Considerada precursora do punk-rock e figura conhecida no mundo das artes de Nova York e do mundo, como poeta, desenhista, fotógrafa e escritora, Patti Smith já tinha escrito o seu romance de geração com Só Garotos (2010). Nele, refaz sua trajetória ao lado do fotógrafo Robert Mapplethorpe: seu companheiro e parceiro de muitas jornadas. Foi meu primeiro contato com a obra literária de Patti Smith e confesso que o li - relativamente - com mais entusiasmo há uns dois ou três anos do que agora quando li o seu último trabalho: Linha M - um livro mais reflexivo, tomado por uma atmosfera intimista, que registra suas impressões sobre a vida, os lugares e as pessoas com quem teve contato, conviveu ou admirou ao longo das décadas. Nesse livro, Patti Smith presta uma homenagem a Fred: seu marido, amor de toda a vida e pai de seus dois filhos. Se pudéssemos demarcar suas fronteiras, Linha M pode ser classificado como memórias, livro de viagem e, ao mesmo tempo, de impressões sobre o mundo e a vida. Com todos esses elementos reunidos, é também a fonte de onde emana o tom poético e de amor ao mundo e a vida de Patti Smith. Ao longo de pequenos capítulos, temos uma celebração - principalmente - a literatura e a seus escritores de cabeceira, com infinitas obras, romancistas e poetas deslizando por suas páginas, lembranças e impressões. Em Linha M, Patti Smith imprime sua paixão pela literatura de uma forma que, no decorrer da sua leitura, somos impulsionados ler os romances de Roberto Bolanos e Haruki Murakami, Jean Genet e William Burroughs, além de tantos outros que vão aparecendo na mesa do Café Ino, em Nova York, onde Smith se refugiava em diversos momentos do dia e tomava notas em sua moleskine. Em Linha M, a paixão pelo universo literário se materializa na reverência que Patti Smith presta em suas viagens aos romancistas mortos, quando sempre encontra uma oportunidade para levar flores e outros objetos para os túmulos em que jazem - como fizera com Sylvia Plat e Jean Genet, ao visitar seus jazigos na Inglaterra e no Marrocos, respectivamente. Em Linha M, por outro lado, ficamos próximos de um ser solitário, convivemos com ela no refúgio do seu pequeno apartamento no Greenwich Village, em NYC, com seus gatos e séries de televisão - como The Killing e CSI Miami. Refletimos juntos com Patti Smith na solidão de seus devaneios, pensamentos e sonhos, perambulamos com ela pelas ruas da cidade de NY a procura de um café aberto para passar as horas - na sua habitual mesa de canto a olhar o tempo e inscrever suas notas nos guardanapos de papel. Tem capítulos marcantes, como o da sua viagem ao Japão, a Guiana Francesa e a Inglaterra ... para fotografar o túmulo de Sylvia Plat. Mas, lamentavelmente, nesta edição da Companhia das Letras, o lado fotógrafa de Patti Smith foi secundarizado, mesmo com todo o potencial de Linha M para também ser um livro de fotografia… porque parte indelével da vida e das viagens de Smith. (O curioso é que o grande ausente, em Linha M, é o universo da música, a trajetória musical como cantora e compositora de Patti Smith, pois só em raras e discretas passagens é que aparece uma menção a sua admiração por John Coltrane e o registro a uma referência de Fred a uma canção de Louis Armstrong).