Com um tanto de dificuldade ele conseguiu entrar no seu quarto com suas pernas o atraindo e seu equilíbrio perdido no décimo ou décimo quinto copo que tomara. Morvati sentou-se na cadeira soltando um suspiro de cansaço, fechando seus olhos para aliviar a tontura e passando as palmas da mão no rosto para tentar se manter acordado. Parado e silencioso em relação aos próprios pensamentos quando ouviu o ranger de uma porta que fez todo o seu corpo arrepiar. “Voltando para o quarto de um hotel bêbado mais uma vez, Jonathan.” afirmou a voz embriagada que arrastou os pensamentos de Morvati para as névoas densas e sufocantes de sua mente ao ouvi-la. Seu corpo perdera a força, começara a tremer e seu coração a perder o compasso, ele fechou os olhos. — Você... não existe. Você só está dentro da minha cabeça. — disse ele com sua voz falha, o coração aflito e os pulmões apertados pela angústia. “Não existo, sua maldição? Então por que você me ouve, sente o meu hálito? Olha! Veja se eu não estou aqui.” Sentia a presença amedrontadora e a respiração pesada junto de seu lado esquerdo sussurrando no seu ouvido. Morvati cobriu os olhos com as mãos trêmulas, sabia o que iria acontecer se olhasse, pois não era a primeira vez que isso acontecia, ele não queria olhar, mas todo o seu esforço fora em vão. Estava fraco demais para relutar, abaixou suas mãos e abriu seus olhos para encarar seu reflexo translúcido na janela que possuía ao seu lado a figura de um homem furioso que o encarava de volta. Agora não havia mais salvação, Morvati teria de ser rápido então levantou-se e correu até o banheiro esbarrando em tudo que estivesse em seu caminho, caiu aos pés da banheira ignorando a dor no joelho e se esticando para abrir a torneira, rezando para que ela se enchesse o mais rápido possível, já que não podia usar aquamenti visto o estado da sua mente confusa pelo álcool e cega pelo medo só podia esperar e tentar afastar os flashes de memória que lhe viam a mente. Encostado no material frio da banheira ele tentava ocupar sua cabeça com outro assunto, batia a palma da mão fortemente contra a cabeça na tentativa falha de espantar as memórias ruins, mas não conseguiu, iria voltar a pior noite de sua vida, quando seu nome ainda era Jonathan e não passava de um jovem frágil e medroso, a noite registrada para sempre na sua cabeça como um trauma.
tw: violência e agressão doméstica. Recomendo que pule essa parte e vá direto para o final se é sensível a esses assuntos.
2000.13.09/ Morvati Mortui (Jonathan Edrumet) de 14 anos - fc: Noah Schnapp
A única luz que preenchia a sala era a luz da televisão, iluminando o rosto do jovem espremido no sofá vazio, seus olhos estavam voltados para a programação da tv mesmo que não prestasse atenção no que estava passando, ouviu o ranger da porta que arrepiava todo o seu corpo, pois sabia o que estava por vir. A luz no teto se acendeu, o homem embriagado surgiu na sala. — O que tá fazendo acordado, garoto? — Perguntou ele.
— Minha mãe não me deixa dormir antes de você chegar. — Respondeu o jovem com um tom de submisso. Todas as noites eram assim, seguidas de tortura e dor, Jonathan já estava acostumado e sabia que não podia mais lutar contra, apenas aceitar.
Seu pai costumava ser um grande devoto e seguidor das leis impostas pela sua igreja, de imenso amor e compreensão pelos filhos, mas o dom de Jonathan, que o acompanhara desde seu nascimento, havia mudado seu comportamento desde o início de sua pré-adolescência. O pai começou a pensar que seu filho era uma espécie de possuído ou enviado pelo diabo e o álcool era sua única salvação desde então. Começou a agredir o filho por indignação, pela sua própria frustração em não ter um jovem garoto normal, mas o tempo se passou e as doses de bebidas aumentaram e sua “razão” para agredi-lo se tornou o puro prazer em machucar um corpo frágil que não resistia ou lutava, apenas chorava, implorava, tremia de medo somente diante a sua presença.
— Você já sabe porquê né? Então me dá uma boa razão pra eu não te encher de porrada até sair sangue. — Ele disse com raiva cuspindo da garganta.
Jonathan olhou para os olhos embriagados daquele homem, tentaria implorar, mas foi interrompido por algo na sua cabeça que se ativou, seria a primeira em que veria o medo de seu pai, um jovem com olhos flamejantes, o próprio Jonathan ou como seu pai o via. A boca estava aberta, mas nenhum som era solto, seus olhos parados e aos poucos se umedecendo, seu coração aflito e seus pulmões pressionados pela sua angústia, ver que seu próprio pai o temia doía mais do que as cintadas que levava todas as noites. — Você... tem medo de mim. — falou ele com seus lábios trêmulos e uma lágrima escorrendo na sua bochecha. O homem se enfureceu, a forma do jovem de olhos de fogo evaporou-se. — É o que? Você acha que eu tenho medo de você, maldição? Sua desgraça! Você destruiu a minha vida e a vida de todo mundo nessa casa! — O homem rangeu os dentes, tirou de seu quadril um revólver e apontou em direção ao jovem.
— Pai... não, por favor! — implorou Jonathan em vão, o homem descarregou o tambor em sua intenção, ele cobriu o corpo com seus braços e fechou forte os olhos, mas sentindo que ainda estava vivo espiou com um deles, os disparos não tinham feito barulho, procurou pelas balas, mas só encontrou seis pétalas vermelhas caídas no chão. O homem, Markus Edrumet, olhou para Jonathan confuso e furioso, tinha visto as balas se transformarem em pétalas em pleno trajeto. Ele jogou a arma no chão e avançou contra o filho sedento pelo seu desespero.
O rapaz levantou-se do sofá e correu, seu pai o perseguiu derrubando o que estivesse em seu caminho, a caminho da cozinha Jonathan foi agarrado pelos fortes braços de Markus que o jogou no chão. O homem com a mente entorpecida socou seu filho no rosto, uma luta começou no chão gelado onde Jonathan tinha a desvantagem. Ele tentava se defender, mas a cada soco gritava de dor e as lágrimas escorriam dos seus olhos assim como sangue escorria de seu nariz. Ali no chão, só pensava no medo de morrer, na sensação de que estava perto de desmaiar, os braços levantados não eram obstáculos para os socos e tapas do homem em cima dele, mas para a sua salvação Markus magicamente voou para longe, caindo em cima da mesa de centro da sala e quebrando-a. Uma dose de adrenalina o fez levantar do chão e correr. Sua visão embaçada não ajudava a fuga, bateu o pé em algo e caiu em cheio no chão, desesperado por fugir ele tentou se levantar, mas algo agarrou seu pé. — Eu vou te matar! Eu vou te matar e fazer um favor pra humanidade! Sua cria da besta, anticristo! — disse o homem enquanto puxava o corpo de Jonathan. Ele tentou se agarrar em algo sem saber no que, tudo escapava de seus dedos, Jonathan gritou por socorro e tentou usar os frágeis braços para resistir quando conseguiu se agarrar em algo acima dele, usou do apoio para chutar o pai e se arrastar um pouco mais.
O homem não desistiu e agarrou o pé de Jonathan novamente, o jovem relutou e conseguiu se agarrar ao que não sabia o que era e pegou algo que estava ali, puxou sua única arma e bateu contra a cabeça de seu pai. O barulho-
Antes que seu pesadelo pudesse demonstrar seu fim, Morvati se jogou na banheira cheia transbordando água, no mesmo instante gritou de dor. As marcas de cinto por todo o seu corpo pareciam recém abertas, porém essa dor não chegava perto da dor de reviver a pior noite de sua vida. A água gelada era a única coisa que afastava as memórias quando elas vinham à tona, pois sempre antes de dormir tomava um banho de água fria para limpar os ferimentos que ardiam fortemente. Morvati olhou para o sangue misturado na água, sabia que não era real assim como os ferimentos que sentia arder, mas era isso que seu maldito dom lhe fazia sentir, medos, dores, traumas, tudo tão vívido que seu cérebro não conseguia acreditar que eram ilusões. Ele aproximou suas coxas do tronco e abraçou os joelhos, mordeu o lábio inferior até sentir o gosto de sangue sem saber o motivo, talvez raiva talvez medo, assim como lágrimas escorriam de seus olhos contra sua vontade. Um grito preso na garganta, o desespero que sentira naquela noite sendo revivido no banho de água fria. Ele estava com medo e não havia heróis onde pudesse se apegar, apenas se comprimir o máximo possível e esperar o medo passar, mas será que passaria? Ou apenas se adormeceria dentro de seu subconsciente para que pudesse arrastá-lo dentro de seu maior trauma outra vez?
Morvati fechou a porta de seu quarto lentamente, dando uma última olhada no corredor, jogou sua mala e sua maleta de couro na cama bem arrumada. Era engraçado pensar que mal se lembrava da sua própria casa, na verdade nos meses em que seu chefe o obrigava tirar umas férias Morvati odiava ficar parado, poder sentar no sofá e assistir televisão o dia inteiro lhe parecia a pior maneira de gastar seu tempo e sem contar que o silêncio da sua casa era perturbador para seus ouvidos. Ele estava sempre procurando casos, sejam eles antigos e sem solução ou totalmente surreais, como na vez em que viajou para Londres em busca de um lobisomem que cuspia fogo, e toda essa sede insaciável por casos o tornou o melhor e também mais insano jornalista investigativo bruxo do jornal onde trabalhava mesmo que sem o reconhecimento, se escondia por trás do nome “Momo” em toda matéria que publicava, apenas seu chefe sabia a verdadeira identidade desse lendário e inspirador jornalista que tinha o dom de passar cada detalhe e cada sentimento como se o leitor aparatasse para dentro das cenas de crime. Morvati era como um filho rebelde para seu chefe, ou uma faca de dois gumes, suas matérias subiam os números de compras do jornal, mas Morvati usava e abusava do privilégio que tinha, colocar suas despesas na conta do jornal. Esse privilégio veio cerca de quatro anos atrás como recompensa por concluir um caso onde trabalhou durante dois anos dado pelo seu chefe que futuramente se arrependeria. As noites de bebida, as roupas caras que ele só usaria uma vez, confusões em hotéis... seu chefe já não aguentava mais tantas despesas, o lucro que ganhava pelas matérias de “Momo” serviam cada vez mais para cobrir os gastos de Morvati, não poderia demiti-lo porque suas matérias eram a marca registrada do jornal, as pessoas ao ouvir o nome do jornal perguntavam: “aquele jornal do Momo?”, mas também não conseguia mais lidar com a rebeldia do homem.
Morvati tirou sua varinha, comprida de madeira escura e cabo anelado, da maleta e num movimento rápido e gentil feito com a mão direita suas bagagens se abriram e as coisas dentro delas começaram a levitar, as roupas bem dobradas e perfeitamente encaixadas dentro da mala se penduravam nos cabides do armário, os papéis na maleta pousaram na escrivaninha junto com uma pena branca e um pote pequeno de tinta. Apenas um papel sobrou na maleta que Morvati fez questão levitar gentilmente até a parede do hotel e grudá-lo nele, era uma folha de jornal degastada de tom amarelo com uma matéria sobre o desaparecimento de um bruxo, mas no canto da folha, discreto, estava escrito “A história de terror vencedora!” e um texto de quarenta linhas falando sobre criaturas de olhos vermelhos que se escondiam na escuridão, a primeira história de Morvati para um concurso do jornal onde mais tarde ganharia tanto mérito, mas foi assim que ele começou, ganhando um concurso de histórias de terror e trabalhando para escrever mais delas semanalmente. Ele meditou um pouco olhando aquelas quarenta linhas de letras minúsculas, onde começou e agora onde estava, rapaz de rua cuja a memória mais feliz era o dia em que comprou sua varinha com o próprio dinheiro e agora um jornalista investigativo com mais de cem matérias publicadas, ele não conteve um sorriso bobo.
Balançou a varinha e o papel endureceu-se e brilhou como o efeito de verniz, sentou-se de frente a escrivaninha e se preparou mentalmente para o ritual que amava fazer, escrever. Agarrou a ponta de pena e abriu o pote de tinta, separou um papel em branco no meio da escrivaninha e focou toda a sua atenção no vazio, sua mente parou, seus olhos sequer piscavam, mergulhou a ponta da pena na tinta e começou a escrever com sua letra de curvas bem definidas e traços minuciosos:
Dia 1.
Acabei de chegar na cidade, a viagem durou mais do que eu esperava, achei que chegaria em Novum Heredes por cerca do fim da tarde, mas acabei chegando numa noite tempestuosa. Não há muita coisa que eu possa fazer, mas vai ser bom passar esse tempo formulando um mapa mental para começar a investigação, prefiro começar uma abordagem com as pessoas que trabalham nos ouvidos de uma cidade, bares, bordéis, lojas de artigos mágicos, figuras públicas só servem para contar mentiras e dizer que estamos errados sobre cada informação que coletamos. Hoje eu conheci a recepcionista do Hotel Shmidt, ela me parece amigável e talvez saiba de algo, esse hotel é bem luxuoso deve haver um grande vai e vem de informações. Mas de qualquer maneira, não posso concluir nada sobre a cidade ou sobre a doença.... minto, a cidade tem um ar diferente, um clima sufocante, como se houvesse olhos em cada esquina, cada canto, o que só me deixa mais instigado a descobrir a verdade e não importe quanto tempo levar eu irei.
Morvati largou a pena e tornava a revisar seu texto quando uma coruja da raça coruja-preta pousou em sua janela carregando um berrador no bico, suas penas estavam molhadas pela chuva forte e Morvati conseguia identificá-la, a coruja de seu chefe. Ele abriu a janela e um forte vento frio bateu em rosto, ele fez um carinho na cabeça da coruja, perguntou-se como ela o achou, e tirou o berrador de seu bico, a mensageira voltou a voar pela noite chuvosa e fria. Morvati já podia deduzir o que lhe esperava, uma hora de reclamação de seu chefe para melhorar sua noite, ele abriu o berrador e a carta pareceu o encarar desapontado, disse:
Morvati, ahf... sinceramente, eu já estou cansado dessa sua falta de profissionalismo, não vê que está correndo atrás de um BOATO!? Já estou cansado de lhe dizer que deveria levar mais a sério o seu trabalho, eu já te disse mil vezes que NÃO SOU CONTRA você investigar casos, mas que valham a pena. Uma suposta doença de séculos atrás que voltou a ativa? O último pingo de juízo que tinha apostou numa mesa de bar? Olha....ah.... eu honestamente pensei em te demitir, suas matérias não valem a pena se acompanhadas de uma puta falta de profissionalismo, mas eu não vou fazer isso em consideração a você, levando em conta seu verdadeiro nome sua ficha de trabalho consta que está a anos trabalhando no jornal como investigador e tem apenas apenas três matérias publicadas em, nenhum outro jornal vai querer contratar um jornalista desses. Mas não vou mais passar a mão na sua cabeça ou relevar seus atos, tirei seu nome da lista dos que tem permissão de usar a conta do jornal, eu percebi que fez entrada num hotel caríssimo e essa será a última despesa que colocará no nome do jornal. Continue sua investigação, mas cada despesa que fizer sairá do seu bolso. Espero estarmos entendidos.
A carta desfez-se em vários pedaços. Morvati bufou para o teto, “agora eu vou ter que tomar uísque barato” pensou. O castigo de seu chefe realmente o atingira, justamente quando chegara para investigar um caso na grande cidade Novum Heredes, mal podia esperar para provar de suas noites. Secou um suor na testa que não existia, soltou um suspiro indo em direção à escrivaninha e pegando um papel em branco, o rasgou no meio, mergulhou a pena na tinta mais uma vez e em uma das metades do papel anotou:
Lembrete.
1. Compre uma coruja e mande um berrador mandando seu chefe se foder.
2. Arrume um trabalho se quer tomar bebida boa.
3. Não gaste muito, tu tá sem a mesada do papai.
Pegou sua varinha e levou magicamente o lembrete até a porta, colando-o na madeira.
Derramou-se na cama, pensando agora na investigação que assumiu, poderia ser o melhor e mais recordável ou o pior e mais vergonhoso caso de toda sua carreira.