Zafira segurava o diário com ambas as mãos, como se carregasse algo sagrado — ou perigoso demais para deixar em qualquer lugar. — Achei certo deixar com você. — disse, estendendo-o para Aleksander com um olhar firme. — No próximo ritual, você deve levá-lo. — Ela hesitou por um segundo antes de continuar: — Talvez, se você ler com calma, encontre algo. Mas leia devagar, Alek. Pode causar… sensações. Especialmente agora que você sabe quem é.
Aleksander não respondeu. Pegou o diário sem cerimônia, mas a palma formigava como se o objeto estivesse vivo. Era pequeno, de couro gasto, com um fecho ainda intacto.
Ele o levou para o sua casa, fechou a porta do quarto e sentou-se na cama. Ficou observando o caderno por um momento antes de abrir na primeira página.
DIÁRIO DE JAMES
[Sexta-feira, 10 de agosto de 1923]
“Não sei bem como se começa um diário.
Mas tenho muitos pensamentos que não cabem em lugar nenhum. Não posso compartilhá-los com ninguém — não sem consequências — e me disseram que escrever pode ajudar a colocar ordem nas ideias.
Então, talvez isso funcione.
Talvez aqui eu possa existir um pouco mais livre. E até me compreender melhor.
Se alguém estiver lendo isso, espero que seja alguém bom.
Nos vemos por aí,
James.”
Aleksander franziu a testa. Esperava algo mais… relevante. Um segredo. Uma pista. A caligrafia era firme, porém delicada, como se cada letra tivesse sido moldada com paciência. Mas o conteúdo parecia banal, quase ingênuo.
Bufou.
— Que perda de tempo...
Com um suspiro, folheou as páginas apressadamente, parando perto do final, onde o papel já se mostrava um pouco mais amarelado. Abriu ao acaso, e ali estava outra entrada.
DIÁRIO DE JAMES
[Sábado, 21 de fevereiro de 1925]
“Hoje subimos o Monte della Penombra. O nome assusta os turistas, mas para nós é só… um refúgio. Ninguém sobe até o topo. Não nessa época do ano, não com esse calor.
Levamos frutas, água e um pano para deitar. Landon riu quando tropecei numa raiz, e depois disse que eu fazia isso de propósito só pra ele me segurar. Talvez eu tenha feito.
Deitamos lado a lado na grama. O céu parecia mais azul lá de cima. Nenhuma nuvem, nenhuma palavra, só o som das folhas se movendo, e nossas mãos se encontrando no meio do pano. Os dedos dele tocando os meus, com leveza, como quem pede permissão em silêncio.
Foi ali, naquele instante, que eu tive certeza.
Se o paraíso que o meu pai prega na igreja for isso, então eu já estive lá.
Como algo tão condenado por palavras pode ser tão sagrado no silêncio? Virei o rosto para encará-lo enquanto pensava tudo isso. Como podem olhar para esse tipo de amor e ver pecado?
De todas as bênçãos que eu já pedi a Deus, Landon foi a única que recebi em silêncio.”
Aleksander leu até o fim, e então permaneceu imóvel por alguns segundos. A garganta parecia apertada, o peito carregado de uma saudade que não era sua — ou que ele não reconhecia como sua. Não sabia o porquê, mas a imagem de dois jovens deitados no alto de um monte, mãos entrelaçadas no meio da brisa do verão, o assombrava como uma lembrança malformada.
Um nome ecoava em sua mente como um sussurro antigo.
Landon.
Quem era o seu (ou a sua) Landon, afinal? Onde estaria agora, em 2025? Ele sentia que precisava encontrar essa pessoa. Encontrar esse amor.
Tentou voltar ao diário, abriu mais algumas páginas. Mas nada fazia sentido. As palavras embaralhavam. Seu corpo se recusava a prosseguir. O aperto no peito era demais. Fechou o caderno com firmeza.
Levantou-se, atravessou o quarto, e guardou o diário num cofre discreto embutido no armário. Trancou. Não por medo. Mas porque não estava pronto para sentir aquela saudade esmagadora de novo.
Cat sabia que não deveria se indispor com Camilo. Parte do seu trabalho era conseguir informação sobre ele, então, não era sensato se indispor com ele. Mas Camilo, com o jeito mauricinho e atitude que é melhor que todos, tinha reações com tudo e era altamente divertido para ele. Antes de chegar na cidade, havia observado-o por alguns dias. Camilo provavelmente nunca foi o tipo de homem que estaria no seu radar pessoal. Ele parecia intencionado a encantar as calcinhas de todas as mulheres ao seu redor; Cat nunca gostaria de se sentir como mais uma. Camilo vivia a vida com a colher de ouro na boca, sem nunca lhe ter faltado nada, e acreditando que o dinheiro podia comprar tudo; Cat viveu de migalhas na maior parte da vida. Camilo era cômico, mesmo que não fosse intencional; Cat era ácida. Talvez eles não cruzassem o caminho um do outro nunca, em circunstâncias diferentes, mas havia começado o trabalho ali por causa dele. Desde que havia chegado, não tinha entrado no Fiamma D'Amore. Não era exatamente sua cena, mas podia entender o apelo para alguns. O lugar era, ao menos, bem organizado, com diferentes ambientes e muitos corpos suados querendo esquecer os seus problemas. Cat adoraria que fosse fácil daquela forma, mas tudo que ela podia pensar era que infelizmente não era tão mais jovem, quando todos seus problemas era resolvidos no fundo de um copo. Seus olhos treinados buscaram pelo homem que havia a levado para ali, e para aquela cidade. "Sabe, eu realmente queria aquele cavalo," Cat disse, batucando com os dedos no balção do bar ao visualizar as costas de Camilo. "E eu mereci, não acha?" Mordeu o lábio inferior. Ainda não andava cem por cento, mas já estava bem melhor. "O que você acha de comerçarmos novamente, Camilo?" Aquela era sua forma de extender a bandeira branca. Não iria se desculpar, não havia feito nada errado, mas ela precisava achar um meio termo para eles, pelo bem do seu trabalho.
Catarina não tinha muitos aliados em Khadel. Entre Aaron, que havia reacendido qualquer chama que fosse com Olivia, quem ela queria distância, e Helena, que não estava bem mentalmente e com certeza estava escondendo coisas de todo o grupo, ela não acreditava que podia confiar em nenhum deles. Porém, ela tinha que criar um meio-termo, e aquele meio-termo se dava na forma de Aleksander. Ela não confiava nele — ele mesmo devia saber que não era do tipo que inspirava confiança nos outros —, ao mesmo tempo, ele era uma das poucas pessoas que não fazia ela querer mandá-lo a merda — ao menos, não logo de cara. Aleksander era definitivamente do tipo que adorava provocar e puxar os limites de todos, e aquilo poderia ser demais em algumas situações, mas Catarina sabia como lidar com a atitude. Não podia abrir mão de qualquer pessoa que estivesse ao seu lado, afinal, não podia contar nem em uma mão o número de aliados que tinha. O evento estava mais cheio do que ela esperava — precisava de um pouco de calma para conseguir examinar a casa. Provavelmente não iria ser de uma vez só. Porém, a sua companhia, parecia ter outros planos. "Alek," Cat chamou a atenção do outro que parecia uma criança com déficit de atenção, "eu te chamei aqui para ajudar a procurar a propriedade e não para participar dessas atividades," idiotas, pensou, mas sem deixar as palavras escaparem seus lábios. Cat já estava ficando cansada daquela coisa de maldição — queria terminar seu quebra-cabeça, entregar uma pasta de informações para a mãe de Moretti, e dar o pé daquele maldito lugar.
Ler o diário de James estava sendo mais cansativo emocionalmente do que Aleksander poderia prever. Mas dias depois da primeira vez que leu duas passagens em dias diferentes, ele decidiu tirar do cofre e fazer uma nova leitura.
Ele abre o diário ao acaso, torcendo para que dessa vez o peito não aperte, que as lembranças venham suaves, que ele apenas leia como se fosse algo distante. Mas não é.
DIÁRIO DE JAMES
[Sábado, 01 de novembro de 1924]
“Eu acabei de voltar da casa dela. Estávamos sentados no chão, na sala, com folhas de papel e carvão espalhados entre nós. Tentávamos desenhar um ao outro, e, honestamente, rimos tanto com os resultados que por um momento, tudo pareceu leve. Era bom estar com ela. É sempre bom.
Mas aí ela disse… que talvez estivesse apaixonada por mim.
Nós somos namorados. Essa deveria ser uma coisa comum de se ouvir, certo? Mas não foi. Aquilo me paralisou. Meu estômago embrulhou, o sorriso morreu no meu rosto. Eu sabia que o certo era retribuir, dizer que sentia o mesmo. Era o que qualquer garoto normal faria. Mas eu não sou qualquer garoto. Eu não pude. Não consegui mentir. Deus estava ali comigo, eu senti. E Ele veria a mentira se eu dissesse algo que não fosse real. Mas então, se eu não a amo… e amo outra pessoa… será que isso também aborrece Deus?
Minha resposta foi dizer que ela merecia alguém melhor. Alguém que a amasse de verdade. Disse: “Você seria a escolha perfeita, se eu pudesse escolher.” E acho que ela não entendeu. Mas como explicar que o coração escolhe sem a nossa permissão?
Ela é tudo que eu sempre achei que procuraria em uma garota: doce, gentil, linda, inteligente, vinda de uma boa família. Meu pai a aprova. Quando comecei a namorá-la meses atrás, ele até parou de me olhar daquele jeito, como se tivesse algo errado comigo. Talvez seja por isso que tentei tanto. Mas ela espera um príncipe encantado. E apesar de acharem que eu pareço um, a verdade é que eu não estou procurando por uma princesa.
Queria muito que tudo fosse diferente. Saí da casa dela sem jeito, sem saber o que fazer. E agora, olhando para trás, não parece nem que namoramos de verdade. Foi tudo estranho. Eu gosto de estar com ela. Adoro a companhia dela. Mas não conseguia desejar o toque dela. Não sentia vontade de beijá-la. Que tipo de garoto é esse?
O que há de errado comigo?
Ao mesmo tempo… eu sei a resposta. Tem nome, sobrenome, uma dificuldade horrível com tarefas escolares e olhos lindos.
Espero que Deus me perdoe por amar quem não devo.”
Aleksander fecha os olhos com força. Aquela cena. Era aquela cena. A mesma da visão com Zafira. Ele consegue lembrar da sensação do carvão nos dedos, o sorriso dela, o jeito como ela pareceu tímida ao confessar o que sentia… e o desconforto que nasceu em James logo em seguida.
Tudo está registrado ali. Exatamente como a lembrança. A mão de James segurando a dela, a hesitação, o peso da verdade não dita. Aleksander engole em seco e vira a página seguinte.
DIÁRIO DE JAMES
[Quinta-feira, 06 de novembro de 1924]
“Terminei o namoro. Acho que nunca terei coragem de dizer a ela o motivo pelo qual fiz isso. Tive que partir. Eu sou um monstro, incapaz de amar uma garota. Sou errado, inapropriado e pecador. Nada mais a declarar.”
Uma onda de mal-estar atravessa Aleksander com força. O peito aperta como se aquele julgamento escrito por James tivesse sido lançado diretamente contra ele. "Errado", "pecador", "monstro". Aleksander não se sentia assim por si, mas a leitura fez com que sentisse como se fosse ele. Como se a dor pertencesse a ele. Cada palavra pesa como uma pedra em seu estômago.
É como se ele mesmo tivesse escrito aquilo. Como se o eco daquela culpa ainda estivesse dentro dele, mesmo depois de outra vida. Como se toda a repressão que James viveu ainda existisse em suas veias, em sua memória antiga, mas ainda dolorosa.
Não é só dor. É vergonha. É medo. É aquele silêncio abafado que muitos garotos como ele aprendem a usar como armadura. Ele sente a humilhação de não se reconhecer, de tentar se moldar ao que esperam, de tentar agradar ao pai e nunca ser bom o suficiente, de sorrir quando tudo dói.
Mesmo assim, ele se força a voltar algumas páginas. Não quer encerrar ali. Ainda não.
DIÁRIO DE JAMES
[Domingo, 12 de outubro de 1924]
“Tenho 16 anos. E começo a achar que tem algo errado comigo.
Meus amigos todos já se apaixonaram, ou pelo menos dizem que sim. Eles falam de como o coração acelera, de como não conseguem parar de pensar na menina com quem saem. E eu... eu nunca senti isso. Já me perguntei mil vezes se o problema sou eu. Talvez meu coração esteja atrasado. Talvez esteja esperando por alguém certo.
E então ela apareceu. Uma garota incrível. Gentil, inteligente, com um sorriso calmo e os olhos mais doces que já vi. Tínhamos que fazer um trabalho juntos e acabamos nos aproximando. Teve um momento em que achei que talvez fosse isso. Aquilo. Amor. Ou um começo.
Na primeira semana de namoro, eu me sentia flutuando. Não por estar com ela, mas por parecer… certo. Meu pai me elogiava, meus amigos me parabenizavam. Ela me olhava como se eu fosse especial. Tudo parecia no lugar.
Mas depois… não sei. Comecei a perceber que não sentia vontade de segurá-la pela cintura, de encostar meu rosto no dela. Quando ela me beijava, eu devolvia o beijo, mas era como se eu estivesse repetindo uma receita. Não havia fome. Não havia fogo.
Ela é linda. As ondas do cabelo loiro dela parecem feitas de sol. O sorriso é gentil, paciente, sempre sincero. A forma como ela se importa com os outros, como escuta com atenção, como se lembra dos detalhes… é encantadora. E eu adoro estar com ela. Mas não consigo sentir o que eu deveria sentir. Não sinto vontade de beijá-la. De tocá-la. O que há de errado comigo?
Eu só peço a Deus todos os dias que tire de mim os pensamentos que me rondam, os sentimentos que tenho quando estou ensinando matemática pro Landon — ou tentando, porque o coitado pode ser bonito e popular, mas é péssimo com estudos.
E peço a Deus que me faça sentir isso. Eu quero sentir isso. Por ela. Quero me apaixonar. Ela parece a escolha perfeita, meu pai a adora, e ele passou até a conversar mais comigo. Oro todos os dias para me apaixonar por ela. E, se não, que me dê forças para deixá-la e não partir o seu coração. Kimberly merece ser amada. Ela é incrível.”
Aleksander fecha o diário com cuidado, mas é como se as palavras ainda estivessem abertas em sua pele. O nome dela nunca foi dito na visão de sua regressão, mas ele sabe agora. Era ela. A garota do olhar partido, da confissão tímida, da despedida dolorosa.
Ele queria saber mais. Queria saber se ela ficou bem. Queria saber se os dois se acertaram no futuro, se ficaram amigos. Mas não hoje.
O cofre é reaberto. O diário volta ao seu esconderijo. E ele deixa para continuar em outro dia.
Catarina: Tesoro, tesoro... Que tal irmos para a mansão da Rose?
Catarina: Não ligo muito para o evento, mas é uma oportunidade de ver se não tem algo que a reforma deixou passar...
O cheiro de incensos e ervas exalava pelo ar, misturando-se com a umidade do ambiente abafado da pequena loja. A loja estava movimentada. Algumas pessoas olhavam as pedras de proteção, outras as velas aromáticas, e Zafira finalizava um atendimento quando seus olhos castanhos encontraram a figura de Aleksander entrando no lugar. Sempre com aquela confiança de quem estava impecavelmente bem vestido, o perfume caro no ar como uma assinatura. Seus olhos, frios e desafiadores, passaram rapidamente pela loja, sem se importar com a decoração exagerada ou com o que ali poderia oferecer. Ele estava ali por um motivo, e só isso importava.
ooc: Para não ficar confuso, aqui o color coded para a leitura.
Aleksander Zafira Menina da visão Menino da visão (que é o Alek no passado)
O que tiver de azul é o Alek narrando aqui em 2025 para a Zafira, o que estiver de verde é o Alek na vida passada falando na lembrança, como ocorreu. Ele meio que só "repete" automaticamente o que aconteceu na cena.
Zafira o olhou com calma, quase como se já o esperasse, mas estava surpresa por vê-lo ali. O sorriso que apareceu em seus lábios foi enigmático, carregado de um mistério que ele ainda não conseguia perceber. — Veio buscar algo, meu caro? — Sua voz suave soou quase como um desafio.
Aleksander ergueu uma sobrancelha, um leve sorriso maroto nos lábios. Ele se aproximou da cigana, ignorando as velas e o ambiente movimentado ao redor.
— Ouvi dizer que você faz leituras de bola de cristal. — Sua voz era cheia de certeza, mas com um tom de deboche, como se não acreditasse naquilo. — E dizem que você cobra um preço...
Zafira manteve o olhar fixo nele, sem pressa de responder. O silêncio entre eles parecia crescer.
— A Helena veio aqui e pagou esse preço. — Ela finalmente disse, sua voz baixa e grave, quase como se falasse sobre algo que não fosse de seu domínio. — Pagou caro.
Aleksander deu uma risada baixa, cruzando os braços, se acomodando como se fosse dono daquele espaço.
— Dinheiro não é problema. — Ele se inclinou um pouco mais para frente, como se o desafio fosse apenas uma brincadeira para ele.
Zafira o observou com atenção, como se visse mais do que ele estava disposto a mostrar. Seus olhos brilharam por um momento, e ela se inclinou ligeiramente, sua voz mais grave.
— O preço, meu caro, não é apenas financeiro. — O silêncio se estendeu entre eles, pesado, até que ele sentiu uma pressão que não estava acostumado. — É um preço espiritual.
— Tipo o que? — Ele parecia quase curioso.
— Ouvir vozes. Sentir alguém te seguindo. Sentir toques, calafrios, pesadelos... — Ela narrou com naturalidade, a voz quase imparcial.
Aleksander se manteve imóvel por um instante, o sarcasmo desaparecendo de seu rosto. Ele sentiu a tensão crescer, como se a própria sala estivesse o observando. Mas logo seu sorriso se alargou novamente, como se estivesse testando os limites do que poderia provocar.
— Bom... — Ele se afastou um pouco, gesticulando como se tudo fosse um grande jogo. — Você tem alguma alternativa sem esse tal de "preço espiritual"? Algo mais... acessível?
Zafira, com seu olhar imperturbável, recostou o corpo na bancada ao lado e, sem hesitar, respondeu:
— Acessível financeiramente? Todos são, meu bem. Meus preços não são tão caros, e acredito que, para você, não teria problema se fosse, não é? Agora, para funcionar, é preciso ter uma alma. Você tem, meu leão? — Com olhar provocativo e a voz carregada de deboche, ela aguardou uma resposta que veio em forma de olhos revirados. A cigana riu, desdenhosa. — Tenho outra alternativa, sim. A regressão.
Ele a encarou por um momento, como se avaliasse a proposta, ainda com aquele olhar desafiador. Mas havia algo nos olhos dela, algo que o fez se sentir... desconfortável. Ainda assim, a curiosidade falou mais alto.
— Tá, vamos nessa. — Ele disse, num tom misto de deboche e interesse, sem perceber ainda o quanto estava se colocando à prova.
Zafira apenas sorriu, e o chamou com um aceno de cabeça para a salinha reservada dentro da loja. Fez um sinal para a atendente cuidar dos clientes — a mulher apenas recebia pagamentos, enquanto apenas Zafira atendia os casos personalizados.
O lugar era quase vazio, exceto por um objeto enorme coberto por um pano de veludo negro — o espelho, que ela ainda não havia confessado aos reencarnados a existência dele —, um sofá confortável e uma cadeira ao lado. Zafira indicou o sofá para o rapaz, acendeu as velas ao redor, pegou o relógio e o colocou para tiquetaquear. Sentou-se na cadeira ao lado dele.
— Preciso que se concentre. Libere seus pensamentos de tudo e todos, foque apenas na minha voz. Feche os olhos — disse ela, com a voz cada vez mais baixa e cadenciada, quase em sussurro. Queria que ele ouvisse como uma voz de seu inconsciente. — Respire fundo... mais uma vez... e solte devagar. Imagine uma luz suave envolvendo seu corpo, aquecendo seus ombros, seus braços, suas pernas.
Ela esperou alguns segundos, observando a respiração dele se tornar mais lenta e profunda. Narrava palavra por palavra, com calma, como se quisesse fazê-lo sentir o que ela descrevia.
— Cada inspiração te leva mais fundo. Cada expiração leva embora o peso do presente. Sinta seu corpo ficando leve, como se flutuasse. Deixe que a mente vá além do agora... além deste tempo...
Ela fez uma breve pausa, a voz sempre calma e serena.
— Visualize uma porta à sua frente. Uma porta antiga, mas segura. Quando estiver pronto, atravesse essa porta... Do outro lado, encontrará uma lembrança antiga, talvez esquecida... Talvez não pareça sua...
Zafira manteve o tom hipnótico, conduzindo com suavidade:
— Não tenha medo. Observe o que surge. Deixe vir o que sua alma quiser mostrar.
A visão se forma devagar, como se as bordas do tempo estivessem sendo puxadas para dentro de si. Aleksander não reconhece o lugar de imediato, mas tudo tem um cheiro antigo, de madeira envernizada, flores secas e tinta. As janelas filtram uma luz morna do fim da tarde, e as paredes estão salpicadas por desenhos pregados com tachinhas — margaridas, esboços de pássaros, contornos de rostos.
— O que você vê?
— Parece uma casa. — Ele responde, inconsciente, e sussurrando.
— Está dentro da casa?
— Estou. Tem uma... uma menina sentada no chão. De pernas cruzadas. Estou ao lado dela.
A menina segurava um pedaço de papel com as pontas sujas de carvão. Seu vestido branco tem bordados delicados nas mangas e está um pouco amarrotado. Os fios claros de seu cabelo caem em ondas leves pelos ombros, preso apenas por uma fita azul desfeita num laço imperfeito. Ela olha para o garoto à sua frente com um sorriso que parece maior que o mundo.
— Fica quieto, ou vou acabar desenhando você com dois narizes. — ela diz, com a voz leve como algodão, e solta uma risada clara que preenche o ambiente.
— Ela falou comigo. Parece gostar de mim. Tem um sorriso bonito.
— Você está observando a cena ou está nela?
— Eu estou nela. Eu sou o rapaz com quem ela está falando.
— O que mais você vê além do sorriso dela?
— Pele clara. Vestido branco. Carvão nas mãos. Ela está fazendo um desenho meu.
— Você consegue ver o desenho?
— Não é muito bom. — Ele sorriu, como se fosse uma lembrança própria, nostálgica.
Na memória da regressão, o rapaz tenta não rir, mas fracassa. Leva a mão ao rosto, fingindo vergonha, e acaba borrando o queixo com o carvão. A menina percebe e engasga de tanto rir, se inclinando pra frente enquanto segura a barriga, o papel quase escapando de seus dedos. Ele a encara por um segundo, surpreso pela naturalidade daquele momento. Nada parecia forçado. Nenhum deles parecia preocupado com o que viria depois.
— Você ficou com a cara de um fantasma assustado. — ela comenta, apontando para o carvão em seu rosto.
— E você está rindo de mim desde que eu cheguei aqui. — ele retruca, tentando parecer sério, mas os olhos estão brilhando demais para enganar alguém.
Ela para. Ainda com um sorriso nos lábios, mas agora os olhos fixos nele. O tipo de olhar que muda tudo. Lento, contemplativo, como se estivesse vendo algo pela primeira vez.
Ele percebe a mudança.
— O que foi? — pergunta, baixinho, curioso.
— Ela está me encarando. Eu perguntei o que houve.
A menina hesita. Pega o papel inacabado no colo e dobra com cuidado antes de largá-lo ao lado. Depois ergue o olhar de novo, mais vulnerável desta vez.
— Acho que estou apaixonada por você.
O silêncio que se segue não é desconfortável — é paralisante. Como se o ar tivesse desaparecido do quarto e tudo que restasse fosse o som abafado do próprio coração batendo. O rapaz engole em seco, mas a garganta parece trancada. As mãos formigam, presas sobre os joelhos, e uma parte dele — a parte mais quieta e escondida — deseja sentir o mesmo.
Aleksander, no sofá, se remexe, repetindo as ações de nervosismo de sua versão no passado, na memória que invadia sua mente agora.
— O que aconteceu?
— A menina disse... que está apaixonada... por mim.
— E isso é algo ruim? O que você sente na memória?
— Parece que quero dizer algo, mas não consigo.
— Você acha que isso pode ser um problema? — A menina pergunta, tentando sorrir, buscando alguma confiança, mas não encontra.
— Eu não acho que eu mereça você.
— Ela perguntou se isso é um problema. Eu disse que não a mereço.
O rapaz na cena inspira devagar. Aleksander faz o mesmo. Zafira apenas observa. As palavras que vêm não são planejadas. Só aparecem.
— Você seria a escolha perfeita... se eu pudesse escolher você.
A resposta é quase um sussurro. E naquele instante, Aleksander sente tudo o que o rapaz da cena sentiu. A tensão interna. O conflito. A frustração por não ter coragem de dizer a verdade. A angústia por não poder ser aquele que ela esperava.
— Por que não pode?
— Você espera um príncipe encantando. Eu te conheço. Eu não sou esse cara.
— Eu disse que ela seria a escolha perfeita, mas não posso ser o cara que ela merece. — Aleksander resumiu, em outras palavras, o que havia dito na memória.
A menina desvia o olhar e força um sorriso triste, magoado, mas gentil. Levanta sem dizer nada. Passa por ele em silêncio, e quando abre a porta para ir para seu quarto, ele tenta uma última vez.
— Eu queria muito que fosse diferente... — Ele sussurra, mas ela já saiu.
— Eu disse que queria que as coisas fossem diferentes.
— Você vê algo mais, Alek?
A visão parece prestes a desvanecer quando, de repente, algo muda. Uma nova cena invade como uma batida seca no peito. A transição é brusca, e Aleksander mal tem tempo de entender o que está acontecendo.
Tudo está borrado ao redor. Um corredor? Uma estação? Uma rua coberta de névoa? Ele não sabe. Só vê ela. Com o mesmo cabelo claro, agora preso num coque desalinhado. Vestida com uma blusa creme de gola alta e uma saia azul. Era um dia diferente. Os olhos estão vermelhos, uma lágrima solitária escorrendo pela bochecha enquanto ela fala, com a voz embargada:
— Você não pode me deixar assim.
O garoto da visão respira fundo. O coração está em conflito, e Aleksander sente cada batida, como se o sangue nas veias fosse dele também.
— Talvez um dia você entenda o motivo para eu partir.
E então ele se afasta, virando de costas, sumindo na névoa do cenário indistinto. O som dos passos ecoa, e o gosto amargo da despedida permanece.
Aleksander acorda com a sensação de que ainda está lá. Como se tivesse vivido aquilo. Como se tivesse perdido alguém que não lembrava ter amado.
— Alek... calma...
Ele respirava descontroladamente, sentando-se no sofá. Zafira buscou um copo d'água e ofereceu. Ele bebeu, ela o ajudou a controlar a respiração, e só quando ele pareceu mais calmo, voltou a perguntar.
— Você viu algo mais?
— Uma cena borrada. Não vi onde era, mas foi com a mesma menina. Eu estava indo embora.
Zafira pareceu analisar. Aleksander estava incomodado.
— Eu ainda sinto tudo. O que aconteceu. A dor de partir, o amargor de ver o rosto dela entristecido. Eu nem conheço a garota, como isso pode me afetar?
— É efeito da regressão. Pode ser que passe em instantes.
— Pode ser?
— Pode ser que fique por um tempo. Um bom tempo. Não tenho precisão.
— Tudo com você tem um preço, de qualquer forma.
— Ei, não seja ingrato. Você teve uma boa visão. Só precisa descobrir quem é a garota de cabelos claros. Se eu te mostrar fotos, consegue identificar?
— Acredito que não. A imagem era um borrão, não dava para ver detalhes.
— Talvez a visão volte e fique mais clara depois.
— Eu espero que sim. — Aleksander suspirou, quase frustrado.
— Agora você deve pesquisar. Vá nos jornais da cidade, converse com moradores antigos. Procure histórias sobre o passado deles. Pode ficar aqui na sala o tempo que precisar até se acalmar. O valor é só acertar lá fora. — Zafira fez um carinho nos cabelos de Aleksander, e sorriu, quase doce, quase empática. — Boa sorte, meu bem.
OOC.
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