Hoje eu assisti um youtuber que perguntava à sua audiência, “Você deixaria de ler um autor, como José Saramago, só por ele ter apoiado regimes como o de Cuba?”, e ele logo dá a sua opinião, “Eu não deixaria, e acho uma besteira quem deixa de le-lo só por causa da sua ideologia contrária.”.
Bom, não é preciso dizer que eu concordo inteiramente com a afirmação do influenciador. Mas não deixo de pontuar que, na minha convicção, ele só tem esse ponto de vista porque estava se referindo à autores que possuem a mesma ideologia da sua.
O que eu gostaria de saber é, será que a sua resposta vale à pessoas que não se importam em ler autores de direita que suavizam regimes totalitários de direita? Acredito que não.
A pergunta do youtuber foi levantada a respeito do episódio ocorrido com o jornalista Marcelo Tas e o comediante Marcelo Adnet no programa Roda Viva, no qual o jornalista questiona Adnet por ser um comediante de esquerda, já que em Cuba não há comediantes, segundo ele.
A opinião de Tas foi infeliz, não há dúvidas. O que me levanta essa bola é o fato de haver muita gente do establishment brasileiro dizendo que Cuba foi, e é um país de muito mais livre expressão do que “a extrema direita tenta propagar”.
Bom, sabemos que em Cuba, assim como em qualquer outra ditadura, seja de esquerda ou de direita, não há livre expressão. Sabemos que o regime cubano perseguiu e torturou homossexuais no século 20, só para citar um exemplo. Recomendo que assistam Antes do Anoitecer, com Javier Bardem na história verídica de um escritor gay perseguido pelo regime cubano.
Então veja, a afirmação de Tas é extremamente infeliz quando ele tenta dizer que todo alguém de esquerda no Brasil é alguém que se solidariza com regimes totalitários de esquerda. Mas é igualmente infeliz quando há pessoas de esquerda dizendo que em regimes totalitários, como o de Cuba, houve liberdade de expressão.
Esse episódio me faz crer numa coisa, que as guerras de narrativa no Brasil são muito mais sútis do que mostram ser. O ponto não é simpatizar-se com regimes totalitários; seria muito mais digno se uma pessoa dissesse isso de boca cheia. O ponto é quando pessoas, sejam de esquerda ou de direita, tentam amenizar e passar pano para as atrocidades que alguns regimes cometeram no passado com o intuito de prosseguir uma agenda ideológica do presente.
Que fique bem claro, eu não me simpatizo nem com a esquerda e nem com a direita, muito menos com regimes totalitários de ambos. Mas acho importante incentivar que as pessoas que o fazem “saiam do armário”. É do nosso direito saber quem elas são.
Enquanto isso não for uma realidade, não só meros influencers continuarão levando essa demagogia adiante, como também políticos com suas propostas de governo autoritárias maquiadas pelo “bom-senso e liberdade em nome do povo”.