A Marqueza merece a sua atenção e nós vamos explicar o motivo
A história de Marqueza, líder cultural e sindical, é exposta em Campinas. É um acerto de contas com o país que insiste em manter a trabalhadora doméstica como uma figura invisível.
A história da trabalhadora doméstica no Brasil é um longo tratado sobre a arte da invisibilidade. É um ofício que se aperfeiçoa no silêncio, na ausência de ruído, na presença que não incomoda. O trabalho ideal é aquele que, ao fim do dia, se apaga junto com as luzes do sobrado.
A exposição em homenagem à Marqueza, figura que foi central na defesa da cultura afro-brasileira e, simultaneamente, na organização sindical dessa categoria, propõe o exato oposto. Não é uma mostra para ser percorrida com o olhar; é um documento para ser lido.
Foto retirada do site da Prefeitura de Campinas: https://fotos.campinas.sp.gov.br/index.php?/category/4588
"Quantas Marquezas o Brasil teve?"
A historiografia nacional relegou a mulher negra a papéis pré-definidos, o corpo hiperssexualizado ou a figura cultural folclorizada. A possibilidade de uma liderança política que unisse duas frentes, a cultural e a trabalhista, foi varrida para as notas de rodapé.
Para entender Marqueza, é preciso entender o país. A exposição confronta duas narrativas que a elite brasileira sempre tentou manter em cômodos separados.
A primeira é a da cultura como resistência. A defesa do samba, do jongo, do candomblé ou da capoeira nunca foi uma questão de folclore. Sempre foi uma estratégia de sobrevivência, uma afirmação de identidade. Num país que, desde o fim do século XIX, embarcou num projeto de branqueamento nacional, manter essas tradições vivas era um ato de desafio.
Foto retirada do site: https://sinddomcampinas.wordpress.com/
A segunda narrativa, paralela, é a da Marqueza líder sindical. E é preciso compreender a radicalidade deste gesto. O trabalho doméstico é a herança mais direta e duradoura da Casa-Grande.
A luta pela sua organização foi uma epopeia de coragem absoluta, como a de Laudelina de Campos Mello, que fundou a primeira associação da categoria em Campinas, ainda em 1936.
Quem foi Laudelina de Campos Mello? Assista o vídeo completo e entenda sua história!
Essas mulheres não estavam numa linha de produção fordista, onde poderiam cruzar os braços e parar a máquina. Elas trabalhavam isoladas, dentro da casa dos patrões, em ambientes de vigilância total e sob o jugo de relações falsamente afetuosas que mascaravam a exploração. A organização era, antes de tudo, uma rede de apoio e de construção de consciência de classe.
Marqueza e suas companheiras estavam na vanguarda, exigindo que o afeto e o cuidado, tão cobrados delas, fossem reconhecidos como labor qualificado e digno de direitos. Foi uma batalha que atravessou o século e só viu a igualdade plena, no papel, com a PEC das Domésticas em 2013.
O Brasil tem 5,8 milhões trabalhadores domésticos, a maioria mulheres negras. Em 2013, 33% eram formais. Atualmente, apenas 25% trabalham co
A genialidade de Marqueza reside aí, na união das duas frentes. Ela entendeu que a mesma estrutura que marginalizava o jongo era a que explorava a trabalhadora na cozinha. A luta por dignidade era uma só.
O convite para esta exposição, portanto, não é um de lazer. É um de cidadania, ou talvez, um dever cívico. Visitar a mostra é, em alguma medida, um ato de reparação.
Crédito: Prefeitura de Campinas
É nossa responsabilidade, como cidadãos, conhecer quem construiu esse país. A cultura não é feita apenas de artistas renomados em grandes museus; ela é forjada na luta diária de mulheres como Marqueza.
Honrar Marqueza, afinal, é um gesto de honrar a possibilidade de um Brasil que, um dia, se entenda.















