Madrugada do dia 20 de julho de 2024
OOC: Conversa entre Soren e Esther.
O dia estava claro, o céu sem nuvens e o sol brilhando na temperatura e na cor certa para tornar todas as cores mais vívidas. As pessoas andavam para cima e para baixo pela pequena praça da igreja, Esther sentada nas mesas de ferro branco do lado de fora de uma padaria tradicional, acenava para Soren enquanto bebericava seu café rapidamente provando a quantidade de açúcar que tinha acabado de colocar. "Olá, jovem"
Apesar de familiar, a cena ainda lhe fazia sentir deslocado. Caminhava pela praça da igreja, sem saber bem o motivo de estar ali. Foi quando ouviu a voz em sua direção ao passar pela padaria, e se virou para a mulher. "Não sou jovem há um bom tempo." Respondeu, reconhecendo a bruxa.
"Todos são jovens para mim", sorriu tomando mais um gole de seu café e sinalizando a cadeira à sua frente para que ele se sentasse. "Peço desculpas por invadir sua mente assim, mas não consegui pensar em uma forma diferente de falar contigo a sós, considerando, bem, sua prisão"
Puxou a cadeira, ajeitando o terno enquanto se sentava. Apenas com a menção de invasão de sua mente, foi que percebeu que estava sonhando. Olhou em volta, e então suspirou. No mundo dos sonhos, se esquecia de onde estava. "E o que pretende invadindo minha mente? Descobrir se roubei o livro?" Ergueu uma sobrancelha, curioso.
"Não, pelas Bruxas Anciãs, eu descobri que não foi você no momento que cheguei" riu baixinho conforme um garçom chegava para fazer o pedido de Soren, "Peça algo, garanto que estará delicioso" acenou com a cabeça pedindo ela mesma um croissant de queijo, Na realidade, duvidei que tivesse feito algo do tipo desde o começo. Lhe acompanho, e também a Gaspard, há tempo demais para acreditar em algo tão ridículo como você roubando um livro velho. Por isso queria conversar, saber se tem ideia do porquê estão fazendo isso com você. Ah, claro, você não pode mentir aqui."
Encarou o garçom imaginário, e demorou alguns segundos, mas finalmente pediu um café preto, sem açúcar. Depois, voltou sua atenção para Esther. Sempre muito contido, sempre muito calmo. Soren assentiu. "Acredito que quem tentou roubar o livro está tentando desestabilizar o acordo de paz. Não é apenas um livro velho, mas você já sabe disso." Se virou para o garçom, retornando com os pedidos de ambos. "Tem algum palpite de quem gostaria de destruir o acordo?"
"Entendo", como apenas um sonho pode proporcionar, assim que o garçom saiu outro idêntico ao anterior veio pelo outro lado servindo o croissant e o café preto, "Infelizmente a lista de pessoas não interessadas na paz é longa, desde aqueles que não acreditam em sua possibilidade, quanto aqueles que lucravam com ela. Há também aqueles que querem usar a guerra como desculpa para suas próprias ideias hegemônicas. Agora, se suspeito de alguém? É difícil dizer. O livro realmente estava na sua sala?"
"Muito tempo atrás, nós éramos maioria." Suspirou, segurando a xícara de café. "Gaspard convenceu pessoas o suficiente de que a paz era o caminho. Agora veja só." Deu de ombros, e então bebericou o café. "Eu não sei." Respondeu à pergunta, sendo sincero. "Apenas me disseram que sim, eu não vi. Estava acompanhando as buscas quando entraram na minha sala."
"E muito mais tempo atrás, eram pouquíssimos", retrucou pensando consigo mesma. "Se Alma estivesse conosco, provavelmente teríamos um apelo social maior. Ela tinha um jeito especial de guiar as pessoas, mas enfim..." suspirou se encostando na cadeira e cruzando as pernas. "Aparentemente a menina é a única que insiste nessa história ridícula, mas não consegui chegar até ela. Tinha algo estranho nela quando foram presos?"
"Ciclos." Deu de ombros. Assentiu quando Alma fora mencionada, mas não teceu comentários sobre a bruxa. Se Alma estivesse viva, muitas coisas seriam diferentes. "Não. E não acredito que esteja sob efeito de magia. Suspeito que apenas por lealdade à quem estiver por trás de tudo."
"Entendo...", Esther suspirou arrancando um pedaço do croissant com a ponta dos dedos e o mastigando lentamente. "Bem, claramente quem fez isso queria causar um certo caos, desestabilizar a já frágil paz. E isso é preocupante. Toien está uma zona, os alunos chegaram a estourar os canos do castelo e a fazer algazarra em todo o lugar, brigas estão eclodindo por todo lado lá dentro"
"Quem está cuidando de Toien?" Perguntou, preocupado. Trabalhava duro para manter a paz no castelo, e mal podia imaginar como as coisas estavam agora. Bebericou mais um gole do café, dando uma olhada em volta novamente. "Não espero ficar muito tempo preso. Não existem provas contra mim além de uma confissão."
"Adelaine assumiu a direção provisoriamente, aparentemente há alguns alunos não muito felizes dessa decisão, considerando a personalidade dela", disse suspirando fundo. "Soren, você irá ficar aqui enquanto desejarem que fique. Seja lá quem armou para você, tem seus meios para isso, afinal, em uma investigação séria não seria sequer cogitado a sua participação neste esquema, principalmente não tendo provas e apenas a confissão de uma aluna que, diga-se de passagem, tem a mesma fé pública que uma folha de papel. Lamento dizer isso, colega, mas a existência ou não de provas é irrelevante."
Ouviu tudo com uma tranquilidade inabalável, finalizando o café e encarando a borra na xícara. A resposta inicial foi um sorriso tranquilo, e então juntou as mãos no colo. "Sei que não é sua intenção ser pessimista, senhorita Duskfield, mas confio nos meus homens. A verdade, eventualmente, aparecerá."
"Confie neles o quanto quiser, jovem, eu confio na minha experiência", dito isto, Esther pegou um envelope embaixo da mesa e entregou a Soren. "Infelizmente o nosso tempo está acabando, a próxima ronda já está vindo jogar uma lanterna na sua cara e isso pode acabar perturbando esse sonho tão lindo. Mas antes de ir..." Esther pegou um envelope preto embaixo da mesa e entregou a Soren, "um presente meu para você. Quando perceber que está sendo usado em um jogo muito maior do que pensa, saberá como abrir o envelope e pedir ajuda" Esther se levantou indo até Soren e lhe bagunçando os cabelos "E peço desculpas, mas gostaria de manter nossa conversa privada por enquanto, então... Não tente sair falando dela por aí, sim? Hora de acordar" sussurrou no momento que o mundo inteiro ao redor deles desapareceu em um clarão de lanterna na cara.
Pensou em como fosse possível que aquela mulher, mais nova que ele, pudesse ter mais experiência que um homem que já fora general de guerra. Pensou em como já havia lidado com a arrogância de alguns bruxos tantas vezes, então não respondeu, apenas observou o envelope. Não o tirou da mesa quando ela se levantou, apenas pensou em como aquilo sairia de seus sonhos, para a realidade. Ou estaria presente em seus sonhos dali em diante? "Senhorita, se eu contar à alguém que aceito conselhos de sonhos, serei considerado um louco." Respondeu, finalmente segurando o envelope nas mãos e fechou os olhos. O clarão o fez abri-los novamente, e ele viu o guarda do outro lado das grades. O outro especialista o observou por uns segundos antes de partir para a próxima cela, então Soren se sentou, observando o cubículo gelado. Soltou um pequeno suspiro ao pensar que havia acreditado que aquele envelope do sonho se materializaria no mundo real, mas quando se deitou novamente e passou a mão por debaixo do travesseiro, o sentiu ali. "Bruxas..." Suspirou, fechando os olhos para tentar voltar a dormir.