I can't care about anything but you. @Lancest
Ludwig queria chorar. A velha poltrona do seu pai, a mesma com quem havia divido os mais intensos e melhores momentos de sua vida alguns meses antes com seu irmão, agora parecia mais solitária do que nunca. O som rouco do chiado que o velho rádio do seu tinha se mesclava a uma voz monótona, quase irreconhecível de um narrador. Ele, no momento, dizia que a previsão de chuva para aquela região era certa e que as pessoas deviam permanecer em suas casas, já que o risco de tempestade era grande. Reprimiu uma lágrima. O relógio em cima da mesa do escritório marcava oito e meia, o tempo não parecia passar. Sua mente passeava pelas poucas boas lembranças que se lembrava de ter tido com a família inteira, como em uma ocasião onde os quatro haviam estado em um piquenique no central park. Era quatro de julho e eles assistiram ao espetáculo de fogos amontoados e se defendendo do frio. Lancaster devia ter doze anos na época, por isso não se lembrava direito, mas ele sabia que havia sido um dia feliz. E, ao mesmo tempo que aquela nostalgia trazia coisas boas em si, ele também tinha raiva.
Raiva porque tudo havia sido tirado de si sem mais nem menos. Raiva porque a vida, que se dizia tão justa, havia se tornado um inferno. Raiva porque, acima de tudo, Nathan não estava consigo. A morte de Jane e Michael já não era tão recente, mas Lud sentia a ferida aberta como se não houvesse acontecido faz mais de duas horas. A única coisa que era capaz de preenchê-lo e suporta-lo era seu irmão mais velho, e todas as vezes que este não estava em casa perto de si, protegendo-o como ele havia prometido naquela fatídica noite, o número de pensamentos ruins que brotava em si era maior. E agora, na noite em questão, Ludwig esperava ansiosamente pelo retorno de Nathan. O mais velho havia viajado com uns amigos durante uns poucos dias – que haviam se tornado uma eternidade para si – e ele havia sido obrigado a ficar com os tios. Estes haviam se despedido poucas horas atrás, deixando o mais novo solitário no apartamento esperando pelo infindável retorno do irmão mais velho, mas parecia que tal coisa não iria acontecer nunca. E foi quando estava prestes a perder as esperanças, que o som tão familiar da maçaneta girando e das juntas rangendo o trouxeram de volta a realidade.
Ludwig correu como nunca antes. Antes mesmo que pudesse perceber, havia percorrido a distancia de pelo menos dez metros que separavam o antigo escritório da porta de entrada. Foi preciso só um segundo de hesitação para que ele parasse e admirasse o mais velho. O cabelo molhado dizia que havia pego um pouco de chuva; os olhos pareciam cansados, provavelmente não devia ter dormido muito; as roupas estavam amarrotadas também. Mas, mesmo assim, Lud achou que nunca havia visto ninguém mais lindo no mundo. Seu coração estava repleto de alegria pelo retorno do outro, quando, por impulso, se jogou nos braços dele. Sentiu o calor humano, os músculos, o cheiro e todo o resto já tão conhecido. Foi quando a raiva voltou a si. Desvencilhou-se rapidamente, dando outra olhada rápida antes de desferir um soco na barriga do mais velho – Isso é por ter me abandonado seu babaca. – a respiração estava confusa e sua mão doía, o que o fazia indagar se outro havia sentido o impacto do golpe tanto quanto a si mesmo – Quem você pensa que é pra me deixar sozinho por tanto tempo? – estava exagerando e sabia, mas não importava, só queria descarregar todo aquele sentimento – Ainda mais no meio de uma tempestade dessa. Eu podia ter morrido... – engoliu o seco – Você podia ter morrido. É bom você começar a se explicar antes que eu chame o conselho tutelar! – exclamou. Seus olhos marejaram contra a própria vontade e, apesar da onda de irritação que ainda tomava conta de si, ele não podia negar: estava absurdamente feliz que o outro estava de volta.