Com os braços para fora, os cigarros dependurados na boca, Pedro acelera seu opala amarelo, no passageiro, Michael bebe uma mistura caseira de whisky e cachaça, “boa para acordar”, como diria Mike.
O velocímetro marcava mais de cem quilômetros por hora enquanto cruzavam o deserto. Cactos, areia, sol escaldante, um cenário típico para filmes de velho oeste com Clint Eastwood.
Ambos com cabelos compridos, balançando com o vento. No som do carro, o primeiro disco do Black Sabbath toca a toda a altura, o carro tremendo com o volume das caixas de som.
Mike olhou no relógio de pulso com o desenho do Mickey, o mesmo relógio desde a segunda série, ele não iria se desfazer dele por causa de um desenho infantil, o relógio ainda funcionava. O horário era 16:10.
-São quase quatro e vinte, cara – disse Mike.
-Quando for quatro e vinte eu paro o carro e a gente fuma um.
-Mas eu preciso bolar, cara. E com o carro nessa velocidade, eu não vou conseguir.
-Aguenta um pouco, Mike, eu não estou a fim de parar agora.
-Tudo bem, cara, só para daqui a pouco.
Mike olhou no velocímetro do carro, cento e vinte quilômetros e aumentando a cada segundo enquanto Pedro entrava em uma curva levemente acentuada.
Pedro não parecia se importar com a velocidade, com os óculos escuros, olhava fixo para frente, sem destino, sem vontade de parar, quase que uma fuga.
Sempre fora assim, sempre adorou carros, sempre se interessava pelos carros novos que eram lançados, queria saber a velocidade máxima, qual marca, qual modelo. Pedro chegou a pensar em fazer engenharia mecânica na adolescência. Imaginou que carros poderia fazer. Mas na adolescência ele também descobriu que ele precisava entender física para ser engenheiro, e isso era algo que ele nunca iria entender.
Mike tentou não pensar tanto na velocidade, olhou para o relógio de novo, já passava das 16:10. Ele conferiu no seu bolso direito da frente da calça jeans surrada, e ainda estava lá. Ele gostava de olhar para o pequeno saquinho, dentro um prensado.
Ele levantou o saquinho mais ou menos na altura dos olhos de Pedro, e começou a balançar insistentemente. Pedro sorriu, sem olhar para Mike, levou sua mão direita à boca para tragar mais uma vez seu cigarro, e disse:
-Tudo bem, Mike. Eu vou parar.
Ele foi reduzindo a velocidade e foi levando o carro para a direita para fora da estrada. Ao sair da estrada, uma nuvem de poeira se ergueu ao redor do carro. Pedro desligou o carro, mas manteve o som ligado.
Ao som de “Behind the wall of sleep” ele disse:
-Black Sabbath é fodido, Mike. Eu ouço esse maldito disco todo o dia.
-Eu sei, cara. Ozzy está na melhor época nesse disco, é só sentir a voz do cara.
Pedro jogou o filtro do cigarro pela janela e ficou olhando para a estrada parada. Nenhum carro estava passando, e eles também não passaram por nenhum carro o tempo inteiro. A estrada era do seu opala amarelo, herança do seu avô.
-A melhor coisa que meu avô fez, - disse Pedro- foi ter me deixado esse carro de herança. Eu amava aquele velho, pena que ele bebia mais que o opala.
-E nós seguimos os passos dele, não é? – disse Mike sem tirar os olhos da maconha. Ele bolava o baseado lentamente, sem se preocupar com quanto tempo isso iria levar. Mike levava isso como uma arte, e Pedro sempre o chamava de artista por isso.
Pedro e Mike deram risada.
-É, - disse Pedro enquanto uma lágrima surgia em seu olho – eu vou sentir falta daquele velho.
-Todos vamos, cara, eu também gostava dele.
-Sabe, o dia inteiro eu tenho pensado, e se eu tivesse ido no velório?
-Não se culpe, cara. Eu tenho certeza que ele não ficou chateado. Mantenha as memórias boas, e isso, com certeza, não é uma memória boa.
Pedro assentiu com a cabeça e sorriu para Mike, ele sabia sempre o que falar nessas horas, mesmo que fosse simples.
Mike terminou de bolar o baseado e olhou para o relógio do Mickey, 16:20, exatamente.
-Bem na hora, amigo – disse Mike.
-Você é um artista, cara, e é por isso que eu te amo.
Pedro pegou o isqueiro que estava no bolso de dentro da jaqueta de couro e deu para Mike.
-É a lei do duende, cara. – disse Pedro – Quem bolou, acende.
Ele acendeu e deu uma longa tragada. Ele segurou a fumaça por alguns instantes e soltou, e bem na mesma hora ele tossiu.
-Esquecemos de pegar comida, cara – disse Mike enquanto passava o baseado para Pedro – Sem larica por hoje.
-Se eu achar algum lugar na estrada com comida eu paro e comemos.
-Se você achar, cara, é uma maldita estrada fantasma.
-É por isso que eu gosto dela. – disse Pedro enquanto fumava o baseado.
-Você tem esses pensamentos sempre?
-Ficar sozinho, ficar andando sem rumo. É um hobby isso?
Pedro deu de ombros enquanto dava mais uma tragada no baseado. Segurou a fumaça, e tossiu. Passou para Mike de novo e disse:
-Me dá um gole dessa porra que você trouxe.
-Tem certeza? Você está dirigindo.
Mike gargalhou e passou a garrafa pet com a bebida para Pedro.
Pedro bebeu como se fosse água, grandes goles. Um, dois, três, quatro, cinco goles. Depois devolveu a garrafa para Mike.
-Vai com calma, cara – disse Mike.
Pedro ligou o carro e acelerou com toda força de volta para a estrada, seguindo em frente em sempre. A paisagem sempre igual a frente deles, e mesmo assim, Pedro se sentia fascinado pela estrada. Não sabia bem o porquê, talvez o silêncio e paz no deserto, talvez a solidão que se sentia no lugar.
Não demorou muito, e o velocímetro voltou a subir sem parar.
O baseado voltou para mão de Pedro, outra longa tragada, outra tosse seca.
-Para onde vamos, Pedro? – perguntou Mike olhando para o velocímetro que não parava de subir.
Mike deu mais uma tragada no baseado e disse:
-Por que você corre tanto?
-Não sei, só gosto de ir rápido, principalmente atrás de um volante.
-Você parece que está fugindo, cara. Sabe, estrada solitária, alta velocidade, vou ver carros da polícia atrás da gente?
Mike gargalhou enquanto passava o baseado para Pedro mais uma vez.
Pedro tragou o baseado e olhou para a janela. Viu os cactos passando com toda a velocidade pelo carro, como se estivessem acenando para o carro, a areia do deserto, correndo ao lado do carro, como em uma esteira a toda velocidade.
Pedro não olhava para frente, apenas para o lado, admirava a paisagem, sabia que a estrada seguiria reta, mais que isso, ele sentia que a estrada seguiria reta.
“Malditos cactos, são uma cópia um do outro”, pensou Pedro, “todos eles iguais, todos eles acenando para esse carro”.
-Talvez eu esteja querendo fugir, cara.
-Responsabilidades, sociedade, estas bostas.
-Não dá para fugir disso, cara. A não ser que você queira ser como aquele cara daquele filme que a gente assistiu uma vez, aquele que foi para o meio do mato e acabou morrendo...
-Aquele cara era um gênio, Mike, se cansou de toda esta merda e foi para longe.
-E acabou morrendo no final da história, completamente sozinho.
-Todos nós vamos morrer sozinho, Mike. Veja meu avô, um belo dia, ele simplesmente não acordou, e ainda demorou alguns dias para sentirmos falta dele.
Mike simplesmente deu de ombros, percebeu que não valia a pena discutir sobre se as pessoas iriam ou não morrer sozinho, apenas disse:
-Os problemas, cara, não estão na sociedade, mas na sua cabeça, eles vão para onde você for.
-Você parece meu vô dizendo isso, Mike.
-Porque ele já falou isso para mim.
-Mas por que você quer fugir da sociedade, Pedro?
-Sei lá, eles cobram de mais, julgam de mais, fodem de mais. Eu detesto esta porra, sabe, Mike? Eles não conseguem me deixar em paz, Mike, eles não conseguem deixar a gente em paz, Mike. Quer dizer, não podemos fumar nossa maconha sem sermos julgados, não podemos ser gays sem ser julgados...
-Claro que entendo, cara, mas, ficar acelerando numa estrada sem movimento nenhum não parece ser a melhor solução.
-Eu sei que não, mas eu gosto deste lugar, da paz deste deserto. A solidão as vezes pode ser a sua melhor companhia, te garanto isso, cara. Meu vô sempre dirigia por aqui comigo quando eu era criança, nesse mesmo opala que estamos fumando maconha.
-Ele deve estar orgulhoso da gente, Pedro.
-Eu sei que está, ele estaria fumando um com a gente se estivesse vivo, e provavelmente ele estaria dirigindo.
Pedro se manteve acelerando, indo em direção a sua fuga, enquanto Mike terminava o baseado.
As horas foram passando, Mike continuou contando os minutos para o próximo baseado, Pedro manteve o pé firme no acelerador. Nenhum dos dois se preocupou com o tempo que foi passando. O dia aos poucos foi se ponto e a noite foi se aproximando, mas os dois não tinha pressa. A vida era muito curta, e uma noite acelerando pelo deserto solitário, não era nem um pouco ruim.
“Vou sentir saudade do meu velho”, pensou Pedro quando viu o sol se pondo no retrovisor a sua esquerda. E as estrelas, à frente iam surgindo, clareando a noite.
-Meu vô está ali, Mike. – disse Pedro apontando para o céu através do para brisa – Ele é uma estrela nesse céu hoje. Vamos fumar por ele, Mike.
Pedro parou o carro de novo, e Mike começou a bolar. Sem luzes na estrada, apenas com a luz da lua para iluminá-los, era como se a natureza lhe desse sua benção.
-Eu sinto o meu vô aqui, Mike – disse Pedro tirando os óculos, os olhos inundados de lágrimas.
-Esse, - disse Mike mostrando o baseado bolado – vai para o seu Sérgio. O vô que eu nunca tive.
E assim eles passaram a noite, entre aceleradas e paradas para fumar. Assim como uma roda que nunca para de girar, um ciclo sem fim, este ciclo, estava apenas começando.
Texto de autoria de Danilo Campaner.