com @thematteobianchi no desenho às cegas
O céu de Khadel estava daquele jeito que só servia para piorar o humor de quem já não estava num bom dia — cinza sem graça, sem promessa de chuva nem de sol. Só uma camada opaca, como se alguém tivesse deixado um cobertor velho estendido sobre a cidade. Catarina estava encostada no batente da porta, observando a figura grande e desajeitada de Matteo, sentado emburrado numa das mesas. Ele estava parado demais para alguém que dizia preferir movimento. E quieto demais para alguém que vivia resmungando sobre tudo.
Eles não eram exatamente amigos, mas se... toleravam. Ao menos ela diria, em relação ao encontro deles. Mas, mesmo não conhecendo ele muito bem, aquela postura curvada, o jeito que ele encarava o chão como se fosse brigar com ele… tudo gritava que algo não estava bem. E, claro, Matteo não era exatamente do tipo que colocava sentimentos na bandeja e servia com guardanapo de linho. Era mais do tipo que socava um saco de areia até os dedos racharem fingindo que era só um hobby.
Catarina soltou um suspiro teatral antes de bater os pés contra o caminho que levava até ele. O vento frio bagunçou seus cabelos soltos, e ela nem se deu ao trabalho de prender. Caminhou até ele com passos firmes, sentindo o cheiro úmido da terra e o som distante da cantoria do coral. Parou ao lado dele sem dizer nada por alguns segundos. Observou a mesma coisa que ele parecia observar: absolutamente nada. Só terra, algumas folhas, e um pedaço de galho que provavelmente algum gato arrastou para ali.
"Sabe," começou ela, com aquele tom casual que sempre vinha acompanhado de alguma provocação, "eu juro que por um segundo achei que você tinha virado estátua. Ia começar a cobrar entrada pra visitação." Matteo não respondeu. Só virou o rosto ligeiramente, como quem reconhece a provocação, mas não está de humor pra jogar o jogo. Ela arqueou uma sobrancelha. "Você está meio triste, grandão. Vamos. Me segue." Não era um pedido. Era quase uma ordem, mas fez com que soasse como convite, apesar de cutucar as costelas dele.
Ela já estava caminhando, como quem sabe que será seguida. Porque, no fundo, Matteo podia até tentar se esconder atrás da carranca e do silêncio, mas ela achava que podia lidar com o mau-humor dele melhor do que lidava com a falsidade de outros. E naquele dia, ele precisava de um pretexto qualquer pra sair da própria cabeça. Ela levou ele para onde as pessoas pareciam estar desenhando. Não era exatamente algo que ela queria fazer, "a gente entra em qualquer atividade." Então, ela sentou num banquinho e, pela primeira vez, notou as pessoas vendadas, "você que vai se vendar," disse como uma ordem.