“O Garoto Morto”, por V. F. Duquina ┇☆☆☆☆☆
Eu fui surpreendido positivamente com esse livro. Nunca tinha lido nada da autora, apesar de já ter ouvido falar do seu trabalho algumas vezes, e 'O Garoto Morto' serviu seu propósito como introdução. É perceptível como Duquina usa maravilhosamente bem a técnica de mostrar ao invés de dizer, além de dominar a arte da repetição: um dos meus aspectos favoritos do livro é uma "cena" específica que se repete diversas vezes, mas cada uma dessas vezes, temos e recebemos informações diferentes. Li e reli essa cena específica e não houve uma vez sequer que eu tenha sentido a mesma coisa que a anterior. Não sei se estou sendo coeso, mas amei isso! Fez com que eu sentisse algo similar à música 'Nobody', da Mitski, que nos mostra como a mesma palavra pode ser pronunciada de diferentes formas, em diferentes momentos, e nos atingir de maneiras diferentes, além de deixar claro que estamos em constante mudança: apenas algumas páginas (ou, no caso da música, segundos) são suficientes para que vejamos a mesma coisa de um ponto de vista totalmente diferente.
Outra coisa que me fascinou foi a forma singular com a qual os personagens foram construídos: todos têm características únicas, fazendo com que cada um, até mesmo os secundários, fiquem bem marcados na memória. Não consegui tirar nenhum da memória após a leitura, o que não acontece com frequência—me apego aos principais e um ou outro personagem secundário, mas minha memória não é tão boa assim, admito. Posso afirmar com certeza, entretanto, que me apaixonei pelo Fantasma, com seu jeito de usar o humor para esconder a dor que sente; por Naomi e sua descoberta de sua força (e de que pode, sim, usá-la). Apaixonei-me por Isabel e o jeito que constantemente intervia ao notar que Naomi sofria alguma injustiça; Matteo, com todo o seu mistério e assombrado pelos fantasmas literais e os dos seus arrependimentos. Apaixonei-me até pelo nosso antagonista, com seu jeito frio. Notem meu esforço para não dar spoilers...
...Até esse ponto da resenha, porque agora terei que dar alguns. Se planeja ler 'O Garoto Morto' e se incomoda com spoilers, seria recomendável que saísse da resenha agora, lembrando de voltar depois, é claro.
Um detalhe que amei, apesar de não ter certeza se foi proposital, foi a boneca de Lego que Arthur deu a Naomi: a boneca representava a própria menina que a recebeu como presente. Posteriormente, durante a revelação da história por trás da obsessão de Arthur por Lego, tudo parece referenciar essa parte. Pelo menos, era o link que fiz claramente enquanto lia: Naomi (bem, o corpo de Naomi) havia machucado Arthur, que, por sua vez, a havia machucado de volta, com todos os segredos de seu lado sombrio e a existência dele, em primeiro lugar.
É incrível como Duquina manipula a narração de modo que, mesmo tendo acesso ao fluxo de pensamentos dos personagens, não temos acesso aos mistérios que estavam guardados com personagens cujos pontos de vista vimos! Inclusive, as mudanças de ponto de vista, que começaram de um capítulo para o outro, mas se desenvolveram e, por vezes, aconteciam de um parágrafo para o outro, sem sinalização alguma, foram escritas perfeitamente. São desenvolvidas de forma abrupta, tal como seus contextos, e os personagens são tão marcantes e únicos, diferentes uns dos outros, que mesmo com a falta de sinalização de quem é o narrador, conseguimos identificá-los.
Tudo em 'O Garoto Morto' é tremendamente caótico de forma proposital. Duquina aparenta ter total controle da história e das dicas e paralelos que joga para o leitor durante a narrativa, e dá ao leitor a sensação de onipresença: um controle de cada mudança de ponto de vista, de cada vírgula e de cada palavra, tanto falada quanto pensada. Os fatos se conectam de forma coesa, como se, ao lermos, montássemos o quebra cabeça de uma pintura produzida pela própria autora, que observa tudo consciente do posicionamento de cada pincelada.
"Ainda consigo ouvir a voz de Lúcio: Por que ficar lamentando a sua morte se você pode simplesmente se vingar?"








