Opa! ___ Deu seu melhor sorriso convidativo, apoiando-se no balcão. A pessoa que passara pela loja parecia inocente aos seus olhos. Na verdade, todos que olhava pareciam inocentes demais. Talvez comparando às coisas que já tinha visto? Não sabia afirmar, mas eram como uma caixa de feijões de todos os sabores: engraçadinhos por fora, mas cheios de surpresas. Charles adorava surpresas. ___ Sinta-se à vontade. A Facilier está aqui para atender os seus desejos mais profundos.
Morvati soltou uma risada curta. — Obrigado, é bom saber que alguém pode realizar meus desejos mais profundos, mas você não é do MACUSA, né? — Ele brincou. — Enfim, eu só estou procurando alguma coisa natural para ajudar a dormir, eu poderia usar um feitiço, mas eu acho que faz mal à saúde. Então se você tiver algum chá ou travesseiro mágico para me ajudar...
Com um tanto de dificuldade ele conseguiu entrar no seu quarto com suas pernas o atraindo e seu equilíbrio perdido no décimo ou décimo quinto copo que tomara. Morvati sentou-se na cadeira soltando um suspiro de cansaço, fechando seus olhos para aliviar a tontura e passando as palmas da mão no rosto para tentar se manter acordado. Parado e silencioso em relação aos próprios pensamentos quando ouviu o ranger de uma porta que fez todo o seu corpo arrepiar. “Voltando para o quarto de um hotel bêbado mais uma vez, Jonathan.” afirmou a voz embriagada que arrastou os pensamentos de Morvati para as névoas densas e sufocantes de sua mente ao ouvi-la. Seu corpo perdera a força, começara a tremer e seu coração a perder o compasso, ele fechou os olhos. — Você... não existe. Você só está dentro da minha cabeça. — disse ele com sua voz falha, o coração aflito e os pulmões apertados pela angústia. “Não existo, sua maldição? Então por que você me ouve, sente o meu hálito? Olha! Veja se eu não estou aqui.” Sentia a presença amedrontadora e a respiração pesada junto de seu lado esquerdo sussurrando no seu ouvido. Morvati cobriu os olhos com as mãos trêmulas, sabia o que iria acontecer se olhasse, pois não era a primeira vez que isso acontecia, ele não queria olhar, mas todo o seu esforço fora em vão. Estava fraco demais para relutar, abaixou suas mãos e abriu seus olhos para encarar seu reflexo translúcido na janela que possuía ao seu lado a figura de um homem furioso que o encarava de volta. Agora não havia mais salvação, Morvati teria de ser rápido então levantou-se e correu até o banheiro esbarrando em tudo que estivesse em seu caminho, caiu aos pés da banheira ignorando a dor no joelho e se esticando para abrir a torneira, rezando para que ela se enchesse o mais rápido possível, já que não podia usar aquamenti visto o estado da sua mente confusa pelo álcool e cega pelo medo só podia esperar e tentar afastar os flashes de memória que lhe viam a mente. Encostado no material frio da banheira ele tentava ocupar sua cabeça com outro assunto, batia a palma da mão fortemente contra a cabeça na tentativa falha de espantar as memórias ruins, mas não conseguiu, iria voltar a pior noite de sua vida, quando seu nome ainda era Jonathan e não passava de um jovem frágil e medroso, a noite registrada para sempre na sua cabeça como um trauma.
tw: violência e agressão doméstica. Recomendo que pule essa parte e vá direto para o final se é sensível a esses assuntos.
2000.13.09/ Morvati Mortui (Jonathan Edrumet) de 14 anos - fc: Noah Schnapp
A única luz que preenchia a sala era a luz da televisão, iluminando o rosto do jovem espremido no sofá vazio, seus olhos estavam voltados para a programação da tv mesmo que não prestasse atenção no que estava passando, ouviu o ranger da porta que arrepiava todo o seu corpo, pois sabia o que estava por vir. A luz no teto se acendeu, o homem embriagado surgiu na sala. — O que tá fazendo acordado, garoto? — Perguntou ele.
— Minha mãe não me deixa dormir antes de você chegar. — Respondeu o jovem com um tom de submisso. Todas as noites eram assim, seguidas de tortura e dor, Jonathan já estava acostumado e sabia que não podia mais lutar contra, apenas aceitar.
Seu pai costumava ser um grande devoto e seguidor das leis impostas pela sua igreja, de imenso amor e compreensão pelos filhos, mas o dom de Jonathan, que o acompanhara desde seu nascimento, havia mudado seu comportamento desde o início de sua pré-adolescência. O pai começou a pensar que seu filho era uma espécie de possuído ou enviado pelo diabo e o álcool era sua única salvação desde então. Começou a agredir o filho por indignação, pela sua própria frustração em não ter um jovem garoto normal, mas o tempo se passou e as doses de bebidas aumentaram e sua “razão” para agredi-lo se tornou o puro prazer em machucar um corpo frágil que não resistia ou lutava, apenas chorava, implorava, tremia de medo somente diante a sua presença.
— Você já sabe porquê né? Então me dá uma boa razão pra eu não te encher de porrada até sair sangue. — Ele disse com raiva cuspindo da garganta.
Jonathan olhou para os olhos embriagados daquele homem, tentaria implorar, mas foi interrompido por algo na sua cabeça que se ativou, seria a primeira em que veria o medo de seu pai, um jovem com olhos flamejantes, o próprio Jonathan ou como seu pai o via. A boca estava aberta, mas nenhum som era solto, seus olhos parados e aos poucos se umedecendo, seu coração aflito e seus pulmões pressionados pela sua angústia, ver que seu próprio pai o temia doía mais do que as cintadas que levava todas as noites. — Você... tem medo de mim. — falou ele com seus lábios trêmulos e uma lágrima escorrendo na sua bochecha. O homem se enfureceu, a forma do jovem de olhos de fogo evaporou-se. — É o que? Você acha que eu tenho medo de você, maldição? Sua desgraça! Você destruiu a minha vida e a vida de todo mundo nessa casa! — O homem rangeu os dentes, tirou de seu quadril um revólver e apontou em direção ao jovem.
— Pai... não, por favor! — implorou Jonathan em vão, o homem descarregou o tambor em sua intenção, ele cobriu o corpo com seus braços e fechou forte os olhos, mas sentindo que ainda estava vivo espiou com um deles, os disparos não tinham feito barulho, procurou pelas balas, mas só encontrou seis pétalas vermelhas caídas no chão. O homem, Markus Edrumet, olhou para Jonathan confuso e furioso, tinha visto as balas se transformarem em pétalas em pleno trajeto. Ele jogou a arma no chão e avançou contra o filho sedento pelo seu desespero.
O rapaz levantou-se do sofá e correu, seu pai o perseguiu derrubando o que estivesse em seu caminho, a caminho da cozinha Jonathan foi agarrado pelos fortes braços de Markus que o jogou no chão. O homem com a mente entorpecida socou seu filho no rosto, uma luta começou no chão gelado onde Jonathan tinha a desvantagem. Ele tentava se defender, mas a cada soco gritava de dor e as lágrimas escorriam dos seus olhos assim como sangue escorria de seu nariz. Ali no chão, só pensava no medo de morrer, na sensação de que estava perto de desmaiar, os braços levantados não eram obstáculos para os socos e tapas do homem em cima dele, mas para a sua salvação Markus magicamente voou para longe, caindo em cima da mesa de centro da sala e quebrando-a. Uma dose de adrenalina o fez levantar do chão e correr. Sua visão embaçada não ajudava a fuga, bateu o pé em algo e caiu em cheio no chão, desesperado por fugir ele tentou se levantar, mas algo agarrou seu pé. — Eu vou te matar! Eu vou te matar e fazer um favor pra humanidade! Sua cria da besta, anticristo! — disse o homem enquanto puxava o corpo de Jonathan. Ele tentou se agarrar em algo sem saber no que, tudo escapava de seus dedos, Jonathan gritou por socorro e tentou usar os frágeis braços para resistir quando conseguiu se agarrar em algo acima dele, usou do apoio para chutar o pai e se arrastar um pouco mais.
O homem não desistiu e agarrou o pé de Jonathan novamente, o jovem relutou e conseguiu se agarrar ao que não sabia o que era e pegou algo que estava ali, puxou sua única arma e bateu contra a cabeça de seu pai. O barulho-
Antes que seu pesadelo pudesse demonstrar seu fim, Morvati se jogou na banheira cheia transbordando água, no mesmo instante gritou de dor. As marcas de cinto por todo o seu corpo pareciam recém abertas, porém essa dor não chegava perto da dor de reviver a pior noite de sua vida. A água gelada era a única coisa que afastava as memórias quando elas vinham à tona, pois sempre antes de dormir tomava um banho de água fria para limpar os ferimentos que ardiam fortemente. Morvati olhou para o sangue misturado na água, sabia que não era real assim como os ferimentos que sentia arder, mas era isso que seu maldito dom lhe fazia sentir, medos, dores, traumas, tudo tão vívido que seu cérebro não conseguia acreditar que eram ilusões. Ele aproximou suas coxas do tronco e abraçou os joelhos, mordeu o lábio inferior até sentir o gosto de sangue sem saber o motivo, talvez raiva talvez medo, assim como lágrimas escorriam de seus olhos contra sua vontade. Um grito preso na garganta, o desespero que sentira naquela noite sendo revivido no banho de água fria. Ele estava com medo e não havia heróis onde pudesse se apegar, apenas se comprimir o máximo possível e esperar o medo passar, mas será que passaria? Ou apenas se adormeceria dentro de seu subconsciente para que pudesse arrastá-lo dentro de seu maior trauma outra vez?
Colin fizera tudo conforme seu pai havia pedido. Reservara a suíte principal do Hotel Shmidt, mesmo com suas ressalvas quanto a opulência quase opressora que o lugar exalava; jantara com ele no dia e no horário que escolhera; contara os mínimos detalhes de sua vida profissional e pessoal, no entanto, Declan William Johnson parecia não escutar realmente as novidades que Colin narrava com tanta animação. Desde que chegara de Londres, o pai apresentava-se quase apático ao mundo em sua volta, como se nada tivesse real relevância ou impacto em sua vida. Nem sempre era assim. Havia sido pouquíssimas as vezes que o rapaz deparara-se com Declan vestido de frieza e de descaso, porém, aquela era uma visão que não podia ser facilmente ignorada, muito menos esquecida. Conversando com sua família paterna, descobrira que algo havia quebrado dentro de seu pai quando esse descobriu a mentira de Giorgina. A mãe escondera sua existência de Declan por onze anos, revelando a verdade apenas por falta de alternativa. Se Colin teve a incrível oportunidade de estudar em Hogwarts, devia completamente ao pai por revelar a linhagem bruxa. Suas mães, Giorgina e Sierra, nunca confiariam em mandá-lo para uma escola bruxa, se não tivessem a certeza que o filho estaria em segurança e, apenas quem já esteve em Hogwarts, pode garantir tal coisa.
Na maior parte do tempo, Declan buscava compensar o tempo perdido. Sempre tinha curiosidade de saber de seus problemas e sonhos. Colin era acolhido com abraços apertados e sorrisos calorosos. Foi apresentado e integrado a família de uma maneira tão espontânea que, após uns meses, sentira que sempre pertencera aquele ambiente. Seu pai era divertido, animado, sempre tinha algum comentário astuto para fazer ou uma declaração inesperada para soltar. Mas, naquele dia, estava diferente. Não agradecera pelos seus esforços em deixar tudo perfeitamente organizado para sua chegada, muito menos demonstrara qualquer orgulho pela primeira curadoria organizada por Colin. Chateado, o estudante percebeu que seu pai viera lhe visitar em mais um de seus períodos ruins. Conseguia entender o porquê daquele estado de espírito, mas não achava justo que Declan descontasse nele um rancor que guardava por sua mãe desde a Segunda Guerra Bruxa. Por isso que é preciso ser cuidadoso com o tempo, sua mente alertou. Angustiado, Colin despediu-se do pai e caminhou a passos largos na direção do bar. Precisava acalmar o medo. “Porra, olha por onde anda”, soltou irritadiço ao esbarrar em um hóspede do hotel. Arrogante e indiferente, como todos os outros bastardos que frequentam esse lugar, concluiu precipitadamente. @morvatixmomo
“Boa noite pra você também.” Morvati ironizou, olhando o moreno seguir seu caminho ao elevador em passos largos.
A verdade era que nunca tivera tantos andares à sua disposição, tinha esquecido qual era o andar de seu quarto e ao encarar os botões do elevador sua intuição lhe disse para apostar em um dos últimos, justamente um dos andares reservados para suítes e pessoas dispostas a pagar. Não sabia sequer o número de seu quarto, mas ao comparar o número no chaveiro que a recepcionista lhe dera com o número das portas viu que estava bem longe do andar de seu quarto. Rapidamente fazia seu caminho de volta para o elevador quando um moreno bem vestido com pinta de playboy esbarrou em seu ombro e ainda teve a audácia de reclamar como se Morvati fosse culpado por algo.
O jornalista parou no mesmo instante, raiva subiu-lhe à cabeça, comprimiu os lábios e apertou os punhos com força, mas logo sua fúria se desfez e deu uma risada para si mesmo. Fazia anos que alguém não o provocava desse jeito e seria uma ótima oportunidade para colocar um de seus hobbys favoritos, perturbar a mente das pessoas. Outro dom que descobriu nas ruas e aprimorou como jornalista investigativo, sua persuasão era tão sútil que entrava na mente de pobres coitados em poucos minutos de conversa, ainda parado no corredor pensava que abordagem usar, fazê-lo chorar? Vontade de morrer? Intimidar? Bem, o choro era a coisa que mais gostava de assistir, pessoas complexadas e insatisfeitas com a própria vida caiam no choro apenas se perguntasse sobre o emprego ou sobre a família e esse tipo de gente sempre se reúnem onde tem bebida alcoólica para afogar suas frustrações nela, esse realmente parecia o perfil do playboy.
Desceu até o saguão e foi direito para o bar do outro lado da rua com um olhar intimidador e passos determinados. O lugar era de pouca luminosidade, uma música alta tocando enquanto os homens conversavam e riam alto, no fundo do estabelecimento bêbados tentavam acertar um alvo que flutuava de um lado para o outro (não havia um dardo furando o alvo, mas toda vez que um deles tentava jogar eles vibravam como se tivesse acertado o centro). Morvati sentou em frente ao balcão de madeira e um homem mal-humorado veio para lhe atender limpando uma caneca de chopp com um pano encardido, mas o jornalista o ignorou e virou seu corpo e passou os olhos em todos os miseráveis do lugar, encontrou o playboy no canto do bar com cara de abatido e sonolento numa mesa separadas das outras, em cima dela três copos de shot vazios. Ele riu para si mesmo, “Esse aí não aguenta uma vodka pura” pensou. Focou seu olhar no rapaz, desejando saber seu medo, e uma ampulheta do tempo com pouca areia no compartimento de vidro virado para cima apareceu no meio de sua mesa. “Medo do tempo? de envelhecer? Vai ser legal perguntar o que ele faz da vida.” — O que você vai querer? — perguntou-lhe o garçom mal encarado.
— Vodka. Pura. A garrafa, por favor. — assim o homem fez batendo uma garrafa de vidro no balcão.
Morvati pegou a garrafa e começou a andar em direção ao playboy, seu olhar viciado e intimidador como um assassino prestes a fazer uma vítima, jogou a tampa da garrafa para longe e antes de sentar em frente ao moreno sua feição atenuou-se parecendo um homem amigável e gentil, mas escondia a pior das intenções. — Oi, desculpa por antes no corredor, a culpa foi toda minha. Eu acabei de chegar na cidade e não queria passar uma impressão ruim logo de primeira. É um prazer te conhecer, meu nome é Morvati. — Ele estendeu a mão em direção ao rapaz.
Eve não suportou. Com passos largos e decididos chegou rapidamente a mesa, e olhando ao redor para checar se não havia ninguém observando, puxou uma cadeira e se sentou. — Me perdoe pela intromissão, mas eu vi a sua expressão. Você não gostou da comida, e sei exatamente o motivo. Está sem graça, sem vida, sem sal, eu sei! Disse para ele, mas a verdade é que o chef não sabe o que faz e está jogando a reputação da comida do hotel no lixo!
“Como essas coisas não quebram?” perguntou Morvati mentalmente, referindo-se aos talheres que usava para cortar a carne em seu prato, “lembrete mental: se eu quebrar um dos meus dentes por causa disso daqui, não me esqueça de pedir ao dentista um implante do mesmo material que essa faca.” caçoou.
Ele não era de comer nos hotéis onde se hospedava, mas abrira uma exceção para o luxuoso Hotel Shmidt, esperava pratos sofisticados, daqueles onde você precisava de no mínimo três porções para se sentir satisfeito, para experimentar e tirar a dúvida de como deveria ser o sabor desses tipos de refeição, só não tinha pensado que “gourmets” como esses vinham temperados por um alto preço. Sentou-se numa mesa redonda coberta por uma toalha vinho no canto da sala grande onde só se ouvia baixos cochichos e barulhos de talheres, abriu o cardápio de detalhes dourados em cima da mesa e a cada preço de cada prato sentia uma facada no abdômen, poderia comprar todos sem se preocupar se o cenário fosse outro, mas agora sem o jornal para cuidar de suas despesas precisava lidar com elas do próprio bolso.
Pediu um filé acebolado e um molho chique que ele nunca ouvira falar que era a única coisa que podia pagar com o dinheiro que tinha e minutos depois o garçom veio com um grande sorriso para servi-lo, o molho escorria pelo pedaço de carne aparentemente suculento, as rodelas de cebolas eram bronzeadas e o cheiro do prato por completo subindo ao nariz de Morvati com um vapor dançante era de encher as bochechas de saliva. Ele pegou o garfo e fincou na carne marrom, foi quando percebeu que algo estava errado e fez mais força com o garfo e com um tanto de esforço conseguiu cortar um pedaço da carne que lhe era um desafio para os dentes e para o paladar, lhe faltava sal e suculência. Continuou a (tentar) comer sem reclamar, quando viu a morena vindo em sua direção.
— Ah! Você é a recepcionista, né? — Morvati abriu-lhe um sorriso. — Ai, que bom que você reparou, mas não falta só isso, sabe? Essa carne parece pedra, quer dizer, eu gosto de carne bem passada, mas essa daqui voou do ponto. —Ele soltou uma risada sem graça. — Eu não reclamei nem nada porque eu achei que fosse uma tradição da cidade, sabe? Eu já viajei para a China e encontrei uma perna de barata numa sopa que eu pedi só vendo a imagem dela e quando eu fui reclamar o gerente me disse que a sopa era justamente um caldo de baratas, então eu achei que o povo de Novum Heredes tinham problema de hipertensão e dentes de titânio, por isso eu não reclamei. Mas se você pudesse conversar com o chefe, trocar esse prato por qualquer outra coisa, por favor, eu-eu acho que uma pedra seria mais fácil de engolir, nem que seja outro caldo de barata, só troque esse prato por mim fazendo o favor. — Ele implorou.
Morvati fechou a porta de seu quarto lentamente, dando uma última olhada no corredor, jogou sua mala e sua maleta de couro na cama bem arrumada. Era engraçado pensar que mal se lembrava da sua própria casa, na verdade nos meses em que seu chefe o obrigava tirar umas férias Morvati odiava ficar parado, poder sentar no sofá e assistir televisão o dia inteiro lhe parecia a pior maneira de gastar seu tempo e sem contar que o silêncio da sua casa era perturbador para seus ouvidos. Ele estava sempre procurando casos, sejam eles antigos e sem solução ou totalmente surreais, como na vez em que viajou para Londres em busca de um lobisomem que cuspia fogo, e toda essa sede insaciável por casos o tornou o melhor e também mais insano jornalista investigativo bruxo do jornal onde trabalhava mesmo que sem o reconhecimento, se escondia por trás do nome “Momo” em toda matéria que publicava, apenas seu chefe sabia a verdadeira identidade desse lendário e inspirador jornalista que tinha o dom de passar cada detalhe e cada sentimento como se o leitor aparatasse para dentro das cenas de crime. Morvati era como um filho rebelde para seu chefe, ou uma faca de dois gumes, suas matérias subiam os números de compras do jornal, mas Morvati usava e abusava do privilégio que tinha, colocar suas despesas na conta do jornal. Esse privilégio veio cerca de quatro anos atrás como recompensa por concluir um caso onde trabalhou durante dois anos dado pelo seu chefe que futuramente se arrependeria. As noites de bebida, as roupas caras que ele só usaria uma vez, confusões em hotéis... seu chefe já não aguentava mais tantas despesas, o lucro que ganhava pelas matérias de “Momo” serviam cada vez mais para cobrir os gastos de Morvati, não poderia demiti-lo porque suas matérias eram a marca registrada do jornal, as pessoas ao ouvir o nome do jornal perguntavam: “aquele jornal do Momo?”, mas também não conseguia mais lidar com a rebeldia do homem.
Morvati tirou sua varinha, comprida de madeira escura e cabo anelado, da maleta e num movimento rápido e gentil feito com a mão direita suas bagagens se abriram e as coisas dentro delas começaram a levitar, as roupas bem dobradas e perfeitamente encaixadas dentro da mala se penduravam nos cabides do armário, os papéis na maleta pousaram na escrivaninha junto com uma pena branca e um pote pequeno de tinta. Apenas um papel sobrou na maleta que Morvati fez questão levitar gentilmente até a parede do hotel e grudá-lo nele, era uma folha de jornal degastada de tom amarelo com uma matéria sobre o desaparecimento de um bruxo, mas no canto da folha, discreto, estava escrito “A história de terror vencedora!” e um texto de quarenta linhas falando sobre criaturas de olhos vermelhos que se escondiam na escuridão, a primeira história de Morvati para um concurso do jornal onde mais tarde ganharia tanto mérito, mas foi assim que ele começou, ganhando um concurso de histórias de terror e trabalhando para escrever mais delas semanalmente. Ele meditou um pouco olhando aquelas quarenta linhas de letras minúsculas, onde começou e agora onde estava, rapaz de rua cuja a memória mais feliz era o dia em que comprou sua varinha com o próprio dinheiro e agora um jornalista investigativo com mais de cem matérias publicadas, ele não conteve um sorriso bobo.
Balançou a varinha e o papel endureceu-se e brilhou como o efeito de verniz, sentou-se de frente a escrivaninha e se preparou mentalmente para o ritual que amava fazer, escrever. Agarrou a ponta de pena e abriu o pote de tinta, separou um papel em branco no meio da escrivaninha e focou toda a sua atenção no vazio, sua mente parou, seus olhos sequer piscavam, mergulhou a ponta da pena na tinta e começou a escrever com sua letra de curvas bem definidas e traços minuciosos:
Dia 1.
Acabei de chegar na cidade, a viagem durou mais do que eu esperava, achei que chegaria em Novum Heredes por cerca do fim da tarde, mas acabei chegando numa noite tempestuosa. Não há muita coisa que eu possa fazer, mas vai ser bom passar esse tempo formulando um mapa mental para começar a investigação, prefiro começar uma abordagem com as pessoas que trabalham nos ouvidos de uma cidade, bares, bordéis, lojas de artigos mágicos, figuras públicas só servem para contar mentiras e dizer que estamos errados sobre cada informação que coletamos. Hoje eu conheci a recepcionista do Hotel Shmidt, ela me parece amigável e talvez saiba de algo, esse hotel é bem luxuoso deve haver um grande vai e vem de informações. Mas de qualquer maneira, não posso concluir nada sobre a cidade ou sobre a doença.... minto, a cidade tem um ar diferente, um clima sufocante, como se houvesse olhos em cada esquina, cada canto, o que só me deixa mais instigado a descobrir a verdade e não importe quanto tempo levar eu irei.
Morvati largou a pena e tornava a revisar seu texto quando uma coruja da raça coruja-preta pousou em sua janela carregando um berrador no bico, suas penas estavam molhadas pela chuva forte e Morvati conseguia identificá-la, a coruja de seu chefe. Ele abriu a janela e um forte vento frio bateu em rosto, ele fez um carinho na cabeça da coruja, perguntou-se como ela o achou, e tirou o berrador de seu bico, a mensageira voltou a voar pela noite chuvosa e fria. Morvati já podia deduzir o que lhe esperava, uma hora de reclamação de seu chefe para melhorar sua noite, ele abriu o berrador e a carta pareceu o encarar desapontado, disse:
Morvati, ahf... sinceramente, eu já estou cansado dessa sua falta de profissionalismo, não vê que está correndo atrás de um BOATO!? Já estou cansado de lhe dizer que deveria levar mais a sério o seu trabalho, eu já te disse mil vezes que NÃO SOU CONTRA você investigar casos, mas que valham a pena. Uma suposta doença de séculos atrás que voltou a ativa? O último pingo de juízo que tinha apostou numa mesa de bar? Olha....ah.... eu honestamente pensei em te demitir, suas matérias não valem a pena se acompanhadas de uma puta falta de profissionalismo, mas eu não vou fazer isso em consideração a você, levando em conta seu verdadeiro nome sua ficha de trabalho consta que está a anos trabalhando no jornal como investigador e tem apenas apenas três matérias publicadas em, nenhum outro jornal vai querer contratar um jornalista desses. Mas não vou mais passar a mão na sua cabeça ou relevar seus atos, tirei seu nome da lista dos que tem permissão de usar a conta do jornal, eu percebi que fez entrada num hotel caríssimo e essa será a última despesa que colocará no nome do jornal. Continue sua investigação, mas cada despesa que fizer sairá do seu bolso. Espero estarmos entendidos.
A carta desfez-se em vários pedaços. Morvati bufou para o teto, “agora eu vou ter que tomar uísque barato” pensou. O castigo de seu chefe realmente o atingira, justamente quando chegara para investigar um caso na grande cidade Novum Heredes, mal podia esperar para provar de suas noites. Secou um suor na testa que não existia, soltou um suspiro indo em direção à escrivaninha e pegando um papel em branco, o rasgou no meio, mergulhou a pena na tinta mais uma vez e em uma das metades do papel anotou:
Lembrete.
1. Compre uma coruja e mande um berrador mandando seu chefe se foder.
2. Arrume um trabalho se quer tomar bebida boa.
3. Não gaste muito, tu tá sem a mesada do papai.
Pegou sua varinha e levou magicamente o lembrete até a porta, colando-o na madeira.
Derramou-se na cama, pensando agora na investigação que assumiu, poderia ser o melhor e mais recordável ou o pior e mais vergonhoso caso de toda sua carreira.
— Inferno! — a maldição sussurrada saiu por baixo da respiração enquanto Eve se recuperava; na pressa, seus pés deslizaram no piso polido e ela colidiu com uma parede quando virava o corredor, mas se recuperou rapidamente e continuou a correr, os olhos percorrendo os números nas portas para ter certeza de que não havia se perdido. A travessia da cozinha até a recepção não costumava parecer uma corrida pela própria vida, mas algum imbecil lá embaixo parecia ter grudado o dedo no maldito sino. Aquele som também não costumava ecoar tão longe como estava fazendo, mas a resposta estava dentro do bolso do segundo uniforme de Eve; quando começara a se passar por outra pessoa (mais precisamente Fay Johnson, auxiliar de cozinha), tomara precauções para quando precisasse largar o posto na recepção. Havia um pequeno dispositivo mágico cuidadosamente escondido embaixo do balcão nesse exato momento, enviando as vibrações insistentes do sino para seu correspondente no bolso da mysticum.
De qualquer forma, ela nem deveria estar no hotel tão tarde da noite; nunca sequer o havia visto tão silencioso, o som da tempestade lá fora ecoando pelas paredes. Mas o recepcionista do turno da noite havia pedido que ela o cobrisse naquela noite, e Eve aceitara, pensando que não teria mal se ele lhe devesse uma, mas não pensava que tudo daria tão errado naquele dia. Em seu expediente na cozinha, Fay havia conseguido fazer o chef perder as estribeiras com seus palpites (os pratos ficariam muito melhores se ele os ouvisse!) e acabara ganhando a terrível tarefa de limpar a cozinha naquela noite - sem magia, uma vez que o chef se achara no direito de confiscar sua varinha. Portanto, ela havia se dividido entre dois empregos durante toda a noite, e estava no seu pior humor.
Enquanto corria, seus traços mudavam como água sobre um quadro; a suavidade e as sardas de Fey desaparecendo para revelar as linhas marcadas e firmes do rosto de Eveline. Ela se atrapalhou com os botões do uniforme da cozinha e os abriu de qualquer jeito, revelando o uniforme de recepcionista por baixo quando finalmente chegou ao saguão. Tomou um segundo para respirar fundo e tentar disfarçar como podia, mas ainda assim sua voz rouca saiu ofegante e o sorriso parecia nervoso. — Boa noite! Não, não trabalhamos com elfos domésticos. Eu pessoalmente sou contra a escravidão deles, mas começo a pensar que eu mesma posso ser um. Ao seu dispor, mestre. — ela parou por um momento, constatando que havia deixado escapar seu péssimo humor para um cliente, o que era considerado imperdoável, e se atrapalhou na tentativa de consertar. — Oh, meu merlin, você se molhou? Temos muitas toalhas no hotel, é claro, se desejar. Que tempestade, não é? Deseja se hospedar? Por quantos dias?
Morvati segurou a risada vendo a pobre funcionária correndo para atendê-lo, ele a olhou de cima a baixo, soltou um sorriso sem graça com a leve ignorância que a mulher fizera e Morvati tinha interpretado como uma piada. — Ah, eu não me molhei na verdade vocês tem uma magia bem legal para quem entra, só um atendimento meio desleixado mesmo. — soltou uma risada curta com a alfinetada que fizera de propósito. — E sim, eu pretendo me hospedar aqui por... — Parou para pensar em quanto tempo ficaria na cidade, a investigação poderia durar um mês ou um ano, essa era a parte que mais amava nas investigações, ele não se preocupava com bater recordes de tempo ou colocar estimativas nos casos, para ele quanto mais tempo na ativa melhor. Abriu a boca para ser completamente honesto, ”eu não faço a mínima ideia” iria dizer, mas ao olhar nos olhos brilhantes da atendente uma figura surgiu atrás dela, uma janela retangular com grades de ferro mostrando um céu escuro de nuvens carregadas. “Ow” foi o que pensou, mesmo convivendo com esse dom sua vida inteira ele ainda era capaz de surpreendê-lo, o dom de ver o maior medo das pessoas, passou uma vida para aprender a controlar e mesmo assim às vezes o controle lhe escapava pelos dedos e via o medo das pessoas justamente quando não lhe interessava ver. “Medo de ser presa? Essa mulher tem culpa no cartório?” Morvati deduziu, medos específicos desse jeito sempre o faziam refletir e para essas ocasiões seu dom tinha algo preparado, em medos como aquele, de grande interpretação que na maioria das vezes estava ligado ao passado das pessoas, o jornalista podia ver flashes da memória do indivíduo que explicasse de certa forma o medo ou só o deixasse mais confuso.
Voltou sua atenção a mulher esperando sua resposta, reparou que seu cabelo estava estranho, metade castanho metade loiro onde a parte mais escura engolia a parte clara lentamente se completando, metamorfomagos podiam fazer isso, mas para que estava transformada? Sua cabeça não podia parar de funcionar, um mal de jornalista investigativo onde cada cheiro espalhado no ar pode ser uma pista, “metamorfomaga e com medo de ser presa? Se ela é realmente uma metamorfa pode usar de outra aparência para cometer crimes.” a essa altura Morvati poderia chamar o MACUSA para a atendente que nem sabia o nome. Mas todos os seus preconceitos foram por água abaixo quando olhou novamente para os seus olhos, reparou que havia um brilho especial neles, e tão rápidos e tão lentos ao mesmo tempo de modo que Morvati se sentisse tonto e pudesse viver cada um deles para sempre quatro flashes lhe vieram a cabeça: uma menina de olhar triste olhando outras crianças correrem e brincarem, a mesma menina agora feliz brincando com outra garota, a menina olhando para a tal garota saindo por uma porta segurando a mão de um casal e a menina deitada num beliche chorando e olhando para a janela que ele tinha visto atrás da atendente. “Menina de orfanato... medo da solidão.” concluiu Morvati, sem palavras na própria cabeça por julgar a mulher de sorriso suave tão erroneamente, se eram memórias reais ou apenas uma forma pensamento do medo seu dom não lhe dizia, mas aquelas imagens eram tão fortes que podiam aquecer o coração do jornalista, o medo da solidão era algo comum de se ver (no caso de Morvati literalmente), porém a maioria vinha representado por uma venda nos olhos da pessoa o que ele interpretava como o medo se estar na escuridão sem ver, ouvir ou falar, o medo de estar sozinho sem os sentidos para lhe guiar. Mas aquele era diferente, talvez porque ela vinha de um orfanato, talvez porque o medo ia muito além disso, poderia não ser o medo de estar sozinha, mas sim o medo de estar sem alguém.
As deduções não paravam de cochichar em sua cabeça, enquanto olhava encantado para os olhos da atendente, ela foi de desleixada e preguiçosa a suspeita criminosa a criatura fascinante em segundos, ele não conseguia parar de olhar, de tentar desvendar o caso que era a atendente do Hotel Shmidt.
MORVATI MORTUI possui 34 anos e é JORNALISTA INVESTIGATIVO em Novum Heredes. Nascido NO-MAJ, tem o rosto parecido com o do ator TOM HIDDLESTON e é de responsabilidade do Salev.
A cidade o recebeu durante a noite fria, com uma chuva forte e vento feroz, era de se admirar a lua cheia no céu. Morvati desceu na rodoviária, ignorando todas as ordens de seu chefe, seguindo um boato que percorria nos cantos de bar, uma doença que havia voltado a ativa. Seu chefe, dono do jornal onde trabalhava, disse que ignorasse isso, era apenas uma história criada por uma mente entorpecida pelo álcool, mas Morvati não era de obedecer ordens ou seguir conselhos, pelo contrário, elas apenas o instigavam para ir contra o que lhe diziam.
Coberto por um sobretudo preto, segurando um guarda-chuva elegante, uma mala e uma maleta que batia em seu quadril pendurada por uma alça no ombro no esquerdo que cruzava seu corpo, Morvati andava pela calçada molhada, procurando um hotel para se hospedar. Poucas pessoas passavam na rua, na correria da cidade grande enquanto o homem de sobretudo andava lentamente, usando suas botas para pisar nas poças d'água, era divertido para ele.
Meia hora depois encontrou o que procurava, era impossível não ver, o prédio era enorme, seu quintal tinha uma fonte desligada e grama molhada pela chuva, grandes holofotes iluminavam o prédio que reluzia como ouro mesmo sendo branco como mármore, o Hotel Shmidt.
Ele entrou no lugar e magicamente seu guarda-chuva secou-se, fechou-se e levitou até o porta guarda-chuva, seu sobretudo saiu de seu corpo e se pendurou no cabideiro ao lado da porta do hotel e suas botas se secaram em cima do tapete escrito "Welcome." O saguão era reluzente e morno, ele admirou o luxo do local por uns instantes. Sua vida de jornalista investigativo o fazia viajar para vários lugares e se hospedar em diversos hotéis, mas aquele era de longe o mais luxuoso. Morvati foi ao balcão dourado sem ninguém atrás dele e tocou o sininho, deixou a mala no chão e a maleta em cima do balcão, esperou alguém aparecer por alguns segundos, tocou pela segunda vez...pela terceira, pela quarta e ninguém aparecia. "Luxuosidade 10, atendimento 0" pensou ele.
-Boa noite.- falou ele para o saguão vazio, sua voz ecoou. -Alguém aí? Um elfo doméstico, talvez..? -diminuiu o tom de voz, fazendo quase como uma piada para só ele rir.