Era um daqueles raros dias em que saía “cedo” do hospital e chegava em casa com tempo suficiente para dormir um pouco antes de ter que levar Jordan para a escola. Sabia que sua mãe acordaria antes dele e deixaria alguma coisa adiantada do café antes de sair, o que lhe dava alguns minutos a mais de sono.
Como nos outros dias, o despertador tocou no horário de sempre mas, ouvindo meio ao longe o barulho da cozinha, apenas desligou o alarme e o colocou para dali a meia hora antes de voltar a dormir. Ou pelo menos achava que tinha colocado.
Acordou meio lento, tentando se localizar propriamente no tempo e no espaço, com a sensação de ter tido um sonho bem real de que havia desligado o despertador ao ouvir sua mãe na cozinha e que tinha o adiantado mas não tinha tocado. Talvez o celular tivesse ficado sem bateria. Mas se o tinha colocado de volta na mesa de cabeceira, por que estava o segurando com uma das mãos? Talvez fosse porque tinha pego para desligar e não conseguia se lembrar. As coisas ainda estavam meio confusas e culpou o sono por aquilo. O silêncio da casa estava perfeito para que voltasse a dormir, mas sabia que tinha que acordar o menino para que fosse para a escola. E precisava saber quanto tempo tinha para consegui fazer tudo sem que ele se atrasasse.
O celular estava com bateria porque a tela acendeu assim que apertou o botão para bloquear o aparelho. Parecia mais cedo, mas já passava das sete. Ele ainda tinha alguns minutos. Deixou o eletrônico de lado e fechou os olhos. Já. Passava. Das. Sete. A informação foi processada em partes por seu cérebro, mas o fez abrir os olhos novamente e catar o celular para ver as horas novamente e ter certeza de que não tinha visto errado. Passava das sete realmente. Ele estava atrasado. Jordan estava atrasado. Bela forma de começar o dia.
Levantou da cama rápido demais e, de alguma forma bizarra, um dos pés havia ficado preso no lençol, fazendo com que caísse e o celular voasse para longe. Mal havia acordado e já podia ver a situação piorando.
Acordou Jordan enquanto se vestia e arrumou o garoto, que ainda insistia em dormir, enquanto escovava os dentes. Porque de todas as manhãs do ano, o loiro tinha que ficar com sono e preguiça justo quando estava atrasado. Reclamar não adiantaria de muita coisa naquele momento então levou o garoto para o banheiro, o deixando sentado na pia enquanto terminava de escovar os dentes e passava a escova do super homem para que o pequeno fizesse o mesmo, respirando aliviado ao ver que ele fazia o que era esperado, mesmo que de forma mais lenta que o normal.
Quanto mais demorassem, mais atrasados chegariam e como ele ainda não sabia como parar o tempo para fazer tudo o que precisava para que não se atrasasse ainda mais, tirou a escova vermelha e azul das mãos do menino e terminou por ele, o descendo da pia assim que terminou de lavar a boca.
Pediu que fosse pegar a mochila enquanto ele pegava alguma coisa para que comesse no caminho. Agradeceu mentalmente sua mãe ao entrar na cozinha e ver que só precisava ligar a cafeteira para que o café fosse feito. Apertou o botão vermelho e deixou que a máquina fizesse sua parte enquanto catava alguma coisa para que o garoto não fosse para a escola sem comer nada.
Tinha mais água do que pó e o café acabou ficando fraco, mas não tinha tempo para preparar outro então acabou tomando assim mesmo. Chamou o garoto pelo nome algumas vezes e, ao não ter nenhuma resposta, foi até o quarto ver o que tinha acontecido, encontrando-o deitado na cama com a cara afundada no colchão, os pés para fora e a mochila nas costas. Teve vontade de o deixar ali mesmo, voltar para a cama, se cobrir e fingir que aquilo não estava acontecendo. Foi até ele e guardou a embalagem do biscoito na mochila do menino antes de o tirar da cama, decidido a acordá-lo de vez quando estivessem na rua.
Alguma coisa deu certo naquela manhã quando, assim que parou para pegar o ônibus e este veio, mas acabou tendo que descer não muito depois já que o trânsito resolveu parar e o tempo continuava passando.
Finalmente, depois de muito esforço, conseguiu chegar a escola de Jordan, que agora estava finalmente acordado, o deixando lá antes de voltar, com calma, para casa.
Queria voltar a deitar e dormir mais um pouco, mas sabia que tinham coisas a serem feitas e que se não as fizesse, ninguém faria por ele.
Conseguiu fazer o que precisava em casa sem muita dificuldade e começava a achar que o dia melhoraria a partir daquele ponto e que tinha sido apenas uma manhã complicada. Mas viu que estava errado quando, depois de comer alguma coisa, foi ao mercado comprar o que estava faltando e, por algum motivo que ele não sabia, o cartão foi recusado. A primeira vez a funcionária achou que havia selecionado a forma errada do pagamento. Na segunda, ele achou que tinha digitado errado a senha. E na terceira não conseguia entender o que tinha de errado para que não fosse aceito.
Muito contrariado, precisou deixar as coisas lá e ir até o banco para ver o que estava acontecendo e tentar resolver o problema, mas, como tudo que está ruim sempre pode piorar, a porta do banco resolveu travar justamente quando ele estava ali. Perdeu algum tempo preso ali, impossibilitando que qualquer pessoa entrasse ou saísse do prédio por aquela porta, as pessoas entrando em fila esperando tanto dentro quanto fora do edifício. E, quando finalmente conseguiram resolver o problema e ele pode sair dali, descobriu que, naquele dia, não teria como resolver o problema porque a gerente da sua conta, já tinha ido embora por conta do horário. O horário. Havia esquecido do horário. Tinha esquecido de ir buscar Jordan na escola. Que tipo de pessoa esquecia o próprio filho na escola? Aparentemente, Fred era esse tipo de pessoa. Mesmo que uma única vez.
Depois de perder mais tempo no caminho até a escola, finalmente conseguiu chegar e, sob um olhar reprovador da professora do menino e com um sorriso sem graça, entrou no prédio e ficou esperando enquanto a mulher ia até onde Jordan e as outras crianças estavam, pegando o menino e sua mochila antes de o levar até onde Fred estava.
Ouviu algumas perguntas de porque havia demorado e apenas resumiu de forma simples que não estava tendo um dia muito bom e, parecendo satisfeito com a resposta, o menino começou a falar sobre todas as coisas que tinha feito na escola enquanto esperava que ele fosse o buscar para que fossem para casa.
Chegar em casa era bom, seguro e não tinha o que dar errado. Até, é claro, eles chegarem lá e ele perceber que havia se trancado fora de casa. A chave estava do lado de dentro e, ele e o filho, do lado de fora. Pegou o celular para que pudesse ligar para um chaveiro, e, foi quando descobriu que já não tinha mais bateria no aparelho, o que explicava porque não tinha recebido nenhuma ligação da escola. As coisas só pioravam e cada vez mais, ele queria que o dia acabasse.
O lado bom é que sua mãe não morava muito longe dali, algumas ruas mais para baixo, então poderiam ir até lá e pegar a cópia da chave dela ou então ligar para o chaveiro. E foi o que fez. Pegou o menino no colo na metade do caminho quando ele reclamou de andar, e, não muito depois, estava parado na frente da porta da casa da mãe, mas, ela não estava lá e ele não tinha como ligar para falar com ela. Sem a menor vontade de voltar, acabou sentando ali na porta com o garoto para esperar que a mulher tivesse retornado.
Algumas horas depois, mas poderiam ter sido minutos também, ele não saberia precisar, ela voltou e o encheu de perguntas enquanto eles entravam. Acabaram comendo com ela, já que não tinha conseguido comprar nada no mercado mais cedo naquele dia, e depois de alguns protestos do garoto sobre ter que tomar banho e trocar de roupa, Fred estava, finalmente, entrando em casa.
Deixou o menino na sala vendo desenhos enquanto ia colocar o celular pra carregar e tomar um banho. Ao puxar o aparelho do bolso para conectar ao carregador, as chaves caíram junto e se bateu mentalmente por não ter procurado direito mais cedo, podendo ter evitado toda a parte cansativa da espera na casa da mãe. Mas já era tarde demais e aquilo não poderia ser mudado mais.
Deixou as coisas exatamente como estavam antes de, finalmente, ir deitar; a tv da sala já desligada e o filho na cama. Fez questão de verificar mais de duas vezes que o despertador estava programado para tocar no horário de sempre no dia seguinte e que o volume do alarme estava no máximo para evitar atrasos e mais um dia péssimo como aquele, antes de conseguir encostar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos.