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Christopher não era do tipo que voltava atrás com facilidade — muito menos alguém que se desculpava com frequência. No entanto, desde a conversa que tivera com Annelize, não conseguia tirar da cabeça o quanto havia sido insensível com Olívia na última vez em que se encontraram. Sim, eles tinham suas pendências, e não eram poucas. Mas, por maiores que fossem, nada justificava o modo como ele havia agido. Não quando ela claramente também enfrentava um momento difícil. Afinal, como a própria Olívia fizera questão de lembrar naquele dia, ninguém vai a um hospital por diversão. Nos dias que se seguiram, ele até tentou entrar em contato com ela — mais de uma vez, inclusive —, mas quase sempre foi ignorado ou contornado com uma habilidade impressionante. E, para cada tentativa frustrada, seu arrependimento só aumentava. Ainda assim, por mais que soubesse o quão teimosa Olívia podia ser, Christopher também não era alguém que desistia com facilidade. Continuava pensando em como encontrá-la em um momento em que ela, ao menos, aceitasse ouvi-lo.
Por mais que desejasse resolver de uma vez a situação, havia decidido não pensar nos problemas ao menos durante a feira, e assim estava sendo até que uma melodia conhecida acompanhada de um timbre familiar fizeram com que ele olhasse para o palco onde aconteciam os duetos improvisados. Olívia estava acompanhada de alguém cujo o rosto Christopher não fez muita questão de focalizar.
Os olhos claros se fixaram nela, e, aos poucos, Christopher começou a notar detalhes que normalmente passavam despercebidos — ou que talvez ele nunca tivesse se permitido realmente enxergar. Havia uma felicidade genuína estampada no rosto de Olívia enquanto ela cantava, entregue à melodia de uma música que, pelo brilho em seu olhar, claramente gostava. Ela se movimentava com leveza, sem se importar com o entorno, deixando escapar passos de dança desajeitados e espontâneos que pareciam mais dela do que qualquer pose ensaiada. Era uma vulnerabilidade desconcertante — e encantadora. A forma como ria de si mesma, sem constrangimento, a maneira como seus ombros relaxavam e como o cabelo acompanhava os giros descompassados... Tudo nela, naquele instante, parecia leve, livre.
E aquilo o desarmou.
A Olívia que ele via ali não era a mesma de sempre — não era a mulher contida, afiada, por vezes defensiva, que ele conhecia tão bem. Aquela era uma versão rara, quase secreta, da qual ele tivera vislumbres em momentos inesperados. Era a mesma que, tempos atrás, o instigara com uma única dança a ponto de fazê-lo atravessar um baile de máscaras só para encontrá-la novamente. A mesma que o confundia sempre que deixava cair a armadura por um breve instante, e que o fazia se perguntar, vez ou outra, qual delas era a verdadeira. Sem perceber, seus lábios se curvaram em um sorriso — um daqueles sinceros, que nascem antes mesmo de qualquer pensamento. Mas ele não durou muito. A realidade o alcançou como um lembrete silencioso: talvez aquela fosse a chance perfeita de, enfim, tentar consertar o que havia se quebrado entre eles.
Dias antes, Christopher havia visto, por acaso, um vídeo de Olívia no Instagram. No vídeo, ela comentava com entusiasmo sobre sua paixão por uma banda mexicana chamada Rebelde e, em seguida, listava algumas de suas músicas favoritas. O único nome que ele conseguiu guardar foi Este Corazón. Não fazia a menor ideia do contexto da canção, tampouco conhecia a banda em questão. Mas havia aprendido, desde cedo, que quanto maior o erro, maior precisava ser o pedido de desculpas. E naquele caso... valia a tentativa.
Entre as fileiras do coral, Christopher começou a procurar por um dos garotos que ele próprio havia ensinado a tocar violão meses atrás, a pedido de Pasqualina. Quando o encontrou, se esgueirou até ele e o puxou discretamente para longe dos demais. A negociação não foi exatamente simples — envolveu a cobrança de um antigo favor para convencer o menino a manter Olívia no palco por mais um número e permitir que Christopher subisse em seguida, além de uma nota de cem dólares para garantir que a próxima música fosse a que ele havia escolhido. "É o que você merece por ter sido um imbecil" murmurou para si mesmo, enquanto abria apressadamente o navegador do celular e buscava a letra de Este Corazón.
Conseguiu decorar alguns trechos às pressas quando, de repente, foi puxado por uma das meninas do coral em direção ao palco e um microfone foi colocado em sua mão antes que pudesse sequer pensar. Palcos não o intimidavam, e multidões tampouco o deixavam nervoso — mas, ao encontrar o olhar de Olívia, sentiu o estômago revirar. A simples ideia de ela virar as costas e deixá-lo ali, sozinho, fez seu peito apertar. A introdução da música começou a tocar, preenchendo o salão, e sem muito tempo para pensar, ele começou: "¿Cómo poder recuperar tu amor? ¿Cómo sacar la tristeza de mi corazón? Mi mundo solo gira por ti..." A melodia escapou dos seus lábios com certa hesitação, um pouco fora do ritmo, fruto da insegurança de quem nem sabia se havia começado no ponto certo.
@khdpontos


















