Film after film: The Metamorphosis of Birds (dir. Catarina Vasconcelos, 2020)
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Film after film: The Metamorphosis of Birds (dir. Catarina Vasconcelos, 2020)
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"Eu me lembro de três homens. O primeiro deles é alguém de quem eu guardo um vídeo corriqueiro com carinho. É o que dirigia em vermelho, respondia a tudo com "batata" e era uma feriado em forma de homem.
O segundo era mais marginal, uma espécie de babaca juvenil. Tenho imagens dele bêbado guardadas em pastas antigas, uma espécie de prova de falta de caráter - dele, sempre dele. Eu nunca disse que o amava.
O terceiro eu disse que amava primeiro. Esse foi o meu erro em relação a ele. Ainda me lembro de como ele sempre me colocava para caminhar do lado mais distante da avenida quando andávamos pela calçada das ruas. O único dos três que jamais tirava os óculos, ainda que todos fossem míopes.
Apesar da cronologia de suas histórias, apenas um deles ocupa o indiscutível primeiro lugar de mim mesma. Uma certeza que jamais vou superar, embora já tenham se passado anos. Gosto de fantasiar que um dia o avistarei da esquina dos meus olhos, me encarando como se duvidasse do que visse.
Os outros dois, apesar da importância de seus rostos em meu corpo e minha mente, fortes demais para serem comparados a quaisquer outros homens que me tocaram, apesar disso, esses dois se alternam entre o segundo e o terceiro lugar do meu pódio miserável. Há dias em que é o homem protetor quem está em segundo. Outros, é o babaca quem é o vice.
Mas todos atearam fogo no prêmio. E é a isso que me atenho quando sou assaltada pela lembrança ingrata de seus rostos, alturas, semblantes, sobrancelhas e sorrisos. E é a isso que me seguro. Às suas faces incendiárias.
A vida tem dessas coisas.
Igraínne M.
Naquele dia, esqueci de dizer muitas outras coisas, Manuel. Eu estava realmente fora de mim, o horror tinha me dominado, por motivos que fogem a você. O fato de eu precisar de uma válvula de escape me levaram a enviar aquelas mensagens. Eu poderia dizer que não é culpa sua, mas parece que ultimamente tudo tem sido culpa de vocês. E quando digo vocês, refiro-me a vocês, homens. Deve ser incrível permitir-se amar novamente, ainda que seja uma figurinha repetida. Deve ser incrível conseguir algo assim. E digo isso com convicção, e não com sarcasmo. Isso porque uma das coisas que acho que não conseguirei fazer de novo é amar. Sabe, eu disse isso antes. Disse algumas vezes no meio daquele texto. Algumas pessoas só não conseguem. Eu tentei com alguns depois de você. Deixe-me contar sobre eles. Talvez você seja capaz de sentir um pouco do que senti ao vê-lo abraçado com a mulher que veio exatamente antes de mim. Comecemos pelo Engomadinho. Vamos chamá-lo assim para evitar que você o procure nas redes, uma vez que sabemos que você é bom em stalkear. Infelizmente só descobri isso agora, senão teria mexido no seu celular enquanto você estava no banho para verificar suas últimas buscas no fb (enquanto ainda estávamos juntos, é claro). Enfim, voltando ao engomadinho, ele era um eleitor do Bozo. À época, a separação brasileira não acontecia, de modo que o deixei passar apenas porque ele tinha um rostinho bonito. O fato é que ele me tratava mal. Pior do que isso, tratava mal as irmãs e a mãe, que aliás falava gritando. Eu não queria conhecê-la, é claro, mas ele estava empenhado em apresentar mulheres (qualquer uma) à família. Fomos para a cama duas vezes, ambas dignas de lágrimas. Eu não queria ir pra cama com ele, e só me dei conta desse fato depois de ter acontecido. Foi péssimo, me senti usada e ele era realmente ruim nisso. A falta de autoestima dele era proporcional ao ego inflado. Teve também o Peito Largo. Esse era severamente mais confiável - embora apenas até a página dois. Saímos duas vezes antes de ele tentar me comer e eu acabar em lágrimas dentro do carro dele. Um dia depois, conversei com muita gente e decidi que eu estava sendo quadrada demais. Mas não deu certo. Assim que transei com ele, caí em prantos no lençol, sem cerimônia. Chorei tanto que ele imediatamente me levou pra casa. No dia seguinte, pedi desculpas e ele não respondeu. Sumiu por dois meses e reapareceu dizendo que estava com saudades. Eu o bloqueei. Curto. O terceiro e provavelmente o único que achei que daria certo é o senhor Designer 2. O sr. designer tinha 188 de altura, míope e uns vinte quilos a menos que você. À distância, eu poderia dizer que ele se parecia bastante comigo. Poderia ser meu irmão, talvez, a não ser pelo par de olhos fundos. Bastante solitário e traumatizado, tivemos o que pode ser chamado de um rolo duradouro. Encaixávamos melhor na cama e ele me abraçava de verdade. Me apresentou à mãe dele, um verdadeiro anjo que quase me agradecia por distrair o filho e também salvá-lo dela própria. Sr. designer me pediu em namoro quando estávamos ocupando o mesmo lugar ao mesmo tempo. Uma semana depois, terminou comigo alegando não saber lidar com a pressão de namorar alguém. Eu tinha comprado uma caixa enorme de chocolate de aniversário pra ele. Joguei no lixo. No fim, ele era apenas um sociopata. Chorei por dois dias e depois nunca mais. Fiquei seca mais rápido dessa vez. Logo depois dele, passei o que pode ser chamado de meses da escuridão. Fiquei com pessoas que você conhece apenas para a informação chegar a você. Além disso, conheci um cara que tinha tido câncer, outro que tinha a língua presa. Nenhum deles passou do primeiro encontro. Em seguida, veio o Confusão. Esse é o mais recente. Transava tão bem que eu praticamente estava apaixonada pela bunda dele. A essa altura, eu não transava há mais de oito meses e tudo o que ele fazia me era superestimado. Ele usava drogas de modo esporádico, respondia mensagens apenas uma vez a cada dois dias e tinha alergia a relacionamento. Certa vez, marcamos de sair e ele me deixou esperando duas horas. Nesse dia, eu chorei no quarto apenas por ter medo de que ele me machucasse. Uma semana depois, Confusão me chamou pra viajar com ele. Pensei em aceitar, mas acabamos brigando por bobeira e eu não fui. Mais do que isso, eu terminei nosso rolo por medo do que ele poderia acabar fazendo com a minha cabeça. Hoje ele visualiza todos os meus stories. Eu sequer visito o perfil dele. Depois do Confusão, teve mais uma rodada da escuridão. Um amigo me chamou pra sair e fez cara de paisagem sobre me pagar um sorvete. No meio da conversa, falou que ia se mudar. Cheguei em casa e falei que deveríamos apenas seguir sendo amigos. Depois, conheci um médico igualmente desentendido sobre o sorvete. Baixinho, me olhou de cima a baixo antes de me cumprimentar e decidir que, sim, ele ia admitir que tinha me reconhecido. Com um papo mega cansativo e argumentos que beiravam o raso, não durou sequer uma hora antes de eu inventar uma desculpa para ir embora. Enfim. Por hoje é só, Manuel. Amanhã eu volto com mais desabafos.
Igraínne M.
Oi, Manuel. Sabe, eu não aguento mais. Não aguento mais você me olhando, de todos os ângulos possíveis, só para escorrer desprezo e afirmar que não, não me vê. Odeio o modo como você pede para as suas amigas me olharem, odeio como você mesmo se esconde, quando na verdade os meus bloqueios para você já se foram há meses. Odeio a maneira como você se esconde, só para colocar embaixo da coberta uma foto com a pessoa que veio exatamente antes de mim em uma fila que jamais existiu. Odeio o fato de eu não ter acessado o seu mundo por quase um ano, só para, na única vez em que pedi ajuda para fazê-lo, me deparar com a mulher que eu menos queria ver ali. É verdade, eu só olhei para você uma única vez em 365 dias e só vi uma única foto quando te visitei. Mas ela me rasgou em tantas partes que me prometi jamais deixá-lo perto de mim novamente. Especialmente pela injustiça que você insiste em plantar, dia após dia, me bisbilhotando, me avaliando, me olhando, me inaugurando. Não tem mais nada para você aqui. Você me matou de 44 maneiras diferentes. Me matou com tanta força que eu já não sou capaz de viver para mais ninguém. Eu sou sozinha. E me orgulho disso como você jamais entenderia. A força com que você me atropelou foi a mesma que você gerou em mim, involuntariamente, ao me machucar. Eu sou a mulher mais forte que eu já conheci. E você o mais covarde que eu já vi. Desejo felicidades com seu passado.
Igraínne M.
O tempo escorria pelas beiradas. Eu te via me perseguindo e queria me esconder, queria me afastar de você. Mas aí eu lembrava das suas fotos, do seu desprazer em verificar, dia após dia, todos os meus fracassos em superar. Deve ser incrível poder me olhar. Deve ser incrível assistir, todas as vezes que você quiser, meus segundos gravados para o mundo. Deve ser incrível fazer isso, mesmo sabendo que eu não posso fazer o mesmo com você. Mas eu te vi. Uma única vez em quase 365 dias. Eu vi o que você tanto se esforça para esconder. E aí eu sumi.
Igraínne M.
É penoso, é pesado, é insano Eu era todas as mulheres em uma só Eu desafiava, eu chorava 40 lágrimas Dia após dia Sem chover ou sem maresia Era São Paulo Era Rio de Janeiro Era Portugal Um trio de insanos homens Em complô imoral Um delinquente, um arquiteto e um enorme Capazes de me decaparem Com navalha, com estilete ou sem me chamarem Eu queria sofrer Eu queria desaparecer Mas vocês estavam, os três Focados em mim Em minha tirania Em minha magreza, Em minha incerteza.
Igraínne M.
Hoje eu joguei suas roupas fora. Separei cada camiseta deixada para trás, cada pedacinho que ainda cheirava a você. Coloquei tudo em um saco plástico e tirei da minha casa. Foi difícil, mas foi mais fácil do que eu achei que seria - e isso já me satisfaz , mesmo que por enquanto. Eu entendo que você não queira mais falar comigo, eu devo ser insuportável (na verdade eu sei que sou, eu fico triste e intratável). Sabe, toda a sua indiferença me atingiu como um verme parasita que come o hospedeiro aos poucos. Começou lentamente pelo seu egoísmo, terminou devagar como uma morte torturante. Me pergunto se foi assim com você também. De longe, eu diria que não. De longe, eu diria que você foi igual aos outros, a todos os outros, inclusive aos que me traíram. Afinal, veja só onde foi parar. Agora você é só mais um texto no meu tumblr. É como confiar no trapezista do circo, Manuel. Eu digo muito isso hoje em dia. É como confiar que o outro acrobata vai te pegar no meio do ar, assim que você saltar. Mas aí ele não te pega. E você cai, sem dó, bem lá embaixo, sabendo que assim que encontrar o chão, tudo estará perdido. É exatamente assim. É como confiar que alguém não vai foder o espetáculo, mas aí esse alguém fode tudo - até com você. Eu não sei onde eu te magoei tanto. Parte minha acredita que você me despreza, exatamente como um homem despreza a mosca que ronda a comida, porque você tem necessidade de se vingar. E eu posso te dizer, com total certeza, que nada do que eu fiz jamais se comparará ao que você fez a mim. E isso me permite ter o privilégio da vítima. Isso me permite a ausência da culpa. Eu te amei pra caralho. Pena que eu disse isso primeiro.
Igraínne M.