Banksy, sem dúvida o mais famoso artista de rua do mundo – que ninguém sabe muito bem quem é, que dirá se é uma pessoa só –, é também um dos críticos mais inspirados da fetichização da arte de rua. Recentemente, montou uma banca no Central Park, em Nova Iorque, e vendeu obras originais por US$ 60. No mercado de arte, qualquer coisa que leva seu nome vale milhares de dólares; em junho, por exemplo, um painel de sua autoria teve preço mínimo estipulado em US$ 1,3 milhão. No experimento nova-iorquino, apenas três pessoas compraram telas suas.
Mas sua preocupação com a relação entre arte de rua e mercado não é de hoje. Em 2010, Banksy lançou o documentário “Exit through the gift shop” – para ver, dá play lá em cima. O próprio nome já é espertinho: faz referência à rota de saída dos museus europeus, que obriga o visitante a passar pela loja de souvenirs antes de deixar o local.
O filme acompanha a trajetória de Thierry Gueta, videomaker francês radicado em Los Angeles que se dedica a registrar o trabalho de artistas de rua em todo o mundo. Em determinado momento, Gueta decide tornar-se ele mesmo um artista, sob o pseudônimo Mr. Brainwash. Com um trabalho de qualidade questionável, logo Gueta torna-se um sucesso estrondoso de público e, principalmente, de venda.
Um mistério ronda o filme a respeito da veracidade de seu conteúdo, questionando se “Exit through the gift shop” é mesmo um documentário ou “a maior obra artística de Banksy”. Thierry Gueta jura que sua história é verdadeira, assim como o próprio diretor. Falso ou não, o filme coloca em debate questões muito reais e prementes sobre a arte de rua inserida em uma sociedade de consumo, sobre autenticidade, sobre o que faz de uma pessoa um artista.
Documentaries have an important role in recording culture that’s unlikely to make it into the history books. DOGTOWN AND Z-BOYS was the Bill of Rights for skate culture. Having said that, my film was never going to be an authoritative history of street art. Or even an authoritative history of the selling-out of street art. We realized halfway through the edit that the ending needed to be as unresolved as possible. I’ve learnt from experience that a painting isn’t finished when you put down your brush – that’s when it starts. The public reaction is what supplies meaning and value. Art comes alive in the arguments you have about it. If we’ve done our job properly with EXIT, then the best part of the entire movie is the conversation in the car park afterwards. – Banksy
Ainda nesse universo de falsos documentários dedicados ao mundo das artes, vale citar “Um tigre de papel”, do diretor colombiano Luis Ospina. Lançado em 2007, o “documentário” parte da suposta vida do colagista Pedro Manrique Figueroa para discutir os últimos quarenta anos da vida política colombiana. Figueroa torna-se um símbolo para o retrato de toda uma geração de artistas militantes de esquerda que terminaram suas vidas em exclusão. Ospina conseguiu que figuras importantes do cenário artístico local dessem depoimentos como se fossem amigos ou estudiosos do trabalho de Figueroa, o que deixa tudo mais autêntico e confuso.
En tiempos de confusión los falsos documentales ayudan a desarrollar estrategias reflexivas, que los convierten ya no en distintivos de la ficción sino en marcadores de la realidad; forman parte de una dialéctica histórica nutrida por lo verdadero y lo falso [...] La figura de Pedro Manrique Figueroa es un mecanismo para establecer conversaciones con respecto al pasado en un tiempo presente. Al proponerme hacer un falso documental sobre este artista, un representante típico del arte y la política en Colombia en los años sesenta y setenta, estoy cuestionando la validez última de los acontecimientos históricos documentados, proyectando una sospecha sistemática sobre las capacidades técnicas, prácticas e institucionales de la creación de realidades verdaderas y su credulidad. – Luis Ospina
Como fica claro, Ospina, ao contrário de Banksy, avisa logo que se trata de um falso documentário, o que não tira nada de sua relevância. Para assistir, clique aqui.
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