Frank Lowe - The Flam (1976, Black Saint - 120005-2, Ita)
Even without experiencing a significant reputation, saxophonist and composer Frank Lowe has left a diverse legacy and a distinctive aesthetic that puts him among the most creative jazzmen emerged in the 1960s. After moving to New York in 1966, this Memphis native worked with figures such as Alice Coltrane, Don Cherry, Rashied Ali, Joseph Jarman, Sun Ra, Joseph Bowie or Abdul Wadud and maintained fruitful partnerships with trumpeters Lester Bowie and Butch Morris, guitarist Eugene Chadbourne, drummers Phillip Wilson and Charles "Bobo" Shaw and especially with violinist Billy Bang with whom he also played in The Jazz Doctors. Also worth noting is his saxophone quartet Saxemple or the association with poet Jayne Cortez.
Initially influenced by John Coltrane and the first Free-Jazz waves of the 1960s, Lowe went on his own way and adopted an explorative and emotional language under which he forged an unmistakable aesthetic. Stimulated by the more extreme variants of jazz and surely by the protest of the black community against oppression, his music results in collective improvisations with a considerable load of energy and hostility.
Part of the valuable legacy of the Italian record label Black Saint, "The Flam" integrates the lot of recordings that its founder Giacomo Pelliciotti rescued from the most alternative and less appealing (to major labels) jazz. An intense and energetic work that in a way marks the turning point of Lowe's career, which here demarcates from his basic references to coin a fierce style where improvisation and the forms not based on predetermined harmonic structures constitute the master lines.
Recorded in 1975, "The Flam" incorporates the ingredients of the aggressiveness and nonconformity manifested by the Free-Jazz of the 60's but also by some more contemplative moments. This symbiosis of forms is noticed right from the opening theme - "Sun Voyage" - by Joseph Bowie. Following the motto given by Bowie's trombone and Leo Smith's trumpet, Lowe dives into a language of strong improvisation where the most revolting moments are peppered with touches of graceful contemplation.
In the only song written exclusively by Lowe - "The Flam" - the three soloists give voice(s) to a chorus in unison, followed by a brilliant moment by Alex Blake (bass) that opens the door to a parade of individual performances by Leo Smith (trumpet and flute) and Lowe in a moment of unparalleled intensity. Lowe also assumes the role of conductor, encouraging his "orchestra" with a kind of whispers intelligently captured by Giacomo Pellicciotti's production.
Equally relevant to the overall success of this set are the contributions of Charles "Bobo" Shaw (drums) and Alex Blake (double bass and electric bass). Through an intuitive dynamic, Blake's irreverence and improvisational sense merge with Shaw's inventive approach into a unique sound that, more than being described, has to be heard and felt.
The B-side opens with "BE-BO-BO-BE", a "rhythm" of abstract patterns with fascinating dialogues of drums and saxophone, trumpet and flute, exquisitely accompanied by the others. While Lowe's ferocity is demonstrated in the first part, the tune follows to more introspective paths, but always with a heavy load of energy and improvisation.
Then comes "Third St. Stomp," a joint composition by the five members that transports us for yet another moment of full strength and intensity for over 10 minutes. Here, the album reaches its wildest and most exploratory side, though maintaining the spontaneity and seduction of the remaining pieces. The irregular textures and the strong dissonances confer a sense of irreverence and ferocity, but also of madness and pantomine in the good style of the Art Ensemble of Chicago. The vigorous electric bass, sometimes played like a guitar, is followed by a series of solos and dialogues where the high intuitive sense seems to be the watchword. The personal stamp given mainly by Leo Smith, clearly denounces the influence of AACM and other avant-garde movements from Chicago and New York. The rhythm section is breathtaking and soloists are immensely competent both in the aggressiveness as in the more atmospheric moments. Finally, in a brief note by Leo Smith (of less than 1 minute), "U.B.P." closes the album in a more relaxed moment.
Throughout this session, the quintet develops an organic and instinctive relationship that results in a jewel that embodies what really should be a free-jazz session. For those less familiar with this style, this is certainly not an album to love at first audition. As in many other cases where boldness and creativity are raised to an extreme level, this music requires an initial effort and an unprejudiced listening. Only in this way, and after several auditions, one will have the pleasure to fully enjoy this work conceived without concessions and commitments to please.
The quality of this recording also adds to the overall enjoyment of its audition. Transparency and separation of instruments are extremely captivating, allowing a closer proximity to artists, to their complicity (for example, the bass-drums duo) and thus resulting in a tremendous listening experience.
Total or partial reproduction of the contents of this site is strictly prohibited. It can only occur with prior permission of the author. To that end, please contact [email protected]
Mesmo sem ter gozado de uma reputação significativa, o saxofonista e compositor Frank Lowe deixou-nos um legado diversificado e uma estética inconfundível que o colocam a par dos Jazzmen mais criativos emergidos na década de 60. Depois de se ter mudado para Nova Iorque em 1966, este nativo de Memphis trabalhou com figuras como Alice Coltrane, Don Cherry, Rashied Ali, Joseph Jarman, Sun Ra, Joseph Bowie ou Abdul Wadud e manteve parcerias frutíferas com os trompetistas Lester Bowie e Butch Morris, o guitarrista Eugene Chadbourne, os bateristas Phillip Wilson e Charles "Bobo" Shaw e principalmente com o violinista Billy Bang com quem também tocou nos The Jazz Doctors. Destacam-se igualmente o seu quarteto de saxofones Saxemple ou a associação ao poeta Jayne Cortez.
Inicialmente influenciado pela musica de John Coltrane e pelas primeiras vagas de Free-Jazz da década de 60, Lowe seguiu o seu caminho e adoptou uma linguagem explorativa e emocional sob a qual forjou uma estética inconfundível. Estimulado pelas variantes mais extremas do jazz e seguramente pelo protesto da comunidade negra contra a opressão, a sua música resulta em improvisações colectivas com uma considerável carga de energia e hostilidade.
Parte do inestimável acervo da editora italiana Black Saint, “The Flam” integra o lote de discos de lançamento que o seu fundador Giacomo Pelliciotti resgatou junto do jazz mais alternativo e pouco apelativo para as major labels. Uma obra intensa e energética que de certa forma marca o ponto de viragem da carreira de Lowe, que aqui se demarca das suas referências basilares para cunhar um estilo feroz onde a improvisação e as formas desprovidas de estruturas harmónicas predeterminadas constituem as linhas mestras.
Gravado em 1975, “The Flam” incorpora os ingredientes da agressividade e inconformismo manifestados pelo Free-Jazz da década de 60 mas também por alguns momentos mais contemplativos. Esta simbiose de formas distingue-se logo desde o tema de abertura - “Sun Voyage” - da autoria de Joseph Bowie. Seguindo o mote dado pelo trombone de Bowie e pelo trompete de Leo Smith, Lowe envereda por uma linguagem de forte improvisação onde os momentos mais revoltosos são salpicados por toques de uma contemplação graciosa.
No único tema escrito exclusivamente por Lowe - “The Flam” - , os três solistas dão voz(es) a um coro em unísono seguido por um momento brilhante de Alex Blake (no baixo) que abre as portas para um desfile de performances individuais de Leo Smith (trompete e flauta) e Lowe num momento de intensidade sem paralelo. Lowe assume igualmente o papel de maestro, incentivando e conduzindo a sua “orquestra” com uma espécie de sussurros inteligentemente captados pela produção de Giacomo Pellicciotti.
Igualmente relevantes para o sucesso global deste set são as contribuições de Charles “Bobo” Shaw (bateria) e Alex Blake (contra-baixo e baixo eléctrico). Através de uma dinâmica intuitiva, a irreverência e sentido improvisacional de Blake funde-se com a abordagem inventiva de Shaw numa sonoridade única que, mais do que ser descrita, deve ser ouvida e sentida.
O lado B abre com "BE-BO-BO-BE", um “ritmo” de padrões abstratos com diálogos fascinantes de bateria e saxofone, trompete e flauta, requintadamente acompanhados pelos demais. Enquanto a ferocidade de Lowe é demonstrada na primeira parte, o tema segue por caminhos mais introspectivos, mas sempre com uma forte carga de energia e improvisação.
Segue-se “Third St. Stomp”, uma composição de autoria conjunta dos cinco membros que nos transporta para mais um momento pleno de força e intensidade ao longo de mais de 10 minutos. Aqui, este trabalho atinge o seu lado mais selvagem e exploratório, embora mantendo a espontaneidade e sedução das restantes peças. As texturas irregulares e a forte dissonância conferem um sentimento de irreverência e ferocidade mas também de loucura e pantomina á boa maneira dos Art Ensemble of Chicago. O baixo eléctrico vigoroso , por vezes tocado como uma guitarra, dá seguimento a uma série de solos e diálogos onde o elevado sentido intuitivo parece ser a palavra de ordem. O cunho conferido sobretudo por Leo Smith, claramente denúncia a influência da AACM e de outros movimentos mais vanguardistas nascidos em Chicago e Nova Iorque. A secção rítmica é arrebatadora e os solistas são imensamente competentes quer nos momentos mais agressivos como nos mais atmosféricos. Por fim, num parco apontamento da autoria de Leo Smith (com menos de 1 minuto), “U.B.P.” encerra o álbum num momento de maior tranquilidade.
Ao longo desta sessão, o quinteto desenvolve uma relação orgânica e instintiva que resulta numa jóia que personifica o que realmente deve ser um registo de free-jazz. Para os menos familiarizados com este estilo, este não será por certo um disco de amor à primeira audição. Como em muitos outros casos onde o arrojo e a criatividade são elevados a um patamar extremo, esta música requer um esforço inicial e uma audição sem preconceitos. Só assim, e após várias escutas, se terá o prazer de desfrutar em pleno desta obra concebida sem concessões e compromissos para agradar.
A qualidade desta gravação também contribui para o prazer geral da sua audição. A transparência e separação dos instrumentos é extremamente cativante, permitindo uma proximidade aos artistas, à sua cumplicidade (por exemplo, o duo baixo-bateria) e assim resultando numa tremenda experiência auditiva.
A reprodução dos conteúdos deste espaço é expressamente proibida. A mesma só poderá ocorrer com a autorização prévia do autor. Para tal, favor contactar [email protected]