Crônicas de Labyrinx: Savarin, o desafortunado
"Quando encontrei o corpo do meu mestre o sol ainda não tinha nascido. Por um tempo o observei inerte e sem vida pensando em tudo o que passamos durante a nossa fuga do Castelo Negro. Foram meses fugindo das forças da Rainha Ausarta, até pararmos em uma velha choupana escondida nos Charcos da Lástima. As glórias de dias passados hoje morreram com ele. Seu legado era agora um amontoado de baús enormes, livros e muita roupa velha.
Eu ainda tinha alguns restos da comida que cacei dias atrás e um pedaço de pão, que me deram algum sustento naquele dia. Sabia que minha vida de servidão havia terminado ali com ele. Aos poucos ousei mexer em suas traquitanas. Não via sentido naquela enorme variedade de ferramentas e engrenagens as quais desconhecia o propósito. Restou-me folhear seus livros, os quais traziam relatos de suas criações. Os desenhos e esquemas indecifráveis tinham em si uma névoa mística. Sem perceber, passei o dia fuxicando seus pertences e, vez por outra, trocava uma palavra com o cadáver daquele homem, que me fitava com olhos gélidos.
Na manhã seguinte encontrei em uma gaveta uma boa quantidade de moedas e me vesti com suas boas roupas. Resolvi arrumar minhas coisas e partir, mas antes de sair, não sei porque, decide dar um adeus ao meu velho mestre. Depois de falar meia dúzia de palavras, vi em seu pescoço um colar de ouro. De nada lhe serviria uma joia daquelas, então arranquei-a sem hesitar. Para minha surpresa, nele pendia uma estranha chave vermelha, que confesso nunca tinha visto em todos estes anos. Ao segurá-la, senti que era estranha e pesada. Nela estava escrita a palavra Labyrinx e meu destino estava mais uma vez fora de meu controle.
Foi por causa desta maldita chave que retornei à capital, depois de tanto tempo longe. Sternatur é testemunha que fui compelido a voltar, por uma vontade que não era a minha. Sou atormentado todas as noites por sonhos perturbadores, onde me vejo perdido entre dezenas de portas pelas quais sai uma névoa aterradora."
Estranho relato de Savarin ao estalajadeiro da Taverna da Rua Torta, após se embriagar por uma noite toda.