Eu estava deitado na grama, as estrelas brilhavam no céu. Pequenos pontos brilhando a milhares de quilômetros. No meu organismo, o vinho barato de quinze reais, os cigarros de sabor e maconha, como sempre.
Mesmo deitado, sentindo o universo me abraçando, ou qualquer pensamento hippie que podia estar se passando na minha cabeça, eu queria ver outras estrelas.
Ir para longe da cidade e ver as luzes, estrelas falsas, que de perto parecem confusas, mas ao longe, parece uma constelação. Uma constelação de toda a loucura que é um dia na cidade.
A loucura que é ver essas pessoas, cada um com a sua tribo, os hippies vendendo miçangas no centro, os hipsters de cabelo comprido preso em um coque e barba arrumada, esse tipo de porra.
A loucura do trânsito, quando você só quer pisar no acelerador, mesmo que só um pouco, mas a pista parece uma corrida de obstáculos.
Essa velha merda de sempre.
De perto sempre tão confusa, mas de longe, parece tão bonito. De longe tudo fica melhor, no fim é tudo uma questão de perspectiva.
Eu ainda estou deitado no gramado, é na casa do meu amigo, eu não me lembro, acho que tocava Led Zeppelin, mas isso simplesmente não importa, o fato é que a porra do universo estava me abraçando, e naquele momento, eu me senti insignificante.
Não é tão terrível assim se sentir insignificante, as pessoas deviam fazer mais isso. Lembrar que no fim, somos insignificantes. Uma formiga num enorme formigueiro, cheio de outras formigas, rodeado de outros formigueiros ainda maiores que o nosso. E isso só se tratando só do nosso universo.
A noite acabou passando, e eu saí do estado de transe, e eu sai dirigindo, acelerando, me sentindo livre, não me importei se estava gastando combustível, nem nada, estava apenas dirigindo, aquela sensação de liberdade, mesmo que limitada, que é tão incrível e tão poderosa. Aqueles rápidos momentos que você esquece que tem uma corrente que te diz o quão longe você pode ir.
A minha esquerda, as luzes laranjas da cidade ao longe, minhas estrelas, minha constelação, a constelação do caos que vive ao meu redor. O caos que as pessoas dizem querer se livrar, mas no fundo não vivem sem.
Queremos o caos, amamos o caos, nós somos o caos.
Tudo isso, é nossa culpa, no fim somos os nossos próprios deuses, causando desgraças na nossa própria vida e na vida de outras pessoas. Podemos ser deuses e diabos, e no fim, escolhemos ser diabos. Anjos malignos que só ajudam quando isso nos beneficia.
Um bando de hipócritas querendo pagar de bons samaritanos.
O carro ainda acelera, sem música no rádio, apenas ouço o motor do carro. O velocímetro subindo, sem radar na pista.
Estou livre de tudo isso, mesmo que por cinco minutos.
Passo por lugares que me trazem memórias, boas ou ruins, não importa, somos feitos de memórias, são o que me define. Foda-se se elas não são boas.
Passo em frente da casa do meu antigo amor, aquela que me fez acreditar que valia a pena se entregar de verdade, acabou tudo na merda, mas chupar os peitos dela no banco de trás do carro foi incrível, e isso já me basta como uma boa memória.
Olho no relógio, quase quatro da manhã, sinto vontade de ver mais um nascer do sol, mas deixo para lá, a noite já foi longa o suficiente, e quando amanhece, a minha constelação favorita já não está mais lá, ela se apaga como um sopro em uma vela.
Começo a voltar para casa, no sangue o efeito da maconha já está fraco, todo o vinho barato que tomei já foi mijado.
Desejo a minha cama de solteiro, solitária, como sempre, mas não desejo companhia, e caso tivesse uma, provavelmente não daria conta, não depois de ver a constelação do caos, ao menos sou honesto.
Deito na cama no fim da noite, pego no sono quase de cara, e o universo que antes me abraçava, fica do lado de fora, e quem me abraça agora é o meu travesseiro.
Texto de autoria de Danilo Campaner