MEMORIES & HELL
Depois de um dia longo na faculdade e muito estresse trabalhando na biblioteca Melina sentia a exaustão do seu corpo, estava super cansada e precisava de uma boa noite de sono. Mas não conseguia pregar os olhos, alguma coisa a incomodava, mas não sabia bem o que. Depois de quase três horas se revirando na cama sentiu as pálpebras pesando e o sono chegar, finalmente dormiria em paz… foi o que pensou.
Em um daqueles finais de tarde, onde o céu assume um tom mágico de rosa e o sol se põe no horizonte, parecendo uma pintura renascentista, uma pequena menininha de olhos azuis, cabelos loiros e sorriso encantador brincava de boneca alegremente com seu pai, mas não eram bonecas quaisquer, eram bonecas bruxas, que estavam prestes a derrotar um bruxo muito malvado e salvar o mundo. – E então a corajosa bruxa Melina dá um passo a frente erguendo sua varinha “Eu não tenho medo de você seu bruxo feioso, e nós vamos te derrotar” disse a pequenina sorrindo, em êxtase por estar tão perto de acabar com o bruxo mais procurado do país. – Vai papai, é a sua vez agora. A Anne tem que falar: “Você vai pagar por tudo que fez” falou Melina ajudando Edward, que demorava a responder. – Pai?! exclamou de novo a menininha tentando chamar a atenção do pai. Só que desta vez olhando para ele.
Foi então que Melina percebeu que tinha algo de errado com seu pai, algo muito errado. – Papai, o senhor está bem? tentou de novo, mas não conseguiu nenhuma reação do pai. O seu olhar era distante e vazio e sua pele muito fria, como se ele estivesse… morto. Estava fraco e muito magro, com os ossos do rosto proeminentes e bem pálido. Assim como nas últimas lembranças que Melina tinha dele.
Mas de repente sua pele começou a se desprender do corpo, como uma vela derretendo, e paralisada de medo, Melina não conseguiu se mover; ficou ali, assistindo aquele show de horror, até seu pai estar em carne viva. Não conseguia explicar o que estava acontecendo e nunca sentira tanto medo antes em sua vida, mas era incapaz de desviar o olhar daquela cena. O cheiro era horrível e não demorou muito para a carne começar a desaparecer também, o corpo se decompondo na frente da menininha, e em pouco tempo Edward estava irreconhecível e não lhe restará mais nada além dos ossos do esqueleto. Sua respiração estava ofegante e Melina estava tremendo quando de repente o esqueleto caiu sobre ela; soltando um grito estridente com o susto, a menina conseguiu se mover, seus músculos começaram a funcionar novamente e a primeira coisa que fez foi levantar e correr… correr como se sua vida dependesse disso.
O céu que antes tinha um tom fraco de rosa foi totalmente tomado pela escuridão, mas sem estrelas ou lua para iluminar a noite, e o campo com grama verde onde brincava deu lugar a uma floresta repleta de árvores, que formavam uma espécie de labirinto. E Melina continuou a correr por dentre as árvores, até não conseguir mais puxar o ar e seus pulmões começarem a arder. Foi quando ouviu um grito ecoar pela floresta. Não conseguia dizer se a pessoa ou coisa que o emitiu estava perto ou longe, mas o grito foi tão alto que Melina se viu obrigada a tampar os ouvidos com as mãos, ao sentir uma dor aguda atravessar os seus tímpanos. Mas não deixou de correr, estava muito assustada para fazer com que suas pernas parassem, e tomada pela curiosidade olhou por cima dos ombros para ver se alguma coisa a seguia: não muito distante viu um vulto branco por entre as árvores, mas não estava a seguindo e sim indo para a direção contrária da qual corria, e mesmo com a distância que os separava, Melina sentiu uma aura maligna atingi-la. Foi tomada por mais uma onda de medo quando a coisa parou de repente e começou a se virar para encara-la, mas nunca conseguiu ver o que estava por baixo da capa branca, pois tropeçou em algo no chão e caiu, e quando se levantou a figura já tinha desaparecido.
Mas não deixou de notar o formato estranho do que a fizera tropeçar, e quando percebeu Melina já caminhava em direção ao objeto. Chegando mais perto pôde ver que era um corpo, o corpo de uma mulher, de cabelos loiros, olhos azuis bem abertos e assustados e a boca em um formato estranho como se quisesse gritar. Com lágrimas escorrendo pelas bochechas, a pequena Melina do sonho percebeu que aquela era sua mãe; nunca a tinha visto antes, mas sabia que era ela, e em mais um movimento involuntário, a menina se abaixou, com as mãos estendidas para tocar o rosto do corpo no chão, mas então os olhos da mulher, quase transparentes de tão azuis, se voltaram na direção de Melina, e sua boca se abriu para gritar novamente.
Melina acordou com um sobressalto, a mão apertando o peito, tentando controlar o coração que batia freneticamente e a respiração tão descontrolada que tinha a sensação de que estava se afogando. Os olhos da mulher não saiam de sua cabeça; sabia que tudo tinha sido apenas um pesadelo, mas parecia tão real que até mesmo sentia suas pernas doendo. E quando olhou para a janela, achou ter visto um vulto branco passando... não podia continuar ali ou sua imaginação a deixaria louca. Melina se levantou e saiu do quarto arrastando o cobertor pelo chão, o olhar tão assustado que parecia uma criança. Parou diante de uma das portas e a abriu com cuidado, entrando dentro do quarto com passos pequenos e silenciosos até se aproximar de uma cama. – Eve, posso dormir com você?













