A noite estava silenciosa, do jeito que ele gostava. Samã estava sentado na varanda, o oceano negro do Líbano se estendendo lá embaixo como um segredo antigo. O charuto queimava devagar entre os dedos, a fumaça subindo e se misturando ao cheiro de sal, madeira envelhecida e Macallan. O copo de cristal ainda tinha whisky o bastante para mais dois goles longos, enquanto o isqueiro descansava ao lado, ainda quente.
Ele não pensava em nada. Ou talvez pensasse apenas nela, porque, no fim, tudo sempre fora sobre ela. Lily Ahmar. Para ele, Lilith.
O nome vinha como um gosto amargo e doce na boca. Reencontrá-la, depois de tantos anos se mantendo longe, deixando que ela vivesse sem a sua sombra, ainda lhe doía na alma. Havia algo cruel em amar alguém à distância quando tudo dentro dele queria se aproximar. Ainda assim, ele havia escolhido esperar.
Podia quase vê-la ali, sentada ao seu lado. O cabelo preto iluminado pela luz fraca, transformando aquelas mechas vermelhas em fogo, os olhos o desafiando em silêncio. Um castanho, um verde. Ele já havia se acostumado com a diferença e, mesmo assim, continuava se espantando com o brilho que havia neles.
Eles eram escuridão e escuridão.
Não existia luz entre os dois. Não eram fases diferentes da mesma moeda, nem peças destinadas a se completar. Samã sabia disso. Com Lily, não havia completude.
Havia excesso. Eles transbordavam.
Imaginou o que ela faria se estivesse sentada na cadeira vazia ao seu lado. Provavelmente roubaria o charuto de sua boca só para descobrir se ele deixaria. E ele deixaria. Porque com o mundo ele era cruel, frio, sanguinário. Com ela, porém, era apenas um demônio. Um anjo caído e sem asas, a beleza do Céu depois da queda.
Samã levou o copo aos lábios e sorriu de lado, os olhos perdidos no oceano. Então murmurou baixo, apenas para o vento e para a mulher que estava sendo observada novamente:
— Logo, Ahmar. Eu já cansei de viver sozinho.
Deu mais um gole antes de completar, quase como uma promessa:
— Logo vamos voltar a brincar.
AAAAAH NAO VEJO A HORA DE VOCES VIVEREM...














