Sentiu seu corpo se chocar contra a madeira com um gemido de dor. Uma pausa enquanto resfolegava, cotovelos apoiados no chão. Olhou ao redor, sem muito ver à pouca luz do porão que não formas vagamente distintas. Conseguira, pensou. Conseguira. Estava livre. Ou quase.
Uma nova mirada, olhos estreitados, em direção ao amontoado de silhuetas distinguíveis como barris. Pareciam ser um bom esconderijo — ou, bem, o melhor que tinha no momento. Haveria de servir. Firmando-se sobre seus cotovelos, colocou-se, com um impulso, a rastejar em sua direção. Seus pés doíam, afinal. Na verdade, tudo doía depois dos diversos baques até que alcançasse o local visado do navio e, sobretudo, depois da corrida que a levara até ali. Cada músculo em seu corpo parecia exaurido, latejando em tardio protesto. Seu coração retumbava dentro de sua cabeça, sem nenhuma compaixão diante do incômodo resultante de usá-la como tambor. Contudo, seus pés ainda doíam mais, judiados por ladrilhos, pedra, torções e inumeráveis tropeções. Era o preço a se pagar por uma fuga bem-sucedida.
Enfim se deixou cair contra a madeira detrás das fileiras de barris. No entanto, levantou-se de imediato ao sentir a poeira sujando seu rosto. Ao menos… esperava que fosse poeira. Ugh. Certo. Tudo bem. Podia sobreviver àquilo. Cruzou os braços e apoiou-se sobre eles; um travesseiro suficientemente decente. Só precisava aguentar em silêncio e sem ser encontrada até que estivessem distantes de sua terra natal, ancorados em qualquer outro lugar onde seu nome e seu rosto fossem desconhecidos. Então, apenas precisaria rastejar para fora do navio e estaria livre. Definitivamente livre, sem amarras, sem imposições, sem ninguém que não ela a decidir seu futuro, sem volta atrás. Por um instante, foi acometida por uma confusa vontade de chorar — se por alívio ou por medo das incertezas guardadas pelo futuro, ela não sabia. Porém, a lembrança de que tal destino ainda não era certo.foi suficiente para ancorá-la num estoicismo débil, recuperando-lhe o autocontrole.
Pequenos ruídos como guinchos. Coração novamente disparado. Aisha comprimiu os lábios para reter o grito que se iniciara em sua garganta. Oh, Senhor! Certo. Sem pânico. Logo estaria livre daquilo… contanto que não contraísse alguma pestilência antes.
Com olhos fechados, dedicou-se a orar. Lá fora, vozes vagas e arrulhos distantes marcavam a vida no porto, até que, depois do que parecera ser uma eternidade, sentiu o embalar do casco sob seu corpo. Escapou-lhe uma respiração que sequer percebera que estava prendendo. Ótimo. Agora verdadeiramente se distanciava do lugar em que crescera.
Novamente um desejo de chorar, novamente suprimido. Permaneceu apenas a respirar, focada no sobe e desce de seu peito e o balançar de seu transporte sobre as águas, até que o nó em sua garganta começasse a ceder.
Então, luz inundou o porão com um alto ranger. Sua cabeça se virou na direção do som. Ah, desgraça! Alguém estava entrando ali.
Aisha se encolheu atrás dos barris, como se aquilo pudesse torná-la invisível. Passos contínuos em sua direção. Seus próprios batimentos descompassados. Por favor, que ele não a visse; por favor, que ele não a visse; por favor…
Um homem surgiu diante de seus olhos, pairando sobre si como um animal selvagem. Era atraente. Oh. Quem diria que um marujo podia ser assim tão bem-apessoado? Ao mesmo tempo, parecia perigoso, um rosto firme sob um chapéu. Lembrou-se de que sequer prestara atenção ao navio que invadia. Pertenceria a um pirata?
Não importava. Um dos tripulantes a encarava agora com uma mirada penetrante, ao mesmo tempo curiosa e ameaçadora. Ela fora descoberta. Rápido, Aisha, pense em algo!
Em pânico, abriu um sorriso.
— Oh, olá — começou, tentando soar simpática. Esperava que ele compreendesse sua língua. Decerto era nativo da região também, se de suas próprias terras, do sul ou mesmo mais ao norte, dentro do império Mughal, ela não saberia dizer. — Que belo dia, não é mesmo? As ondas estão tão favoráveis! Sinto que o vento sopra a nosso favor! — continuou enquanto se colocava de pé, desamassando suas roupas. Suas costas doíam. — Por acaso, creio que deveria inspecionar isso aqui em busca de ratos. Não queremos ninguém por aqui ficando doente, não é verdade? — passos lentos e esquivos para o lado enquanto sustentava o olhar alheio. Sondou rapidamente o local em busca de uma saída. — Agora, se me dá licença… vou voltar às minhas funções. Muito bom o ver novamente! @amaterasuu