GLADIADOR, MEFIBOSETE E MATILHAS
“Quem é teu servo, para teres olhado para um cão morto como eu?” II Samuel 9:8
Um dos meus filmes favoritos, o qual já vi e revi vezes sem conta, dá-se pelo nome de “Gladiador”. Lançado há quase 20 anos, e com o incrível Russell Crowe como protagonista, tem um enredo, perspectiva, banda-sonora e imagens fantásticas. Um filme épico que não usa de vãs sensualidades ou pornografia gratuita para atrair público, como tanto se vê no mundo cinematográfico contemporâneo.
Uma das cenas que mais me marcaram no filme – spoiler alert – é quando o novo imperador romano, possuído por ciúmes e inveja da posição do seu general, ordena a morte deste e da sua família. Esta é uma cena capaz de marcar a memória a ferro quente. Os soldados percorrem o caminho de acesso à casa do general, ouve-se o barulho do galope, as armaduras a ranger. O filho desce a estrada, numa correria desenfreada em direção aos soldados, imaginando que seria o pai a regressar a casa. De repente os rostos mudam, eles vinham para dizimar, queimar, matar, e fazer todo o mal que conseguissem fazer. A esposa e o filho, completamente desprotegidos, são enforcados e queimados.
É impossível dissociar esta cena do que aconteceu (ou deveria ter acontecido) com Mefibosete. O costume, quando uma família real era deposta e substituída sem ser por linhagem, era que o novo rei dizimasse a antiga família real, para que não houvesse possibilidade de uma revolta. Assim nunca ninguém se levantaria a reclamar o trono por direito e linhagem. Quando Davi, o novo rei, sabe que ainda existe um neto de Saul, prontamente o manda chamar. É aqui que eu calço as sandálias de Mefibosete. Aleijado de ambos os pés, sabendo que não tinha por onde fugir, totalmente desprotegido e ciente dos costumes e do seu destino, observa os soldados a entrar no caminho de acesso á sua casa. Cada galope dos cavalos era uma flecha no coração. O barulho das armaduras fazia tremer a alma. O primeiro pensamento que lhe passou pela cabeça deve ter sido: - EU VOU MORRER! SEREI DIZIMADO.
Os soldados chegam, transportam-no até à presença do Rei. O seu coração bate.
“O próprio Rei deve querer matar-me, talvez para demonstrar ao povo quem é verdadeiramente o novo Soberano da nação.”
Ele chega à presença de Davi e prostra-se, encosta a cabeça na terra, e espera pelo golpe certeiro. E é aí que ouve as palavras bondosas e amáveis que dizem:
Não tenhas medo. Vou-te fazer bem.
A resposta é tanto natural como curiosa. É natural que ele responda, em pranto e lágrimas, que não merece tudo isto. E curiosa na medida em que se apelida de “cão morto”, como algo inútil e desprezível. Ele sabia que não merecia o que Davi lhe estava a fazer. Esta era uma graça imerecida, a qual ele não conseguia compreender.
A verdade é que eu e tu, não somos melhores que Mefibosete. Somos cães mortos, atingidos pela graça e misericórdia de um Deus bondoso. O que merecíamos era exactamente ser dizimados pelos exércitos e cavalaria do grande Rei. Isto porque diariamente roubamos a glória que lhe é devida e tentamos usurpar o seu lugar. Mesmo assim, fomos transportados até à sua presença pelo seu amor. Não fomos dizimados, mas amados. Imerecidamente amados. A reposta a este amor? É prostramo-nos como Mefibosete. Arrependermo-nos de tudo o que temos sido, de tudo o que lhe tem afrontado, de toda a glória que temos roubado ao nosso Deus, e crermos em Jesus Cristo – a prova do amor de Deus por nós (Romanos 5:8) – aquele que restabeleceu o relacionamento, que trouxe paz com Deus, pelo seu sangue, que pagou o preço que nos era devido, que sofreu a ira a nós destinada.
Quem somos, para Deus ter olhado para uma matilha morta como nós? Somos mortos trazidos à vida pelo imenso amor do nosso Deus.
“...estando nós mortos em nossos delitos e pecados, nos deu vida juntamente com Cristo – pela graça sois salvos” Efésios 2:5












