Artemis: Que teu olhar flameje e assombre o mundo
Há luas que são feitas de prata e silêncio. Outras, de música e mistério. A ópera Artemis, do compositor brasileiro Alberto Nepomuceno, nasceu de uma dessas luas antigas — aquela que os gregos chamavam de deusa caçadora, senhora dos animais e dos caminhos noturnos.
Nesta obra rara e encantada, Nepomuceno tece uma partitura onde a noite ganha voz. O enredo nos conduz por uma floresta de sentidos: ali, onde a luz da lua atravessa as folhas como um canto de soprano, a própria Artemis vagueia. Ela é ao mesmo tempo desejo e distância, pureza e fúria. Seu arco brilha como um quarto crescente, e suas flechas são notas agudas que perfuram o coração dos mortais que ousam amá-la. O libreto — inspirado em mitos e sombras — conta de encontros proibidos, metamorfoses, e da solidão gloriosa de quem vive à margem do sol. É uma ópera que respira pelos poros da lua.
E é justamente essa lua — a mesma que guia os passos da deusa — que a NASA escolheu para batizar sua nova jornada espacial. Chamaram-na de Artemis, irmã gêmea de Apolo. Pois se Apolo, décadas atrás, levou homens à superfície cinzenta do nosso satélite, agora é a vez da irmã. E ela vem com uma promessa que faz o coração bater mais leve: pela primeira vez, uma mulher pisará a Lua.
Que símbolo mais belo? A deusa que sempre foi senhora da caça e das noites estreladas será, enfim, a primeira a deixar suas pegadas femininas no solo lunar. Não mais apenas nos mitos, mas na história. Não mais apenas no palco da ópera, mas no palco infinito do cosmos.
Assim, duas Artemises se encontram no imaginário: uma, feita de melodias românticas e libretos brasileiros, que nos ensina sobre a solidão e a beleza da caçadora eterna. Outra, de metal e ciência, que levará uma mulher a cantar, mesmo que em silêncio, na superfície da Lua. E quem sabe, lá do alto, ela escute, flutuando no éter, os acentos de uma ópera que Nepomuceno sonhou sob o mesmo céu noturno.
Em cada nota da Artemis de Nepomuceno, há um convite para olhar para cima. Em cada lançamento da Artemis da NASA, há um convite para ouvir o que a Lua sempre quis nos contar.
Artemis (Alberto Nepomuceno) - São Paulo 2014
Como será a ópera no século XXIII?















