Número Zero – Humberto Eco
Um livro sobre um jornal “que não era para ser”, ou seja, simula-se a criação de um jornal, contratam-se os profissionais para que “treinem” para quando o jornal for ser editado, mas o jornal não será lançado. Interessante ver como o que sai é resultado de muitas linhas de ideias – não só o que ocorreu, mas o que se quer que se pense que ocorreu, o que agrada a este ou aquele e por aí vai.
Tem delírios e invenções bastante interessantes, como a que Mussolini não teria morrido, mas sim um de seus duplos e de outras conspirações numa história que se passa em 1992. Leia abaixo alguns trechos:
“Os perdedores, assim como os autodidatas, sempre têm conhecimentos mais vastos que os vencedores, e quem quiser vencer deverá saber uma única coisa e não perder tempo sabendo todas, o prazer da erudição é reservados aos perdedores. Quanto mais coisas uma pessoa sabe, menos coisas deram certo para ela.”
“As pessoas no inicio não sabem que tendências têm, e depois nós lhes dizemos e elas percebem que as tinham.”
“esse negócio de dossiê é bom – observou Simei. – Nosso editor iria ficar contente de ter instrumentos para manter sob controle gente que não gosta dele, ou de quem ele não gosta. Collona, por gentileza, monte uma lista de pessoas com quem o nosso editor pode ter e se haver, encontre um universitário reprovado e sem dinheiro e faça-o preparar uma duzia de dossiês...”
“...vamos procurar um país onde não haja segredos e tudo ocorra à luz do dia. Entre a América Central e a do Sul existe um monte. Nada escondido, todos sabem quem pertence ao cartel das drogas, quem dirige as organizações revolucionários, você se senta no restaurante, passa um grupo de amigos e eles apresentam um sujeito como o chefão do contrabando de armas, todo bonito, barbeado e cheiroso, com aquele tipo de camisa branca engomada que se usa por fora das calças, os garçons o reverenciam señor daqui, señor dali, e o comandante da Guarda Civil vai homenageá-lo. São países sem mistérios, tudo ocorre à luz do dia, a polícia afiram ser corrupta por regulamento, governo e delinquência coincidem por ditame constitucional, os bancos vivem de lavagem de dinheiro e aí de você se não levar mais dinheiro de proveniência duvidosa, tiram-lhe a licença de permanência...”








