquei de outro modo no possível 2, nada nos garante que todas as verdades de nosso tempo mereçam mais atenção que as de outros. Mais tenso será suspeitarmos radicalmente do nosso tempo, esgarçá-lo numa desconfiança constante, de dentes arreganhados, desalentada a ponto de perceber que não haverá plena confiança, pois, se não confiamos em nosso tempo, sendo, de certa maneira, presos a ele, com qual poderemos nos fiar? Suspeitando de valores e estabilidades do presente, a poesia poderá cultivar, por outro lado, uma contemporaneidade instável, com olhos abertos a uma produtiva defasagem que certo descabimento pode promover, esforçando-se também por criar, ou conquistar, pujante dose de anacronismo, algo afim à estranheza radical do possível 5. O possível 4 passou pelo conforto de só falarmos com quem conhecemos, com quem nos conhece. Outro lado disso é falarmos, a fim de sermos entendidos pelos “nossos”, uma língua muito quieta, ou pouco inquieta, que, acorde a lugares comuns de nosso tempo, esteja em voga, seja reconhecida, cause mais sorrisos que urticárias. Portanto, está no horizonte da poesia escolher sua história, seu passado, o que equivale ao direito a procurar da história as margens.
Possível 8: a poesia ainda pode resistir
O item 6 me dá ensejo para repetir que poemas não são peças publicitárias, não precisam agradar ao gosto da época, ainda mais porque o consumo de poesia nada tem a ver com outros consumos — o de poesia, para certas bocas, é excessivamente alimentar. A poesia ainda pode resistir a isso: ao que a força a se tornar um discurso entre discursos. Se pode resistir e pretender grandes coisas, a poesia ainda pode, como pôde em muitos outros momentos históricos, ser política, fazer política, intervir de alguma maneira que não seja também, por sua vez, concessão àquilo que a transforme em publicidade, que, nesse caso, seria de alguma causa extrínseca à evidência de que a poesia se diz — resistir a certas crises é resistir a não criar outras, como indica o possível 5. Para resistir, o humor, sem dúvida, é um instrumento poderoso. Às vezes, mais poderoso ainda é o mau-humor, e a poesia, eu já disse, tem todo o direito de ser mau-humorada.
Possível 9: a poesia pode não querer ser música
Isto se pode dar em dois níveis. No primeiro, mais amplo, mais difícil, a poesia pode querer se afastar de características da música — eufonia, ritmo, refrão, rima, externa ou interna, etc. É direito seu. Esse afastamento levaria a poesia aonde? Não sei bem, mas consigo prever hipóteses — a fala comum? Alguém poderá dizer agora que a fala comum, especialmente quando falada, também tem sua música. O segundo nível é menos complexo, mais brasileiro: a poesia pode se manter distante das conquistas da música, especialmente da canção. Nossa cultura, por razões diversas, presta muita atenção a canção, desde as de caráter popular até as mais internacionalizadas. Isso levou certa poesia brasileira a se aproximar da letra da canção, talvez por um fascínio mal traduzido, posto que a poesia não tem a música stricto sensu para auxiliá-la, talvez por uma vontade maior de comunicação. Mas a poesia, mesmo a brasileira, pode não querer nada disso e ficar bem longe dos recursos, e dos fitos, recorrentes do nosso cancioneiro.
Possível 10: à poesia brasileira se faculta a hipótese de não ser brasileira
Já andei rascunhando esse problema que agora torno explícito, trazendo deflagradamente a questão para o tópico que rege uma das faces desta reflexão e deixando de considerá-lo um fato dado: a poesia brasileira tem todo o direito de não ser brasileira, assim como qualquer cidadão brasileiro tem todo o direito, legalmente instituído, de deixar de ser brasileiro. A condição nacional tem muito de acaso, e categorias como poesia brasileira, ou de qualquer nacionalidade, têm muito de arbitrário. Portanto, nesta variante linguística que nos coube e que, na falta de termo melhor, chamamos de "português brasileiro", podemos cultivar é a estrangeiridade da poesia, sua recusa a participar servilmente do que a cultura propõe, ou impõe, como reprodução, e propor, em poesia, transformação de outro nível. Claro que podemos também ser brasileiros, sobretudo se essa escolha envolver um gesto ético-trágico — trágico porque não escolhemos ser brasileiros, mas somos; ético porque, a partir desse trágico, podemos intervir em nosso terreno.