O som da porta rangendo ecoou pela loja vazia, interrompendo o silêncio da noite. Matteo entrou com passos firmes. Zafira estava sentada à mesa, as mãos ágeis guardando os objetos do trabalho do dia. Ela não olhou para ele imediatamente, mas seu sorriso sempre misterioso surgiu aos poucos, como uma peça de teatro prestes a ser encenada. Matteo era reservado, ela não o conhecia muito, mas sabia que ele não era do tipo que a visitaria sem um propósito. Um homem sério, fechado, que raramente expressava mais do que a necessidade básica de ser educado. Ela se levantou, se aproximando lentamente. Seus olhos, profundos e enigmáticos, brilharam com um interesse sutil.
— Ah, Matteo... Já fechei o expediente por hoje. Mas posso fazer uma sessão especial para você. — ela falou com aquela mistura de provocação e diversão, como se estivesse se divertindo com a decisão dele de procurar por ela. Naquele horário. Ela sabia bem o que ele queria.
— Eu só quero entender como funciona. — respondeu Matteo, sua voz calma, mas com uma firmeza que não passava despercebida.
Zafira riu suavemente, um som baixo e cheio de significado, como se estivesse rindo da situação, mas de uma maneira amigável, quase cúmplice. Em certos momentos poderia não parecer, mas a cigana tinha tanto interesse em acabar com a maldição quanto alguns deles.
— Tem que estar preparado. O espelho... Ele... cobra um preço. — Ela deu um passo atrás e gesticulou em direção a um canto da sala, que levava a uma área mais reservada.
Lá dentro, um objeto enorme era coberto por um pano de veludo preto. O espelho. Ela descobriu o item, e fez sinal com a mão para que Matteo se aproximasse. Sua superfície escura refletia o brilho fraco da luz nas velas, mas não revelava muito mais do que isso. O vidro parecia escuro demais para refletir a imagem de alguém, e algo mais parecia viver ali, à espreita. Zafira se virou para Matteo, seu sorriso se alargando, mas com um toque de seriedade agora.
— Para invocar o espelho, você precisa recitar as palavras certas. — disse ela, quase como uma oração. Buscou um livro na mesinha atrás do espelho e abriu na página. — Você está preparado para o que vem depois?
Matteo sentiu um leve calafrio, mas não vacilou. Ele não sabia exatamente o que esperava, mas algo o impulsionava para frente.
— Eu vou sofrer uma consequência sem saber o que é?
— Não, o Espelho te revela antes qual o preço dele. E você aceita ou não.
— E se eu não aceitar?
— Ele não responde.
— Simples assim?
— É. Mas depois ele só pode ser invocado novamente em 30 dias. Então não desperdice a chance. E nem desperdice a pergunta.
Matteo parecia tenso, hesitando em concordar. Suspirou, frustrado, para o olhar quase pedinte de Zafira. Com um gesto sutil, ela ajeitou o espelho para que ele pudesse ver melhor, como um pedido de confirmação se podiam seguir em frente.
— Vamos lá... — a voz não soava muito confiante, mas Zafira sorriu.
Caminhou até ele e segurou o livro, apontando as palavras que ele deveria dizer.
— Repita essas palavras.
Matteo assentiu. Pigarreou e começou a recitar o poema, lendo devagar, com notável dificuldade.
— “Nas suas sombras, a verdade se esconde,
Ofereço meu sacrifício, que ao tempo responde.”
Quando ele terminou, o espelho não fez nada de imediato. O silêncio pairou por um momento, até que uma suave vibração começou a emanar do vidro. O lugar ficou mais escuro, como se o objeto sugasse a luz do ambiente. O som era como uma reverberação suave, um murmúrio que só Matteo parecia poder ouvir. A superfície do espelho parecia se distorcer ligeiramente, como se algo dentro dele estivesse começando a despertar.
De repente, o espelho mostrou a imagem de um rosto. Apenas um rosto. Flutuando. Sério, apático. Então, foi possível ouvir sua voz. forte, imponente, decidida. As palavras surgiram como se fossem parte de um poema fluido, dito por uma voz profunda e distante:
— Em busca da verdade, você se apresenta. Mas um sacrifício será necessário para a resposta que deseja. Ofereço minha visão, por um preço a pagar. O peso se dissipará, se o caminho mudar.
Matteo pareceu confuso.
— O que houve?
— Não entendi o final. Você consegue ouvir?
— Não. Só você. Mas ele deve ter repetido o que falou para mim. "Se o caminho mudar" significa "se a maldição for quebrada". Vocês têm doze meses, lembra? Na verdade, agora vocês só têm dez. Se no final do ano vocês quebrarem a maldição, o preço que vai pagar hoje será revertido, no fim.
— Entendi. E qual é o preço?
— Pergunte a ele.
— Senhor Espelho, qual... qual é o preço? — meio sem jeito, sentiu-se ridículo por falar com um objeto. Zafira conteve um riso.
A voz emitiu um resmungo, e algo mudou no ar. Era como se o estivesse avaliando, procurando em sua alma suas fraquezas para sugerir um preço que ele negasse... ou que, ao menos, o incomodasse. Por um momento, o vidro parecia se desfocar, e então, uma cena começou a se formar ali dentro.
Primeiro, um borrão. Depois, uma imagem começou a surgir: Matteo, ainda jovem, mas diferente. Magrelo, desengonçado, o rosto cheio de insegurança. Um reflexo de alguém que sofria bullying, alguém que se escondia, alguém que não sabia como enfrentar a si mesmo. O reflexo de sua adolescência, em toda a sua forma mais cruel.
Zafira observou Matteo, com os olhos focados no espelho, mas ela sabia que ele já estava vendo. Era possível perceber a mudança no semblante dele, de alguém que vinha algo, no mínimo, desagradável. O preço estava diante dele agora, em forma clara e dolorosa. O espelho falou de novo, agora mais sombriamente:
— O preço está feito. A cada olhar, o peso da sua alma refletida na infância. O que já passou, mas que nunca se apaga.
Matteo repetiu o que ouviu, e Zafira clareou a explicação.
— Toda vez que olhar no espelho, o seu reflexo vai estar... diferente. Você vai se enxergar como já foi um dia.
O espelho aguardou, em silêncio, e o reflexo de Matteo na adolescência continuou a olhar para ele, um lembrete do que ele poderia perder ao fazer essa escolha. A tensão no ar era palpável, mas ele não se afastou.
— Eu aceito. — A voz dele estava implacável, sem uma faísca de dúvida.
Zafira se surpreendeu.
— Matteo, o espelho mexe com as nossas inseguranças. Até o final do ano, você só vai enxergar no espelho a versão que você odeia. Isso se a maldição for quebrada, se não... — Ela tentou alertar.
Ele a interrompeu, sem olhar para ela, encarando o reflexo no espelho. Zafira suspirou.
— Eu aceito.
O silêncio entre eles parecia mais espesso. A decisão foi tomada. O espelho voltou a mostrar o próprio rosto, aquele flutuante e sério demais.
— Faça a pergunta.
— Eu fui James Scott na vida passada?
Zafira ouviu a pergunta, mas não via ou escutava nada do que o espelho dizia.
— Se você for, ele vai te mostrar imagens da sua vida passada e você vai ter... sensações. Lembranças. Se não, ele só vai sumir.
Matteo permaneceu em silêncio, os olhos fixos na imagem do espelho. Ele sabia que estava lidando com algo além de um simples ritual. Algo que poderia mudar sua vida, para o bem ou para o mal. Sem piscar, como se tivesse medo de perder alguma imagem.
A loja de Zafira exalava o mesmo aroma familiar de ervas e incensos quando Matteo entrou, pouco tempo depois da leitura de tarot. O tilintar leve da sineta anunciou sua chegada. Ela ergueu o olhar do balcão e franziu o cenho, em confusão e surpresa.
— De novo? — perguntou, divertida. — Veio comprar cristais de proteção dessa vez?
Matteo esboçou um sorriso meio sem graça.
— Não exatamente. Acho que... preciso de algo mais claro. Não sei se as cartas de tarot ajudaram muito. Podemos tentar de novo?
Zafira inclinou a cabeça, como quem avalia as entrelinhas. Olhos semicerrados, quase desconfiada, ela respondeu:
— Matteo, eu falei que a sua relação com a sua alma gêmea era de um passado conturbado. Que vocês se feriram por anos, que tem orgulho e provocação envolvido, mas agora tem toque, desejo, curiosidade, sentimento... Você tem muitas relações assim?
— É que...
— Já sei. Não acredita nas minhas palavras? Acho que você precisa de mais para crer. Você precisa ver. E sentir. O que acha?
— E como isso funciona? — Ele cruzou os braços, desconfiado.
— Fique tranquilo que também não tem preço espiritual. Mas é um pouco mais caro... financeiramente falando. Você vai se sentir um pouco exausto no final, mas passa em algumas horas.
Matteo suspirou. Ergueu os ombros, como quem não tem alternativa a não ser topar. No momento em que estavam, valia tentar quase tudo.
— Tome isso. Para garantir que teremos sorte na sessão. — entregou o vidrinho com a poção.
Zafira o conduziu pela loja até a pequena sala nos fundos. No centro, uma mesinha redonda, e sobre ela, repousavam velas finas e um pequeno incensário de cerâmica ornamentada.
Com gestos delicados, ela acendeu o incenso e as velas. Havia um sofá confortável e uma cadeira ao lado. Zafira indicou o sofá para o rapaz, pegou o relógio e o colocou para tiquetaquear. Sentou-se na cadeira ao lado dele. O ambiente ganhou um tom acolhedor e misterioso.
— Feche os olhos... Respire fundo. Agora... vamos atravessar o tempo.
Sua voz se mantinha hipnótica, guiando sua respiração, as sensações com o corpo, pedindo para esvaziar a mente, conduzindo os pensamentos dele. Lentamente, o presente foi se desfazendo.
— Visualize uma porta à sua frente. Quando estiver pronto, atravesse essa porta... Não tenha medo. Observe o que surge. Deixe vir o que sua alma quiser mostrar. Não precisa me dizer nada. Apenas sinta.
A visão se forma devagar, como se as bordas do tempo estivessem sendo puxadas para dentro de si.
E então, Matteo começou a ver.
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A primeira imagem era de uma casa simples, porém organizada. Um cheiro sutil de madeira encerada no ar. Ele via tudo como se estivesse dentro daquele corpo que entrava na casa. Ele se olhou no espelho.
— Eu vejo no reflexo um rapaz de cabelos loiro escuro. Os fios bagunçados. Parece que sou eu. — Matteo explicou. Olhos fechados.
— Shh... não diga nada. Apenas visualize e sinta.
Matteo ouviu o som de passos leves e, logo à frente, a figura de um rapaz sorridente, cabelos negros, surgiu na porta. Tinha um semblante tímido, mas um olhar simpático.
Matteo começava a sentir as sensações como se estivesse lá. Estava contrariado, ainda meio defensivo. As memórias o invadiam, ele conseguia compreender toda a cena. A tarefa escolar o trouxera até ali, e inicialmente o silêncio foi desconfortável. Mas as palavras logo começaram a fluir. O rapaz à frente dele era espirituoso, gentil e exibia um humor sutil, que desarmava qualquer resistência.
Flashes de dias diferentes apareciam na visão de Matteo. Diversos momentos dos dois estudando juntos. Na escola, na casa de um deles, na biblioteca da cidade. O rapaz loiro sentia uma estranha leveza, um calor súbito no peito. O sorriso do moreno era... bonito. E ele percebia isso, sem entender ao certo o porquê de se sentir assim.
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A cena mudou. Agora estavam do lado de fora da cidade, no alto do Monte della Penombra. O sol pendia baixo, tingindo o céu de tons dourados e cor-de-rosa. Uma toalha de piquenique estava estendida na grama, mas quase nada foi tocado.
Em silêncio, dividiam o espaço. Trocavam olhares e sorrisos, quando o rapaz, mais uma vez, deitou a cabeça no ombro dele. Os dedos se buscaram lentamente, entrelaçando-se com delicadeza. O rapaz loiro sentiu o contato quente das mãos, o bater calmo dos corações tão próximos. Nenhuma palavra dita. Apenas o conforto de saberem o que o outro sentia. Mas também o medo: a sociedade lá fora jamais aceitaria aquilo.
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A terceira visão chegou com força.
Era noite. Chuva batendo na janela. O moreno chorava durante um desabafo sobre o que ouviu na igreja. Comentários maldosos, sussurros de intolerância, faziam com que ele sentisse que havia algo errado com ele. O loiro parecia em desespero ao ver o outro em prantos. Movido pelo impulso, o puxou para perto, enxugando-lhe as lágrimas com as próprias mãos. A voz saiu firme:
— Ninguém mais importa. Você é lindo. É especial. Eu... eu te amo.
Pela primeira vez, as palavras foram ditas. O choro do outro se intensificou, mas agora de alívio e emoção. Se tinha algo de errado com ele, então os dois seriam errados juntos.
— Eu também te amo... — ele sussurrou, antes de ceder ao beijo. Um beijo cheio de lágrimas, de urgência, misturado ao alívio de finalmente se entregarem ao que sentiam.
O momento bonito virou fumaça, como as outras cenas.
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A sequência seguinte foi dolorosa.
Estavam sentados lado a lado, mas o ar estava pesado. O moreno tentava sorrir, tentando amenizar, mas a confissão caiu como uma lâmina:
— Estou doente... há anos. Não sei mais quanto tempo tenho de vida.
O pânico tomou conta do loiro. As mãos dele procuraram as mãos do outro com desespero. O nó na garganta, impossível de conter.
— Não... não, por favor... — murmurou.
Os olhos de ambos brilhavam com as lágrimas de medo. O loiro chorou, sentindo que era a primeira vez que fazia diante do outro. Sentia-se completamente impotente, mas prometendo, com a alma, que cuidaria dele até o fim.
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A dor atingiu o auge com a cena seguinte.
Agora o quarto era silencioso. O moreno, pálido e frágil, deitado na cama. O cheiro forte de hospital pairava no ar. As mãos continuavam unidas, apertando firmemente. Ninguém mais estava no hospital. Os pais de James o renegaram quando descobriram. Não revelaram a mais ninguém por vergonha.
— Você precisa viver. Prometa que vai viver... mesmo sem mim.
O loiro engolia o choro, a dor dilacerante tomando conta.
— Eu não sei como viver sem você. — Ele sussurrou.
O outro sorriu fraco.
— Vai aprender. Terá uma vida bonita. Eu quero isso pra você. Por favor... me prometa.
As lágrimas desciam incontroláveis pelo rosto do loiro. Com um beijo delicado e desesperado, ele sussurrou a promessa:
— Sei que você não acredita em reencarnação... mas eu não acredito que nosso amor acaba aqui. Eu vou te encontrar. Onde quer que seja. E nós vamos ter o nosso final feliz. Isso eu te prometo. Eu vou te amar até o fim da vida, James.
— Eu te amo, Landon.
O moreno sorriu pela última vez.
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E então as cenas cessaram. Mas Matteo não despertou. Levou algum tempo, mas as memórias começaram a flutuar rápido, como lampejos. Agora, ele se via num corpo infantil.
Primeiro, um quarto de criança, iluminado por velas. Uma cabana de lençóis improvisada, duas crianças pequenas, de cinco e seis anos. Ela lia em voz alta, com a paciência típica de quem ama ensinar. Ele, um pouco frustrado por ainda errar algumas palavras, mas rindo da cumplicidade.
Depois, uma fumaça levou a memória, trazendo outra. Era o entardecer nos campos. Os vidrinhos de vidro nas mãos, capturando vaga-lumes. Tropeços e gargalhadas ecoando pela relva alta.
— Eu vou pegar mais vaga-lumes que você.
Por fim, agora adolescentes, aparentavam uns quinze anos. A imagem ficava mais clara. Matteo conseguia ver os fios loiros da menina. Deitados sob as estrelas no telhado de alguma casa. Ela criava histórias para as constelações. Ele falava que as estrelas eram janelas por onde as pessoas que morreram assistiam aos vivos. Os dois prometiam se cuidar e se proteger sempre.
— Você é meu primo favorito, Landy.
— E você é minha melhor amiga, Kimmy.
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Aos poucos, as imagens se dissolveram. A voz de Zafira, suave e firme, o guiou de volta.
— Respire fundo... Você está aqui. No presente. Está seguro.
Matteo abriu os olhos, o coração disparado. Ainda sentia o calor na pele e o peso das emoções. O amor, a dor, as promessas e o reencontro finalmente possível.
Zafira apenas o observava, em silêncio, respeitando o turbilhão que acabara de presenciar.
OOC.
O pov foi comprado pela player do Matteo por 150 pontos + 30 pontos da poção da sorte.
A loja parecia a mesma — as cortinas pesadas de veludo escuro, o aroma persistente de sândalo queimado, as velas crepitando como pequenas estrelas presas em suportes de ferro. Mas, para Matteo, a sensação era diferente. Como se o próprio ar estivesse mais denso. Já havia ido lá outras vezes, em vão. Esperava que agora conseguisse respostas mais claras.
Zafira o observou entrar, com olhos atentos e o corpo apoiado na bancada de cristais. Sorriu quando ele se aproximou.
— Veio em busca de respostas, Hércules? — perguntou com um meio sorriso enigmático.
— Achei que tinha parado com os apelidos.
— Vocês me deixaram de bom humor depois do último ritual. Sente-se, rapaz. Fique à vontade. O que precisa?
— Quero... só confirmar algo. Sobre a minha... "alma gêmea". Talvez seja alguém que eu já imagino. Só preciso ter certeza.
— O amor é uma tapeçaria antiga. Tecida com fios de desejo, medo, passado e promessas não cumpridas. Podemos fazer um jogo de tarot, mas as cartas só podem mostrar padrões, reflexos... nunca nomes. — A cigana advertiu.
— Tenho que pagar algum preço além de dinheiro?
— Não. Fique tranquilo. — ela sorriu, lembrando de experiências passadas dele com o espelho.
— Tem alguma chance de isso dar errado? Ou de ser muito... confuso?
— O tarot sempre dá respostas enigmáticas. Eu vou tentar ser o mais clara possível com o que ele quer dizer, mas você vai precisar interpretar. No entanto, se quiser aumentar suas chances de boa resposta, posso te oferecer uma poção da sorte. E não, não é golpe para arrancar dinheiro. Não faria isso com você. — ele sabia que faria, mas não retrucou.
Zafira pegou o vidrinho com a poção e acenou com a mão para ele acompanhá-la. Nenhum outro cliente na loja precisava escutá-los. Deixou o lugar sob os cuidados de outra vendedora e levou Matteo até a parte privada do lugar.
Sentou-se e indicou a cadeira para ele. Entregou o vidrinho para que ele tomasse. Acendeu as velas. Embaralhou as cartas em movimentos hipnóticos. Olhos fechados, murmurando palavras num idioma antigo. Abriu os olhos, espalhou as cartas sobre a mesa.
— Escolha duas.
Matteo escolheu. Zafira virou as cartas com um movimento elegante.
🃏 A Lua
— Vamos falar sobre problemas que vocês podem enfrentar. A Lua fala de ilusões, segredos, confusões internas. Você carrega dentro de si muita história não contada. Orgulho. Mágoas. Medo que talvez nem saiba nomear. Sua relação com sua alma gêmea, mesmo que forte, ainda caminha sob neblina densa. É preciso coragem para dissipar essa névoa e encarar o que existe de verdade. Feridas antigas, embates não resolvidos, e inseguranças profundas podem surgir se não houver diálogo honesto.
🃏 O Sol
— A segunda carta traz uma energia muito diferente. O Sol... — Zafira sorriu ao fitá-lo. — ... é a promessa da alegria plena. Do amor sincero, vibrante, leve. Vocês têm diante de si um futuro que pode ser bonito, quente, cheio de cumplicidade, se houver entrega verdadeira. Mas para chegar até aqui, precisam despir-se do passado, conversar sem máscaras, curar as feridas com paciência. Amor, meu caro, é escolha diária. E quando feito com generosidade, transforma tudo. Mesmo as mágoas de outras vidas.
Zafira recolheu o baralho com um novo movimento de misturá-las. O silêncio encheu o espaço por alguns instantes, até que ela voltou a encará-lo com os olhos brilhando.
— Agora, Matteo... quero que pense nas pessoas que passaram por sua mente quando entrou aqui. Aquelas que seu coração considerou candidatas a essa conexão. Visualize-as. Apenas sinta, não me diga os nomes. E tire quatro cartas.
Matteo assentiu. As imagens vinham em turbilhão. Tanta história, tantos sentimentos. Confusos, intensos. Suspirou e escolheu as cartas. Zafira virou a primeira para interpretar, fazendo o mesmo com as outras depois, uma de cada vez.
🃏 Cinco de Paus
— O Cinco de Paus mostra disputa, competição, conflito constante. Há tensão nessa conexão. Frustrações. E, no meio disso tudo, uma inquietação que o faz querer, e ao mesmo tempo, querer desistir. É como lutar contra a corrente. Existe uma energia que os puxa para confrontos sempre que tentam se aproximar. Difícil encontrar clareza neste terreno de faíscas e provocações constantes. Há desejo aqui, sim, mas não o suficiente para te fazer ficar. Não me parece ter a força para uma alma gêmea.
🃏 Sete de Copas
— Esse aqui parece falar de outra pessoa... O Sete de Copas fala de confusão emocional. Desejos antigos misturados com novas possibilidades. Há em você uma saudade de algo que nunca chegou a florescer plenamente. Um "e se" que ainda dança em sua mente. Mas cuidado: nem tudo o que parece doce de longe será alimento verdadeiro quando saboreado. Essa conexão carrega fantasias, desejos não ditos e um certo conflito interno entre passado e presente. Talvez precisem se ver mais, investir nessa conexão, só para que você coloque um ponto final nesse "e se". Mas também não vejo futuro aqui.
🃏 Seis de Copas
— O Seis de Copas é memória. Nostalgia. Conforto. Vocês construíram algo bonito juntos. Há um amor genuíno aqui, mas um amor enraizado no conforto, na parceria, na amizade segura. Durante muito tempo, vocês acharam que talvez fossem destinados, e, de certo modo, são — mas não da forma que talvez imaginaram. Existe espaço aqui para mais história. Para carinho, crescimento, apoio mútuo. Mas a alma gêmea... a alma gêmea é outra coisa.
🃏 Os Enamorados
— Ah... — o tom de Zafira baixou, mais profundo, quase reverente. Ela sorriu com essa carta. — Os Enamorados. Eis o fio verdadeiro. Eis o laço de almas. Vocês vieram de um passado conturbado, feriram um ao outro por anos, se perderam em disputas, orgulhos, provocações. E mesmo assim, o destino costurou encontros improváveis. O toque que antes parecia impossível agora os consome em desejo, curiosidade, temor e desejo de compreender o que realmente sentem.
Ela pousou a mão sobre o centro da mesa, como selando o ritual.
— O amor verdadeiro nem sempre nasce do que é simples, Matteo. Às vezes, ele surge da ruína, do confronto, da longa jornada de almas que se desencontraram para, só então, aprenderem o real significado da entrega. Há muito a ser curado ainda. Mas se ambos escolherem esse caminho... será uma paixão profunda, antiga, e renovada.
O silêncio caiu pesado entre eles. Apenas o crepitar das velas preenchia o espaço. Matteo encarava as cartas, o coração batendo forte no peito. As imagens rodavam em sua mente, como fragmentos de um quebra-cabeça cujas peças começavam, lentamente, a se encaixar.
Zafira, por fim, fechou os olhos e soprou devagar as velas.
— Agora, meu caro... o resposta final mora em você.
OOC.
O pov foi comprado pela player do Matteo por 200 pontos.
O céu de Khadel estava daquele jeito que só servia para piorar o humor de quem já não estava num bom dia — cinza sem graça, sem promessa de chuva nem de sol. Só uma camada opaca, como se alguém tivesse deixado um cobertor velho estendido sobre a cidade. Catarina estava encostada no batente da porta, observando a figura grande e desajeitada de Matteo, sentado emburrado numa das mesas. Ele estava parado demais para alguém que dizia preferir movimento. E quieto demais para alguém que vivia resmungando sobre tudo.
Eles não eram exatamente amigos, mas se... toleravam. Ao menos ela diria, em relação ao encontro deles. Mas, mesmo não conhecendo ele muito bem, aquela postura curvada, o jeito que ele encarava o chão como se fosse brigar com ele… tudo gritava que algo não estava bem. E, claro, Matteo não era exatamente do tipo que colocava sentimentos na bandeja e servia com guardanapo de linho. Era mais do tipo que socava um saco de areia até os dedos racharem fingindo que era só um hobby.
Catarina soltou um suspiro teatral antes de bater os pés contra o caminho que levava até ele. O vento frio bagunçou seus cabelos soltos, e ela nem se deu ao trabalho de prender. Caminhou até ele com passos firmes, sentindo o cheiro úmido da terra e o som distante da cantoria do coral. Parou ao lado dele sem dizer nada por alguns segundos. Observou a mesma coisa que ele parecia observar: absolutamente nada. Só terra, algumas folhas, e um pedaço de galho que provavelmente algum gato arrastou para ali.
"Sabe," começou ela, com aquele tom casual que sempre vinha acompanhado de alguma provocação, "eu juro que por um segundo achei que você tinha virado estátua. Ia começar a cobrar entrada pra visitação." Matteo não respondeu. Só virou o rosto ligeiramente, como quem reconhece a provocação, mas não está de humor pra jogar o jogo. Ela arqueou uma sobrancelha. "Você está meio triste, grandão. Vamos. Me segue." Não era um pedido. Era quase uma ordem, mas fez com que soasse como convite, apesar de cutucar as costelas dele.
Ela já estava caminhando, como quem sabe que será seguida. Porque, no fundo, Matteo podia até tentar se esconder atrás da carranca e do silêncio, mas ela achava que podia lidar com o mau-humor dele melhor do que lidava com a falsidade de outros. E naquele dia, ele precisava de um pretexto qualquer pra sair da própria cabeça. Ela levou ele para onde as pessoas pareciam estar desenhando. Não era exatamente algo que ela queria fazer, "a gente entra em qualquer atividade." Então, ela sentou num banquinho e, pela primeira vez, notou as pessoas vendadas, "você que vai se vendar," disse como uma ordem.