( ☼ ) —— Com o arco nas costas, Jules franzia o cenho para os limites do Acampamento Meio-Sangue. Estava fazendo mais patrulhas e vigias do que o normal, considerando todo o problema que apareceu no colo dos semideuses naquela semana. Ao ver uma forma subindo a colina, o filho de Apolo logo amenizou a expressão, feliz em identificar quem era. —— Ei, Lucian! —— Julian cumprimentou o meio-irmão assim que o viu, acenando para o rapaz com um sorriso no rosto. —— Ei, olha só, você vai ficar na vigia comigo hoje. Vai dar certo! —— E disse com uma confiança que só ele poderia ter, já que acreditava que o Universo estava ao seu lado. Apesar de não seguir fielmente o que sua mãe dizia — Faça amor, não faça guerra! Nunca faça guerra, Jules! — por ser um semideus (e precisar se defender constantemente de monstros), esperava que seu karma não estivesse tão alto assim. Bem, tinha que acreditar que o melhor aconteceria, afinal, pensamentos bons atraíam coisas boas para sua vida. Era meio complicado seguir nessa filosofia, mas o Moon se agarrava as suas raízes toda vez que as coisas estavam difíceis demais. —— Eu trouxe vários lanchinhos, mas não sei se você vai querer. Trouxe várias frutas, faz bem pra saúde... mas tem um chocolatinho também. Equilíbrio é tudo.
When physical recovery, spiritual strength, and a sense of mission and authority are interconnected, the heart becomes as delicate as dew and filled with emotions. The early morning hours not only alleviate fatigue but also infuse the soul, mind, and body with strength, making it a time when one is born as a sovereign.
Morning state The state of your body when you wake up in the morning dictates your day. If you wake up without physical recovery, the day feels difficult. Spiritual strength and a sense of mission and authority also fade. Thus, the early morning is essential. Even a short period in the early morning should include a personal method to recover from fatigue, making the heart as delicate as dew.
de certa forma, era novo no mundo dos semideuses. não era novo sabendo que era filho de uma deusa, afinal, isso havia sido deixado claro inúmeras vezes pela própria. mas, a maneira como nêmesis havia o criado era outra. bem diferente de como havia criado seu outro filho, ethan nakamura, o vilão que posteriormente se converteu. não. enquanto ethan tinha uma jornada até seu último sacrifício, tadeu era um algoz. protegido e monopolizado por sua mãe, alheio ao acampamento meio-sangue e a qualquer possibilidade de ser um dito herói, pelo menos não do modo como ethan havia sido. nêmesis sempre dissera que existia heroísmo em punir quem se safou de seus pecados mundanos. talvez fizesse sentido. e, talvez, diferente de perder um olho, sua condenação era a contínua visão de todas as coisas terríveis feitas por todas as pessoas que sentenciava, ali, encravadas em sua mente. sua condenação era nunca esquecer.
não queria ser um heroi assim. não sabia em que momento tudo o que via apenas o tornaria amargo demais. acima de tudo, tadeu entendia que sua natureza era como uma balança. sempre maldita balança. e em algum momento, ela se quebraria. só haveria um lado. não achava que estar com nêmesis o faria justo quando se sentia tão perturbado pelas próprias memórias. que sequer eram suas. portanto, ela o ofereceu a única outra opção: o acampamento meio-sangue. não por bondade, mas por capricho. ela já havia determinado que seu filho não era um justiceiro, era um vingador. mas o deu a chance de entender com seus próprios olhos. os olhos que tadeu tanto queria que fossem seus, não dela.
pois ele iria a mostrar que poderia ser o melhor herói daquela porra de lugar. que teria um monte de amigos e não precisaria dela para mais nada. ela perderia sua aposta.
talvez não fosse o modo convencional de querer fazer o bem, mas ainda assim, foi com as melhores intenções que entrou naquele carro “gentilmente concedido” com devora e lynx, pronto para finalmente mostrar a nêmesis que ela não escolheria o destino de mais nenhum de seus filhos. mas, obviamente, também pensava em como tornaria isso possível de forma tática. não era bom em estratégias, até porque, poderia ser o mais velho em idade, mas era o mais novo em tempo de acampamento. havia levado consigo o sangue frio para ataques furtivos e olhos letais escondidos atrás de lentes escuras. não era um guerreiro ruim, na verdade se esforçava muito para compensar em batalha o que se recusava a avançar em habilidade mágica, porém era inegavelmente traiçoeiro. funcionava melhor apunhalando pelas costas.
o restante da viagem não foi ruim para ele. apreciava conversas trocadas e também sabia levar os momentos de silêncio numa boa, tinha sempre bastante o que refletir, afinal. sua última missão havia sido uma falha sem qualquer contrapartida. apenas um apanhado de erros, mas, diferente da antiga equipe, com aqueles ali possuía bem mais afinidade. eles tinham alguma coisa áspera, ácida. um comportamento que combinava com o seu. muitos provavelmente não achariam isso bom, mas para tadeu jamais seria ruim encontrar pessoas com faísca. aquele era um carro entupido de pessoas temperamentais, mas felizmente haviam caído do lado certo da coisa e existia um senso de simpatia os rondando.
certamente após cinco horas de viagem e nenhum direcionamento exato de onde ir, tadeu aceitou a sugestão de sair para beber. existiam algumas ressalvas a respeito do lugar, claro, já que detestava interiores. sua experiência durante as caçadas aos pecadores sempre levavam a algum fim de mundo onde uma pessoa monstruosa comeria suas atrocidades passando por cima da lei, e se tratando de um interior americano, pior ainda. ah, claro, e também odiava universitários. universitários do interior então? que pesadelo.
para sua sorte, bastava um pouco de bebida e qualquer jovem imbecil riria do seu temperamento por lhe considerar brincalhão. já havia passado por isso várias vezes antes: o choque de alguém lhe responder atravessado instigava. os óculos escuros também. era algo a ver com a peculiaridade de usá-los até no escuro, talvez? ele nunca explicava, a não ser que planejasse passar mais de algumas horas com alguém, que era quando inventava alguma mentira crível.
ali, não existia nenhum interesse em nenhuma daquelas pessoas. isso é, até avistar uma moça o encarando do outro lado da sala. seu cabelo era longo e escuro, sua roupa era um vestido laranja combinando com o tom de pele quente, e havia algo em seus olhos que o chamavam. mesmo vendo as cores foscas, ele ainda enxergava o brilho. deveria ter o achado incomum, mas o achou encantador. ela era bem mais interessante do que saber sobre cursos, períodos ou viagens estúpidas de riquinhos mimados. sequer se recordava agora de quais mentiras havia inventado além do nome falso, teddy.
não muito depois de oferecê-la uma bebida, tadeu já tinha uma ideia muito melhor do que fazer. pensou em ir até o banheiro, ou em algum beco escuro, mas, no fim, preferia o carro. se qualquer um dos dois reclamassem no dia seguinte, se resolveria depois. não sobrava muito espaço quando tudo o que queria era tirar a roupa de sua desconhecida charmosa. uma desconhecida como ele. ah, era revigorante.
infelizmente, o êxtase só durou até a menção em tirar seus óculos. com o peito desnudo e um olhar confuso, alarmado pelo contato das mãos geladas da mulher, tadeu os segurou firmes em seus olhos.
❛ o que é que você esconde aí? ━━━━━ era impressão sua ou a voz dela soava muito menos agradável do que antes, com o barulho da música alta abafando o timbre?
❛ é uma condição ocular rara. ━━━━━ falou, tentando não soar tão confuso quanto antes. porém, assim que seus olhos finalmente focaram na figura sentada em seu colo, no banco da frente, foi como acordar de um transe. os olhos encantadores finalmente eram esquisitos o suficiente para assustá-lo, e seu impulso foi esticar o braço para abrir a porta do carro.
uma atitude arriscada.
tw: sangue, briga, ferimentos.
a empousa se agarrou ao seu corpo, usando o próprio peso para tentar derrubá-lo no chão. seu sorriso era diabólico. enquanto tentava se desconfiar da criatura colocando peso em cima de seu corpo, o monstro levou a mão até sua boca. ❛ não era isso que você queria, semideus? estou exatamente onde deveria estar. ━━━━━ e então, a viu avançar em sua direção. deixou. assim que os dentes encostaram em seu pescoço, aproveitou o momento de guarda abaixada para se livrar do aprisionamento, mas a perna mecânica ainda estava prendendo uma parte de seu corpo.
❛ você quer ver o que eu estou escondendo? ━━━━━ aquela era uma atitude desesperada. tadeu jamais usava seu poder e ele sabia que assim que o utilizasse naquele monstro, algo terrível o aconteceria. ainda assim, tirou os óculos. o brilho escudo das íris refletindo o amarelo do monstro se tornaram um grito estridente de agonia, vindo dela.
um grito alto demais. com o corpo encolhido pela dor excruciante, ela começou a se debater. os sons inumanos aumentavam sua náusea. a sensação era de que os pulmões haviam sido perfurados. o pânico. tadeu sentiu que seu coração iria parar a qualquer momento e que seu cérebro iria derreter a qualquer segundo. ele sentia tudo queimar. aquele maldito grito. não importava se eram humanos ou monstros. eles gritavam do mesmo jeito no fim. era o mesmo pedido de socorro que ninguém atenderia. a punição final era estar sozinho e sentir tanta dor que, em caso de sobrevivência, você jamais faria nada disso outra vez. mas aquilo era um monstro, não iria morrer. só iria gritar para sempre.
colocou a mão no peito e se virou para o lado, com os olhos abertos lacrimejando. precisava agir. mesmo sendo consumido pelo desejo de desaparecer. as visões eram horríveis. isso também sempre acontecia. sempre via toda a dor causada em primeira pessoa, como o agressor. ele jamais esqueceria nada que aquele monstro havia feito. e estava cansado disso. farto. era injusto. nêmesis deveria saber o que era injustiça.
talvez fosse o ódio falando mais alto, mas foi o desejo de lutar contra que o fez reagir. com a faca de ferro estígio empunhada, se arrastou até o corpo da empousa, e a golpeou no coração. no instante seguinte havia apenas gritos abafados sumindo em poeira até o céu. ela jamais voltaria. não havia mais essência. e então, ao lado do corpo desfeito, buscou pelos óculos escuros e os colocou, sentado no chão e encostado no veículo olhando para o nada até que lynx chegasse alarmado, e devora chegasse impaciente. ❛ empousas. tô ligado. ━━━━━ quando se levantou, observou o ferimento de devora pela primeira vez. foi o que o fez voltar a reagir como uma pessoa normal. ❛ porra, ok. primeiro isso e depois a gente vai. ━━━━━ balançou a cabeça, tornando a entrar no carro, dessa vez, colocando devora no banco de trás consigo.
( ☼ ) —— Encarando o arco dourado, a expressão de Julian era um tanto quanto incomum. Para alguém que quase não se preocupava com as coisas, o rapaz parecia remoer certos eventos que aconteceram nos últimos dias, os quais passara lutando contra as forças do Tártaro na Sicília. O fazia num lugar distante de todos, para que não causasse nenhum tipo de aflição em seus amigos, afinal, era conhecido por ser uma força motivadora. Sua mãe havia lhe ensinado a sempre ver o lado positivo das coisas, contudo, isso ficava difícil em dias como aquele, quando estava duvidando de todo o seu futuro.
Veja bem, ele não era do tipo de pensar no amanhã: se concentrava somente no hoje, sendo grato pelos dias que recebia. No entanto, não era como se fosse do seu desejo morrer e, bem, havia encarado essa possibilidade de perto durante as batalhas na Sicília. Quando se era um semideus, vivia com a dúvida se iria acabar caindo em confronto ou não, algo que, apesar de dizer que estava tudo bem, não era algo que tinha feito as pazes com durante os anos de treinamento. Não queria ser um herói trágico com os dos contos gregos, muito menos tinha mania de grandeza ou vontade de fama. Às vezes, só queria ser um garoto normal.
Jules puxou a corda e soltou a flecha, acertando próximo ao meio do alvo. Com um suspiro pesado, tentou deixar de lado o pensamento de querer ser normal, pois não podia mudar quem era e nem valia a pena. Havia nascido daquele jeito por um motivo, certo? As moiras sabiam o que estavam fazendo, não adiantava discutir com o destino. Enquanto crescia, Lily Rose havia lhe ensinado a amar quem era, independente das dificuldades que o sangue divino poderia lhe trazer. Bem, considerando que estava com medo de morrer ou de perder um dos amigos, diria que estava passando por um momento turbulento.
Deveria acreditar que tudo iria passar. O rapaz soltou mais uma flecha, errando o centro por uma distância considerável — não estava focado o suficiente, preso em alguns pensamentos que não deveria escutar. Ainda assim, tentou colocar a cabeça no lugar, pois Moon não podia se deixar abalar pela situação. Caso o fizesse, estaria desistindo de proteger os seus amigos, justamente o que Tártaro queria. Isso não iria acontecer. Não iria dar esse gosto para aqueles que queriam fazer mal à sua família.
Quando mais flechas eram disparadas, mais afiada se tornava a mira. Tudo o que precisava era de um momento para voltar aos eixos, treinar e se preparar para o que estava por vir. Não sabia o que iria acontecer em seguida, mas quando tinha certeza de algo? Um semideus não poderia deixar a guarda baixa, nem mesmo um que detestava confrontos. Bem, ele podia não ser um herói glorioso, mas isso não o impedia de ajudar com todo o afinco que tinha. Só se deu por satisfeito quando passou a acertar seus alvos com precisão, sabendo que por mais que Mnemósine tirasse suas memórias, ainda era naturalmente familiarizado com o arco.
missão: cuidado aos campos de morango com @rxckbellz
( ☼ ) —— A atividade favorita de Jules era, de longe, cuidar dos campos de morango. Considerando todo o grande caos na Itália — Moon não queria lembrar sobre o tempo que enfrentou as harpias, muito menos a batalha contra o Minotauro —, precisava de uma boa dose de coisas tranquilas para desestressar, se envolvendo com atividades artísticas e a colheita das frutas. Quando viu o filho de Hermes perto, acenou animado, dando um sorrisão para o garoto. —— Giiiiiiil, meu irmão! Tudo certo por aí? Cara, os morangos estão lindos, esse ano o acampamento vai fazer o maior dinheiro vendendo isso aqui.
Era um centurião. Centurião. A palavra não lhe escapava da mente nem por um minuto e ele começava a achar que estava inventando tal situação. Não se sentia como um, parte de seu corpo nem mesmo reconhecia sua haladie como sua, graças aos caprichos de uma certa titã. O tempo com Lupa, apesar de não ter domando sua espalhafatosa e excêntrica personalidade, haviam treinado seu corpo para o auge do que se esperava de um romano e agora... O que lhe restava?
Era, novamente, apenas um filho de Mercúrio desgostoso. À imagem e semelhança de um filho de Hermes e, por Júpiter!, só ele sabia o quão pejorativo isso podia soar quando escapava da boca de romanos mais experientes.
A solução rápida que encontrou foi treinar. Havia sido modelado uma vez, poderia ser modelado outra vez. Aquilo que havia aprendido tinha de estar em algum lugar de sua memória, seja ela muscular, seja no inconsciente. Ele se recusava a acreditar que não estava, afinal, o que faria se não liderar os legionários de sua coorte? Fora o Acampamento Júpiter, Carter não havia conquistado nada. Nenhum curso, nenhum grupo, nem mesmo família — a parte mais deprimente, talvez. Cogitava arranjar um cachorro para suprir a necessidade de se sentir alguém com feitos importantes e mesmo as ligações, cada vez mais espaçadas, assim como as visitas à sua mãe, já não lhe preenchiam mais.
Eram pensamentos demais na sua cabeça, ele decidiu calar-se com um treino. Ou surtaria.
Iniciar com uma corrida leve era natural para Carter, após alongamento essencial para qualquer um, mesmo para um semideus —coisa que ele aprendeu da pior maneira.
Era, afinal, um filho de Mercúrio que considerava uma corridinha leve avançar a sessenta quilômetros por hora. Velocidade lhe era algo intrínseco, natural como respirar, não se esforçava para atingir tais velocidade, mas gostava de acreditar que treinar essa sua capacidade garantia um melhor desempenho. Mas não era segredo que ele gostava de pensar em si como o próprio Flecha Pêra, de Os Incríveis. Ou melhor, Carter Pêra? Tal pensamento ao fim de sua corrida lhe ganhou risos.
Então, ainda suado, parou em frente a um alvo. Ele achava irônico que, mesmo que a maioria dos adversários dos semideuses se tratassem de monstros cegos pelo ódio, ainda utilizavam-se de bonecos de treino feitos a partir da silhueta humana. “E aí, cara?”, cumprimentou com um riso. Com certeza, o boneco não o respondeu. Ergueu os braços no ar, fingindo-se de ofendido, ao que gargalhava. “Foi mal, só queria descontrair”, brincou. Alguns legionários lhe encaravam com a mesma expressão de sempre: como é que logo você foi se tornar centurião? Mistérios da vida, lidem com isso.
Ele desabotoou a pulseira de couro que tinha em seu punho e viu-a se transformar no ar em sua haladie amada. Pegou-a num movimento digno de teatro e não demorou a separar a lâmina em adagas. “Hoje, você vai sentir a fúria de Echo!”, anunciou, olhos afiados na direção do boneco. Havia muita concentração quando lançou a primeira vez: efeito? Erro grave. “Eita, porra!”, grunhiu.
Suas tentativas que se seguiram envolveram mais erros do que acertos, todos feitos com muita concentração para manter seu corpo na posição de ataque que conhecia. Frustração atrás de frustração, ele se enfiava ainda mais no treino. Seu pai, se lhe visse fazer algo de tal tipo, provavelmente se sentiria deprimido com tamanho inutilidade. Estava quase desistindo de seu treino quando pegou por última adaga em seu. “Aqui vai nada!”, anunciou, distraído ao que lançava. Pela primeira vez, a adaga cravou-se na cabeça do boneco todo machucado. “Tenha dó”, ele riu, bobo. Concentração alguma havia lhe ajudado, mas a descontração fora o suficiente para lhe garantir um acerto como aquele. Como?????? Não sabia, mas aquela havia sido a força o necessária para continuar o treino com seu alvo, muitos acertos, seus erros resumiam-se a centímetros de distância.
Carter suspirou. Duvidava que aquele fosse o sinal de que estava no caminho certo, mas era onde colocaria sua fé.