𝒛𝒐𝒚𝒂'𝒔 𝒇𝒊𝒓𝒔𝒕 𝒕𝒂𝒔𝒌
“ all that glitters is not gold ”
(under the cut)
MOSCOU, RÚSSIA (2019) -- horas antes da chegada à Eskye
A corrente álgida propalou-se pelas mãos desprotegidas da Kolzov, avezada ao clima sombrio da cidade que reputava como um lar, sequer ponderou a presença das luvas num dos bolsos do trench coat. Aposto à uma calça e blusa simplórias -- discrepante aos trajes utilizados na festa da noite precedente -- Zoya almejava uma aparência circunspecta, e quiçá confiável para o novo projeto. Um roubo, é claro. O alvo? Um colecionador popular na região metropolitana de Moscou. Possuía um acervo de obras que incitariam a inveja em qualquer curador responsável pelos museus do país, ostentando os quadros em exposições para um seleto grupo de admiradores, Zoya não pôde perder a ocasião. Passar algumas centenas de dólares para furar a fila, e utilizar uma de suas identidades falsas fora fácil, a parte complicada encontrava-se após a entrada do edifício na Praça Vermelha.
Nutria genuíno apreço por arte nos meios mais convencionais, e a carreira como ladra lhe rendera conhecimento destas, capaz de identificar peças falsificadas ou adulteradas com certa facilidade, ia a exposição apurar muito mais que isto. Que tipo de sistema de segurança utilizavam? Haviam guardas no lugar? GPS nas molduras das pinturas? Qual o meio mais eficiente de invadir e deixar a galeria? A canhota gélida empurrou a porta de entrada no edifício, um sorriso delicado nos lábios ao passar pela recepção e mostrar a identidade falsa e um convite para a exposição. Displicente, o segurança sequer revistou a bolsa de Zoya antes desta adentrar o salão principal, referto por indivíduos com dinheiro suficiente para custear os imóveis dos quarteirão. Inspirou fundo e ajustou as alças das bolsas nos dígitos da destra, pendendo a peça ao lado do corpo esguio, atinava os ínfimos detalhes no ambiente. Câmeras. Funcionários. Saídas. Entradas. Janelas. Duas obras deliberadamente posicionadas na parede central da construção, não seria fácil retirá-las dali, Zoya sabia que sua equipe ia precisar quebrar as molduras, colocá-las num invólucro apropriado e só então sair dali. Tempo. Uma fração de segundos mal calculada lhe faria ser pega, e a Koslov preferia morrer perder os preciosos dias num lugar ao qual não pertencia.
(...)
Entornou os resquícios de champanhe na taça, sorrindo numa breve despedida do anfitrião da exposição e das duas outras pessoas com as quais confabulou pela última hora. Forjando a persona de uma colecionadora iniciante, as feições tenras e os tiques que denotavam nervosismo e inexperiência, Zoya pôde dissuadir alguns detalhes do estabelecimento e segurança local. Possuía algumas lacunas que iria preencher, porém, sabia o suficiente para prosseguir com o planejamento junto a equipe que encontraria no dia posterior. Não nutria laços emocionais com os quatro, contatando-os apenas para furtos como aquele, conexo a uma janela de tempo menor. Iria levar a maior porcentagem do lucro, e deixar Moscou por alguns meses até a poeira baixar, percorrendo o restante da Europa junto a Alya, sua gata. Um plano sólido que apetecia ambos a ambição e cautela da Koslov, lhe restava colocá-lo em prática e dar sair vitoriosa novamente.
APARTAMENTO DA ZOYA (2019) -- minutos antes da chegada à Eskye
“ ----- Gata interesseira…. ----- ” a russa dispôs um pote com o sachê de comida para a felina, contorcida na mesa rente a uma das janelas que despontavam para uma escada de incêndio. O desprezo concentrado nas feições de Zoya não passava de mera teatralidade, dado ao afeto inesperado que florescera fronte as visitas do animalzinho. “ ----- Deveria ficar aqui de uma vez por todas, sabe que é minha única companhia ----- ” os dígitos da canhora entrelaçaram a alça na xícara, no interior desta repousava um chá de alecrim, divino para a dor de cabeça que açoitava a Kostov, fruto de uma tarde de trabalho e algumas taças de champanhe. “ ----- Céus, esse é o fundo do posso, estou falando com um animal ----- ” sentou-se numa cadeira rende a mesa dominada por Alya, que ferozmente consumia a refeição proposta por Zoya, as orbes atentas aos singelos movimentos da mulher, naquela altura deveria possuir consciência de que a russa poderia ser mais arisca que a própria felina. “ ----- Estou te alimentando de graça e tem a cara de pau de me dar as costas todo dia, sabe que isso é grosseria, certo? ----- ” o riso seco deixou Zoya, a gata concluiu a refeição e esgueirou-se na direção da canhota da ladra, um clamor nada discreto pelo afago que a Koslov concedeu. Passando os dígitos na pelagem macia, divagou os próximos passos de seu plano, um norte perante a solidão que lhe açoitava nas horas gastas no apartamento. Não lhe compreendessem mal, amava o lugar. Uma localização boa, móveis impecáveis e de alta qualidade, a decoração que sempre almejou e alguns quadros que admirava diariamente. Não contentava-se com uma possível escassez de dinheiro, possuía um montante exorbitante e o gastava como julgasse melhor, conquanto, nem todas as festas, viagens e compras do mundo lhe concediam a paz que buscou quando escapou dos pais. Assombrada pelas recordações de sua infância, sentia-se incapaz de operar como um ser humano normal, não havia conserto para alguém como Zoya, e ela compreendia isto perfeitamente. “ ----- Chega ----- ” ergueu a destra da gata, endireitando a postura antes da felina distanciar-se, pulando para a moldura da janela, a Koslov atinou está com um fio de esperança que fosse ficar. No final das contas ela e a Alya possuíam muitas semelhantes, não ousariam permanecer num lugar depois de pegarem o que precisavam. “ ----- Tchau, gata ingrata, te vejo amanhã ----- ” o telefone largado no sofá tocou com uma notificação, seguido da companhia e Zoya soube na hora de quem se tratava, Alexei.
Percorrendo a sala de estar à passos lentos, destravou a trava eletrônica e abriu a porta para o homem. “Consegui umas informações da companhia de segurança que cuida da exposição”. A Koslov bebericou um pouco do chá, fechando a porta atrás de si permaneceu em pé. Não considerava o russo um amigo, parceiro de negócios, seria o correto levando em conta que ambos apenas conversavam quando lhes convinha ou dinheiro estava envolvido. “ ----- Boa noite pra você também ----- ” a entonação denotava puro cinismo da Koslov, constantemente testando a paciência daqueles que optavam por uma aproximação. “Não sabia que ainda se importava com formalidade, Melnik” torceu o nariz perante a mera menção do nome do meio, um adereço que lhe recordava da época em São Petersburgo. “Enfim, o equipamento deles não é grande coisa, pelo que descobri, demoram cerca de quinze minutos pra chegarem depois que um alarme é disparado. Eles devem ter uma porção desses na sala onde guardam os quadros….” um suspiro escapou a loira. “ ----- Dá pra cortar a energia do lugar? Pelo que vi eles tem uma caixa de energia perto da entrada. Deve ativar o alerta, mas ainda teríamos uns dez minutos para pegar tudo e sair… Pelo que consegui arrancar do dono, eles colocaram GPS nas molduras, mas basta quebrar elas e pegar a pintura ----- ” o riso do homem contemplou a calmaria de Zoya, optava por não entrar em pânico ou desesperar-se perante um contratempo destes, algo esperado após os anos como ladra. “ ----- O lugar tem duas entradas, mas só uma saída, vou ver se consigo uma planta do prédio, quem sabe consigo achar uma maneira mais simples... ----- ” mantinha um contato na prefeitura e se desse a quantia certa, ele poderia obter o plano do edifício. “Os quadros valem todo esse trabalho?” a questão pegou Zoya de sobressalto, cerrando os olhos, parou por alguns segundos. Não costumava errar quanto ao que optava por furtar, jóias, dinheiro, obras de arte, informação, o quê fosse, a Kolzov não se dava ao luxo de perder tempo com algo simplório. “ ----- Se não valessem acha que eu estaria passando minha noite de sexta ouvindo você resmungar? É uma boa quantia, eu fico com quarenta por cento, você com trinta, e os outros com o restante, mais que suficiente para sumir do mapa. Pensei que fosse isso que queria ----- ” Zoya possuía consciência de que a situação de Alexei não era tão confortável como a sua, ele era mais conhecido na cidade, e consequentemente a polícia não lhe dava muita trégua. O rapaz precisava do dinheiro, e ela não via problemas em usar isso ao seu favor. “Certo. Veja se consegue a planta o lugar, vou conferir alguma rota de fuga decente de lá. Aquele armazém perto da saída da cidade é um bom lugar para onde levar as obras, já tem um comprador?” a Kolzov não dignou-se em responder, acenando a cabeça positivamente ela denotava algum cansaço, uma deixa para o homem sair dali logo. “ ----- Te encontro amanhã, resolvemos o resto, se tudo der certo no meio da semana podemos fazer isso de uma vez ----- ” aproximando-se da porta a mulher abriu a fechadura eletrônica e Alexei saiu com um singelo sorriso, tão falso quanto o que Zoya dirigiu a ela. Trancando a porta atrás de si, a russa passou alguns segundos encarando a janela do apartamento. Precisava de uma mudança de ares, sair de Moscou lhe faria bem.
(...)
A xícara de chá atingiu o piso do apartamento, pedaços da porcelana cautelosamente pintada mesclavam-se aos resquícios do líquido esverdeado.
O que restava de Zoya naquele mundo.
ESKYE (2019) -- minutos após a chegada
“ ----- Puta merda, eu fiquei louca... ----- ” a conclusão subsequente ao discurso do suposta fora a mais simplória possível para uma mulher como Zoya. Não poderia ser nada além disto. Chaves mágicas? Mundo alternativo? Um monarca estúpido? Nada de razoável poderia explanar aquilo, quiçá as escamas púrpura nos antebraços da russa e as garras que sobrepunham a manicure impecável. O universo estaria punindo a Kolzov pelo prolixa lista de crimes? Não, karma não existia, e se aquilo fosse o inferno, Zoya teria de assumir que o diabo possuía um péssimo senso de humor. Massageava as têmporas na esperança de atenuar a dor de cabeça dilacerante, fechando os olhos pedia para que aquilo fosse um pesadelo, ou um delírio de sua cabeça. É claro que ao abrir as pálpebras e deparar-se com o ambiente antiquado por onde algumas pessoas com orelhas pontudas, asas, ou uma estatura abaixo da média perambulavam lhe provava o oposto. E então surgia a raiva, uma emoção vivenciada desde a infância, numa quantidade exorbitante, que exigia esforço da Koslov para não surtar e cometer homicídio nos piores dias. “ ----- Isso só pode ser brincadeira ----- ” puxou as mangas da blusa para encobrir as escamas, apertando o passo pelo salão na busca de um vislumbre no exterior, parou diante da primeira janela que encontrou, atenta para qualquer um que se aproximasse.
Pressionou os lábios na intenção de conter o grito que ameaçava irromper. Não de tristeza por ter sumido do que consideraria um lar, mas por puro ódio que alguém -- ou algo -- ousasse interferir na sua vida daquela maneira. Sentia-se como uma garotinha importante mais uma vez, a mesma que passou anos lidando com a violência dos pais e o estilo de vida pouco ortodoxo. Escapara de São Petersburgo, a questão que pairava era se poderia evadir um lugar como este. Eskye não assemelhava-se ao mundo que conhecia, não possuía armas ali, ou contato que facilitariam sua vida, tampouco poderia contar com uma conta bancária farta. Estava sozinha. Uma ambiguidade de sentimentos. Levava uma vida solitária em Moscou, forçando-se a permanecer isolada por segurança e praticidade, conquanto, os termos das supostas chaves mágicas lhe soava cruel, por lhe privar da única coisa pela qual mais prezava, liberdade.
As orbes dispersaram-se para as pontas dos dedos, obscuras findavam nas garras afiadas, úteis e inevitavelmente grotescas. Iria sair dali, não importava o que custasse.









