A carta número 23 foi a última carta desse Primeiro Ciclo.
Ao terminar de escrevê-la, e mesmo depois de reler por vezes mais, ainda é difícil diferenciar o que eu sempre fui e o que eu passei a ser depois do experimento.
A sensação que eu tenho é a de que hoje sou muito mais consciente, talvez até uma pessoa um pouco melhor do que eu era antes.
Se isso é um fato ou não, acho que não tem muito como saber, não é? O máximo que posso fazer é comparar as minhas reações frente às adversidades e situações em geral antes e depois dos processos meditativos.
Talvez eu não tenha mudado de uma forma tão óbvia, mas as mudanças internas são inquestionáveis.
Poderia escrever um livro com todos benefícios físicos e mentais da rotina que adotei. Mas, pra mim, naquele momento, alguns pontos foram os principais:
• A capacidade humana de mudar;
• Conhecer e identificar o que é bom pra mim;
• Aprender a me acalmar.
A capacidade humana de mudar... Ah, nós não temos a mais leve noção do quanto essas mudanças são possíveis e de como elas podem acontecer rapidamente.
Somos capazes de nos transformar em praticamente tudo o que quisermos. O que significa também, que somos capazes de enfrentar coisas das quais nem temos conhecimento.
Ao reconhecer essa capacidade em mim, reconheço-a no meu próximo também, e isso me motiva não só a sonhar mais e lutar para alcançar meus sonhos, mas também a incentivar que todos façam o mesmo, dentro das possibilidades que temos.
Eu quero lembrar aqui, de novo, que nada é só “força de vontade” e que ninguém vive só de incentivo. Mais uma vez, quero enfatizar que a desigualdade social existe e que, quando aponto isso, não estou dizendo que as pessoas que não têm uma série de privilégios não vão alcançar seus sonhos, nem que as pessoas que têm privilégios com certeza vão alcançá-los. Estou querendo, mais uma vez, que a noção da realidade que nos cerca é imprescindível e que temos que respeitar e entender as causas e condições das outras pessoas antes de apontarmos dedos.
A capacidade de mudança também me trouxe curiosidade sobre a vida, a vontade de querer saber o que vai acontecer depois e como eu vou lidar com as adversidades que vão ser apresentadas no meu caminho.
Entender a capacidade humana de mudar é entender que, quando eu te reconheço como um ser humano completamente mutável, não há porque não ter fé ou esperança em você, mesmo quando a minha concepção sobre o seu caminho é negativa.
Isso me trouxe mais empatia e menos ódio.
É mais difícil se deixar levar pela irritação quando você vê na sua frente uma pessoa como reflexo de várias situações das quais você provavelmente nunca vai saber nem a metade.
E, se eu sou um ser humano e o ser humano é dotado da capacidade de transformação, por que eu não poderia transformar as coisas que não me fazem bem? Os meus sentimentos negativos excessivos?
Andava muito triste antes do experimento, um estado imutável de incontentamento e desesperança com a vida... Comecei a prestar mais atenção.
Mudar requer uma série de observações e experiências.
A meditação me proporcionou, como já falamos, um conceito mais amplo da minha mente.
Olhei mais de perto como tudo o que eu via, interagia, consumia, falava, lia e ouvia me afetava.
Algumas coisas a gente se sente “bem” fazendo, mas nos fazem mal.
Outras coisas, não parecem agradáveis no processo de fazê-las, mas nos trazem um bem imenso. Essas coisas não são fixas, e podem se encaixar nas duas categorias conforme o momento que vivemos.
E nós PRECISAMOS entender a diferença!
Vamos exemplificar isso de uma forma muito óbvia?
Um alcoólatra se sente bem bebendo, mas isso só o afunda mais. A sensação de beber pode ser boa, mas as consequências que causa em excesso são totalmente destrutivas.
Por outro lado, fazer exercícios pode parecer torturante alguns dias, mas costumam trazer uma sensação de bem estar e saúde depois de realizados.
No fundo, nós sabemos o que nos faz bem e o que não faz e, algumas vezes, pra melhorar, precisamos nos submeter à alguns processos que não são agradáveis.
Eu fazia muitas coisas que me traziam uma falsa sensação de bem estar, mas que me faziam sentir muito mal horas ou dias depois. E eu sabia disso, mas não me submetia ao que me faria bem a longo prazo por serem difíceis de serem feitas no presente.
Isso, pra mim, nesse experimento foi uma das principais mudanças.
Hoje, a minha capacidade de analisar e de não me prender só ao que parece trazer satisfação imediata sem pesar as consequências é muito clara pra mim.
E aqui entra o terceiro ponto: aprender a me acalmar.
A sensação de explodir, às vezes, é muito satisfatória. Parece muito fácil, não?
Você está irritado, então faz qualquer coisa pra explorar essa sensação, sem se dar conta de que as consequências disso podem ser brutais, e alimentam a própria irritabilidade.
Aí voltamos ao conceito budista: a sua vida é resultado de uma série de condições, causas e consequências.
Bom, hoje eu quero séries de causas, condições e consequências boas pra mim.
E, ao mesmo tempo que a mudança é inerente ao ser humano, é preciso querer mudanças positivas pra que elas tenham a possibilidade de acontecer.
E é com essas reflexões que eu encerro as transcrições do primeiro ciclo.
A minha rotina hoje não é tão restritiva quanto foi enquanto escrevia as cartas, mas muitas coisas e reflexões desses 23 dias continuam comigo: acordar cedo, meditar, me exercitar e refletir como eu me apresento pro mundo e o que eu estou fazendo pra me manter bem todos os dias, e tentar entender o que não está certo quando me sinto mal, e saber como mudar sempre que for necessário.
Isso é uma coisa que todos nós podemos fazer, e eu posso te garantir, por experiência própria, que vai mudar a sua percepção da sua vida e da vida das pessoas ao seu redor.
Quando escrevi as cartas, esperava que a minha versão que as lesse fosse mais sábia e mais controlada do que a minha versão que as escreveu.
Não sei dizer se estou mais sábia, mas creio que, se soubesse, não estaria.
Se alguém ler isso, espero que você saiba que, se você está tentando, você é uma pessoa incrível e que tudo o que você faz de bom vai te fazer viver melhor em algum momento. Não desista.