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Let us rip one open for you First we will put it through Purgatory So you barely recognize it Give it a lie detector test Just to be sure its actually eggplant Because you definitely won’t believe it And you will need proof You will think about it believe me And as I always say Never trust a #Sicilian chef with eggplant to begin with We have #eggplant running through our veins #BlackSalt #CoratinaOliveOil #OlioSanto #ThatsIt (at Lil' Frankie's) https://www.instagram.com/p/BpdaUklgWsk/?utm_source=ig_tumblr_share&igshid=3j9ki29gu1jw
Paulo Freire e as comunidades de aprendizagem - Por Gabriela Amorim
Fazia já um tempo que eu não lia nada do Paulo Freire, mas aí me aparecem duas edições que me chamaram a atenção. Numa boa tarde de verão, fui deitar-me na margem da Lagoa da Conceição com a “Pedagogia da Solidariedade” nas mãos e me perdi de tudo. É uma pequena coleção de palestras proferidas por Freire nos EUA e comentadas por sua viúva, Nita, e um dos professores que andam por aí re-criando as coisas que Paulo Freire sonhava, chama-se Walter Ferreira de Oliveira.
Eu, que sou do sonho, fui logo criando sobre a Lagoa uma sala de palestras numa universidade americana e ouvindo a voz de Paulo Freire falando aquelas coisas todas – pra mim ele falava em português mesmo. Fiquei bem quieta ouvindo todas as coisas que ele ia contando, e a Nita com seus comentários. Até que tropecei numa pergunta maravilhosa sobre o que Paulo chamava de Pedagogia Comunitária ou Pedagogia dos Bairros. Saltou o coração: Paulo Freire está falando das comunidades de aprendizagem!! (Quase gritei de alegria.)
Explico-me: esse doutorado livre começou com uma conversa sobre comunidades de aprendizagem. Íamos ali conversando sobre a escola que nós sonhamos em criar, física e metafisicamente, até que chegamos a um consenso: sonhamos em ser uma comunidade de aprendizagem, sem escolarização, espaço(s) de livre aprender/ensinar. (Para conhecer mais sobre o conceito, sugiro uma lida no site do CPCD e do Vila-Escola Projeto de Gente)
Me encantei de saber que Paulo Freire tinha pensado e escrito sobre isso (claro que sim!). E faço questão de reproduzir aqui um texto arrebatador da sua “Pedagogia da Solidariedade”:
“A solidariedade caminha de mãos dadas com a consciência crítica. Eu não consigo imaginar o mundo melhorando se nós não adotarmos, realmente, o sentimento da solidariedade e não nos tornarmos imediatamente um grande bloco de solidariedade, se nós não lutarmos pela solidariedade. […] No caso do poder local, ou em outras palavras, no poder do bairro, nós precisamos enfrentar o processo da globalização, entender como a globalização implica na supressão da liberdade e da criatividade. A globalização está matando as localidades. Nós precisamos restaurar e inventar de novo o poder local. Restaurar e reinventar o poder local significa criar possibilidades diferentes que tornem possível a experiência da solidariedade. A ideia de cidades educadoras é muito interessante, e parece-me que de repente muitas pessoas abraçaram esta ideia. Ao mesmo tempo aqui estamos nós, chamados a discutir a ideia do bairro educador. De certa forma estas ideias são similares, estão contidas umas nas outras. A questão tem a ver com o caráter dos educadores e das educadoras, sendo, portanto, um problema moral. Por exemplo, quando você visita uma cidade que se desenvolveu caracteristicamente no século XIX, você vê predominantemente esculturas, monumentos dedicados a soldados, generais, a maioria deles montados em cavalos, em posição de comando. Desta forma a cidade ensina às gerações mais jovens. Eu não acho que nós deveríamos demolir aquelas esculturas, destruir aqueles ensinamentos. Nós temos que preservar a História. Mas, por que não começar a usar a arte dando exemplos dos tipos de solidariedade que nós imaginamos para a cidade? Por que não convocar artistas, cantores, pintores, como feito em Chicago, onde pintores pintaram murais na cidade? Por que não pedir a estes artistas para tornarem-se também, e efetivamente educadores? […] Os artistas nas ruas estão contando histórias de como o bairro, como conceito, é uma abstração. Nós devemos nos apropriar desta abstração e aplicá-la às ações dos seres humanos. Desta forma nós poderíamos ter, não no entendimento burocrático do mundo, o bairro tornando-se uma escola sem escolarização, uma escola sem imposição e sem obrigar os estudantes a ler trezentos livros. Os livros não são suficientes. Talvez o que esteja errado não seja ler os trezentos livros, mas a forma como isto é mandado, como se ler fosse uma forma de consumir conhecimento.” (Pedagogia da Solidariedade, Paulo Freire, p. 68-69)
Depois de ler isso, fechei o livro e passei uma semana inteira mastigando e digerindo tudo até conseguir escrever alguma coisa sobre. Queria começar falando do termo “globalização”, coisa tão início dos anos 2000 (as palestras contidas nesse livro são de 1996) e já tão esquecida. Ainda assim, essencial para se entender o nosso mundo. Em 1996, a globalização era só uma promessa assustadora. Agora ela é um mundo assustador. Sim, o mundo pequeno de que nos falavam os futuristas, sem fronteiras, tornou-se realidade – para o bem e para o mal. Não há mais fronteiras para termos acesso, por exemplo, a informações e pessoas de qualquer canto do mundo, mas por outro lado isso também é verdade para qualquer grande corporação do mundo: estamos todos no Facebook, é mais fácil, assim, concentrar a publicidade (sim, estou exagerando, mas só um pouco…).
E, sim, acho válido ainda hoje falarmos em lutar pelas localidades. Outro dia, conversando com uma amiga chef de cozinha, ela me explicava que algumas comidas caíram em “desuso”, normalmente, as comidas mais “simples”, mais do povo. Para meu assombro, me contava ela sobre como as pessoas se envergonham de comer feijão verde com farinha de mandioca, por exemplo, e, assim sendo, são dois alimentos em rota de extinção. Não sei vocês, mas lutarei até o fim dos meus dias por um prato de feijão verde com farinha escaldada! E não é só pela gordice, é pelo simbólico disso em minha vida, pela doce lembrança do cheiro de feijão verde sendo cozinhado em casa, de debulhar as vagens, de salvar a vida das lagartinhas que chegavam enganadas junto com os caroços, da festa da comida na mesa, e de como aquilo era uma memória sagrada, trazida da ancestralidade de nossa família diretamente àquele almoço ali.
Desculpem-me, mas nenhum fast food me trará o aconchego no coração de um feijão verde com farinha de mandioca. É essa localidade que quero salvar: a das comidas, das palavras, das rodas de dança, das histórias. Quero que caíam, sim, as fronteiras, mas para que eu possa, de repente, numa conversa simples, me encantar das histórias e dos bordados da Romênia, e descobrir que eles têm lá também uma palavra pra saudades (valeu, Chris!).
Por último, me encanta essa leitura de Paulo Freire sobre as cidades: que seus muros sejam galerias, que suas calçadas sejam palcos, que seus parques sejam bibliotecas! Queria contar uma historinha aqui, que pra mim ilustra muito isso que Paulo Freire (e eu junta) sonhou/amos: conheci há uns anos, andando aqui pelo Brasil, um rapazito artista que gosta de pintar muros pelo mundo, chama-se Göla e calhou de nascer na Itália. Pinta muros e conta histórias.
O último muro que pintou, lá em Bari, na Itália, conta uma trágica história sobre a globalização e a localidade. O mural faz parte de seu projeto chamado “Oliosanto”, a maneira que Göla encontrou de falar sobre a assustadora história da devastação das oliveiras italianas por uma bactéria chamada xylella. É uma história sobre desequilíbrio ecológico, sobre a simbologia de uma árvore para um povo, sobre venenos poderosos utilizados para debelar pragas que têm como efeito colateral matar pessoas, sobre como bactérias viajam o mundo muito rapidamente e como sobre como transformamos tudo em produto vendável, inclusive uma praga. (Não achei nenhum texto interessante sobre a xylella em português, mas tem esse aqui em italiano)
Em Bari tem um muro que conta uma história. E esse muro é um livro sem páginas.
PS: em tempo, aceito indicações de outros livros/textos de Paulo Freire que fale sobre a pedagogia comunitária. Desde já, agradeço ;)