O poeta tocava a lira
Como quem toca um coração
Ela lhe foi dada por Apolo
Os pássaros largam a ira
Dos seus voos em constelação
O som é melhor que o voo solo
Sua esposa era uma ninfa
Tão bela que até doía
Mas os homens podres a queriam
Como a serpente que triunfa
Lhe chupou como a paranoia
As cordas da lira doíam
Hipnotizou os do seu caminho
Para tentar convencer Hades
Que era um ser tão duro
Triturava o vento num moinho
E com o amor tinha disparidades
Pois ele amava como um murro
O apaixonado tocou sua lira
Hades tapou os ouvidos
Como quem tapa o Sol com a peneira
E o amor era toda uma ira
De quem ouve ruídos
Mas aceita toda essa asneira
E foi o que fez Hades
Ouvindo a voz da sua consciência
Que era a sua esposa
Mas exigiu uma frivolidade
"Caminhas sem exitar, excelência"
"Sem olhar para tua esposa"
Ele teria que o fazer até voltar
E ver o Sol dos vivos o queimar
Mas ele olhou pra esposa, tão ansioso
Tão desesperado, queria queimar
Mas por ela, não pelo Sol, andar
E ela voltou pro mundo necroso
Hades deu o prazer e depois o puxou
"Ninguém mandou não cumprir o trato"
"Morras e, então, vejas sua esposa"
A culpa, ela sim, que o queimou
O remorso que era o seu sapato
E ele todo perdeu a cor e a prosa
Mas ele não se matou, não
Ele tentou viver o resto de sua vida
Como castigo pelo que tinha feito
Sua vida eu nego que foi em vão
A morte foi a maior felicidade da vida
Pois o amor, na morte, foi refeito
22 de Outubro de 2015
Psicodeluka