Enquanto você escrevia
Quando acordou, sentiu dores em todo o corpo e sentia como se tivesse tomado uma surra. Seu quarto era outro, cheio de aparelhos e alguns ligados a ela. Quando abriu os olhos enxergou Helena olhando-a e sorrindo como uma criança que acabou de ganhar um pirulito.
– Olha só quem está acordando!
– Hã? Como assim?
Helena apenas ria e contemplava-a sorridente “Que insensível, ela não sabe que eu tenho pouco tempo de vida?” pensou Valentina. Mas de repente ela reparou que estava em outro lugar do que da última vez lembrara.
Porque eu estou em outro quarto? Porque não me deixam ir para casa morrer em paz! Vamos, me ajude a ir embora, não quero passar meus últimos dias aqui.
– Calma! Espere eu vou explicar tudinho para você...
– Como assim “tudinho”? Cadê a minha mãe?
– Ela foi no seu apartamento pegar mais roupas porque as que eu trouxe não eram suficientes.
– Mas eu quero ir embora daqui!
– Ok. Valentina, meu amor e paciência para uma doente acabou ok? Cala a boca e me ouve ok?
Valentina finalmente ficou quieta e parou com o seu ataque de querer sair dali.
– Naquele dia do acidente que eu fui buscar as suas roupas, lembra? Eu peguei uma calça sua e caiu um papel no chão. Eu fiquei pensativa em ler ou não, mas que se dane, afinal, eu achava que nós não tínhamos segredos uma com a outra então não tinha problema. Descobri que você não só mentiu para mim, mas também para Augusto, que levou um pé na bunda sem ao menos saber a razão. Lembrei então que você disse que ele te entregava as cartas de noite em um buraco do banco da estação de trem, então eu vim aqui, entreguei as roupas e me dirigi para lá para tentar encontrá-lo.
Esperei-o, sem ao menos saber da fisionomia, mas eu sabia que ele iria checar o cano de algum banco para saber se tinha alguma carta sua, e como eu previa ele fez. Conversei com ele e contei toda a verdade que ele merecia ouvir. Ele ficou em choque e começou a chorar. Corremos para o hospital e quando chegamos aqui ficamos sabendo que você tinha desmaiado no momento em que disseram que não existia uma possibilidade de transplante para você. Augusto ficou desesperado e chorava como criança. Olha, eu acho que ele gosta mesmo de você sua burra!
– Cala a boca, eu fiz isso por ele.
– Você não fez nada! Disse que era por causa dele, mas você é quem não queria sofrer tendo que lidar com o partir e ele ficando aqui. Mas isso é outra história, não me interrompa.
– Ok, comandante!
– Como eu estava dizendo, Augusto ficou desnorteado e disse que tinha que ter algum jeito de salvá-la e perguntou para o médico. Este último disse que só teria chance de você sobreviver se conseguisse alguém compatível, então ele se ofereceu a fazer o teste. Enquanto isso você continuava sob cuidados e ainda estava inconsciente. Eu fiz o teste também, mas deu negativo, mas o dele... Ah Valentina... O dele deu positivo sua besta! E você queria o deixar ir embora, sendo que ele que traria a vida a você! Mas enfim, eles fizeram uma bateria de exames antes e isso demorou muito, mas era necessário. Depois correram rapidamente para a sala de transplante e fizeram a cirurgia, e agora você está aí sã, salva e viva! Pronta para outra!
As coisas que Helena contou pareciam na cabeça de Valentina surreais, impossíveis de acontecer, era como se ela fosse à fênix ressurgindo das cinzas. Um mito. Enquanto Helena abraçava e a beijava, ela tentava em uma vã tentativa processar tudo aquilo que ela dissera, mas era difícil de entender.
– Então quer dizer...
– Sim, Augusto está no quarto ao lado se recuperando...
– Oh meu Deus! OH MEU DEUS! Eu preciso vê-lo! Eu... Eu...
– Você está se ouvindo? Você não pode sair desta cama agora Valentina! Não seja estúpida! Nem vem...
– Vamos, eu sei que você pode me ajudar a dar um jeito nisso...
– Não! Eu quase te perdi, não vou dar chance ao azar!
Valentina sabendo que Helena se mantinha irredutível e não adiantaria mais insistir, ela desistiu, mas ficou ansiosa... Nervosa ou talvez alegre? Ela não sabia definir, mas sentia múltiplos sentimentos dentro de si e a ância de ver Augusto que estava tão perto dela a consumia a cada minuto parada naquela maca de hospital.
– Mas ele está bem pelo menos?
– Sim, ele já está acordado recebendo todos os cuidados necessários, não se preocupe, se você quiser eu vou ali vê-lo e avisarei ele que você já acordou...
– Não!
De súbito Valentina de repente não queria que Helena mandasse recados, ela simplesmente... Queria ir lá sozinha. Queria vê-lo, abraçá-lo, beijá-lo, pedir perdão... Tantas coisas ela queria e ela estava ali, impotente, incapaz de levantar da cama ainda. Mas ao mesmo tempo ela sentia vergonha ou era medo? Vergonha por ter mentido e medo de ele nunca mais querer vê-la pelo que ela fez. Inúmeras coisas passavam na mente de Valentina, mas ela recuperou a compostura e corrigiu a resposta rude e impensada que ela disse a Helena.
– Digo... Não precisa... Quantos dias eu vou ter que ficar aqui? Meu Deus eu nem consigo acreditar!
Agora já conseguindo processar toda a história, Valentina sorria e tinha vontade de dar pulos de felicidade, mas mal conseguia se movimentar na maca, ela sentia dores.
– Sim! Sim! Temos que comemorar! Pelo que o médico disse, acho que cerca de uma ou duas semanas tu já pode ir para casa!
Pegavam uma na mão da outra e sorriam e sorriam como se alguém tivesse fazendo cócegas em ambas.
– Mas... Ah Helena... Eu...
Valentina por um momento murchou, ela realmente estava chateada em não poder ver Augusto.
– Eu sei... Eu entendo Valentina, mas você tem que entender que é para o seu bem... Logo logo ele já vai estar bom e vai vir aqui te ver, eu tenho certeza!
– Eu sei... “será?” pensou.
– Então muda essa cara e vamos rir porque você está viva! Você conseguiu um milagre! Se contar para alguém aposto que ninguém acredita.
– É verdade.
Alguns dias se passaram e todos davam-se em sorrisos, a alegria parecia não caber no peito. A mãe de Valentina tinha vontade de pular e contar a todos a dádiva recebida. Era como se todos tivessem ganhado na loteria.
Parte 20










