Desde cedo eu aprendi a me virar sozinho. Com quinze anos, começando a transicionar do feminino para o masculino, eu impus a todos que me chamassem de Oliver. É óbvio, vivendo numa sociedade arcaica e um tanto retrógrada, que os olhos e julgamentos logo pesariam sobre mim. Naturalmente falando, com essa idade o pré-adolescente está descobrindo seus novos pêlos, engrossando a voz, tendo suas primeiras experiências e dando seus passos iniciais rumo à independência. Eu, porém, estava pegando minha mochila e indo para outro estado na tentativa de ser aceito por algum desconhecido que simpatizasse por mim. Curitiba, minha família, meus amigos e tudo que fizera parte até esses anos já eram. Não sabia nomear o que queria, mas sabia que não deveria mais estar onde estive. Depois de uma longa e entediante viagem de ônibus, eu desci na Rodoviária do Tietê, na Selva de Pedras. Em seguida, parti para o centro da cidade decidido que ali eu teria o que queria: um recomeço para ser eu. No centro de uma megalópole há de acontecer algo, pensei. Centros têm cheiro de bebida alcoólica, urina, comida de botequins, fumaça de carro e lixo. Mas é nos Centros das cidades que tudo flui. Desci na Estação da Luz e fui andando para a Praça Princesa Isabel. Eu não sabia que ia ser tão bem-vindo ali. É um local que o demônio, com sua melhor roupa, voz, palavras e gestos, te convida para entrar, para se deliciar com um bom café e para dizer que tu podes permanecer o tempo que for preciso para que ele tenha tempo suficiente de te devorar por inteiro: fio de cabelo por fio de cabelo; unha por unha; dente por dente; pulmão por pulmão; neurônio por neurônio; alma por alma. Eu estou falando da Cracolândia. Alguém me cutucou e disse que aquele lugar não era para mim. Retruquei e falei firmemente que qualquer local que não seja perto de pessoas que me magoam e não gostam de mim é para mim. Ele: velho, barbudo, preto, estava vestido de calça, de chinelos, camisa de deputado, boné para frente, seus olhos diziam coisas tristes e me levavam a pensar nas dores dos seus últimos anos e o quão forte ele tinha sido até aqui. Ao seu lado estava seu companheiro e amigo, o vira-lata mais dócil e que logo fez amizade comigo. É..., acho que alguém gostou de mim aqui. Já tenho onde ficar esta noite — na humilde barraca de camping de Seu Zé. Não irei passar frio, fome nem sede — ao menos não esta madrugada. Não sei o que me espera, entretanto sei que tudo vai se desenrolar ainda mais. Ou não. Boa noite. Eu estou cansado. A viagem foi longa. Não sei onde eu estou nem tampouco por quê, mas hoje vou dormir aqui. Deus abençoe um menino de quinze anos em busca de algo além da liberdade ao qual ele não sabe o nome.
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