Conversa com a mãe de uma menina trans de 9 anos
Então gente, mês passado conheci uma mãe de uma menina trans de 9 anos de idade através da minha psicóloga que propôs para pela uma reunião comigo e outros homens trans para que ela pudesse conhecer pessoas trans, conversar conosco e ter uma melhor ideia de como apoiar a filha dela nesse processo.
Bom, primeiro de tudo acho importante dizer que eu achei incrível a atitude dela de estar procurando respostas para os dilemas da filha, pois não é uma situação fácil na nossa sociedade e só dela estar bem intencionada e procurando dar o apoio necessário pra a filha, já é ponto positivo para ela, acredito que a visibilidade que estamos recentemente ganhando na mídia também tem feito o seu papel.
No caso dela, a filha tem muita dificuldade de dizer como se sente e ela fica apavorada sem saber o que está se passando na cabeça da filha, eu me identifiquei com essa mãe porque eu também tenho uma namorada que tem dificuldade em dizer como se sente e que também me deixa doidinho por causa disso.
Então, uma dica que eu dei para ela foi sempre conversar normalmente sobre o tema, nunca fazer caras de espanto ou brigar quando o assunto surgir, porque isso só faria com que a filha dela se fechasse ainda mais dificultando mais ainda a intervenção dela como mãe.
Mas nem tudo são flores, essa mãe em questão ainda estava em processo de aceitação da situação da filha e durante toda a conversa permaneceu chamando-a de filho e em negação a respeito do real problema. Ela tem procurado se informar e pesquisar mais sobre o assunto e acredito que ela tenha potencial para ser uma mãe incrível para essa menina em um futuro próximo.
No dia-a-dia da casa dela, ela me contou que é mãe solteira, mora com os pais, que dão pitaco na educação da filha dela, o que acaba dificultando a situação das duas pois a família da mãe é bastante religiosa e a mãe em sí é espírita. Minha mãe também é espírita e inclusive deu de presente um livro espírita para essa mãe que fala sobre a transexualidade para auxiliá-la nesse processo de aceitação e saída do armário como mãe de uma menina trans.
A menina de 9 anos eu não cheguei a conhecer, mas pelo que eu entendi do que conversei com essa mãe e com a minha psicóloga ela deve estar morrendo de medo de assumir essa identidade feminina, hora falando que é de fato uma menina e em outros momentos voltando atrás, o que deixa a mãe dela muito confusa, mas é normal ter dúvidas, quando eu estava me descobrindo trans eu também tive, o que é algo que poucas pessoas trans falam pois existe muito o discurso de que quem é trans “sabe e pronto”.
A mãe da menina durante a conversa também pareceu um pouco preocupada com a questão hormonal e com as cirurgias, explicamos para ela como funcionava e o conhecimento a libertou, tenho certeza que depois desse bate-papo ela saiu de lá bem mais tranquila, sabendo que o tratamento hormonal é algo que leva tempo, que é possivelmente para o resto da vida e que as mudanças não acontecem da noite para o dia, e que, se bem acompanhada, não causará problemas de saúde.
Eu acho que a melhor coisa que pais de uma criança trans ou pessoa trans podem fazer por nós é nos proteger, que é a real tarefa dos pais, ser o nosso escudo protetor. Bater no peito e dizer ess@ é meu filh@ e pronto. Ninguém vai discutir com um pai ou com uma mãe quando você estiver usando o nome social da sua criança, já para a criança é sempre alvo de contestação. E é muito importante ter esse apoio dos pais.
Precisamos ser felizes! E tenho certeza que é isso que a grande maioria das mães e pais desejam para seus filhos: A felicidade. Então gostaria de deixar claro aqui nesse texto para possíveis outros pais e mães de pessoas trans lendo, a importância que vocês tem na nossa vida e o quão a transexualidade é parte intrínseca de nós, o quanto a transição é necessária e muitas vezes um caso de vida ou morte.
Cada família funciona de uma forma então não posso me responsabilizar e dizer que como funcionou para mim vai funcionar para a criança de vocês, a única coisa que eu posso dizer é: Tentem não chocar seus filhos com péssimas primeiras reações, porque é isso que os faz fechar-se e é isso que os traumatiza para sempre.