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Eu penso desse jeito. E acredite, não estou no modo sobrevivência por falta de compressão disso. É que sou pobre, tô no capitalismo. Sou obrigado a acordar correndo, a torcer pelo domingo pra descansar, a ver minha vida ir embora nesse ônibus que até passa, mas eu nunca posso entrar. Eu queria que fosse diferente, queria poder viver a vida que ganhei. Mas infelizmente tomaram de mim esse presente e agora estou fadado a viver a vida que o sistema determinou que eu deveria viver.
Para mim tudo precisa ter um significado muito profundo pra fazer sentido e isso me cansa. Mas qual a alegria em viver uma vida que não há sentido nenhum?
Eu amo o contato humano. Amo sentar com o braço envolto no ombro, as conversas aleatórias, bobas e reflexivas no sofá da sala, sentir o perfume da pessoa em uma abraço de encontro ou despedida. Amo tocar, ver, sentir. Eu amo ter relacionamentos. Mas a nossa sociedade está tão adoecida que o afeto em todas as suas formas de expressão está obsoleto. É carência. É imaturidade. É falta de pai presente, é ausência de algo em si. É problema para levar para a terapia. O que nos torna humanos — sermos seres que evoluíram e chegaram onde chegaram por serem intrinsecamente sociais — agora é patologia. E o que fazer quando ainda se tem dentro de si a doença do amor?
Às vezes penso que somente eu me esforço para manter minhas relações. Eu compreendo, perdoo, recomeço; mas sempre há aquela sensação, lá no fundo, de que o outro não está se esforçando tanto quanto eu, que ele se importa tanto quanto eu. E por mais que isso faça eu me sentir um idiota, não consigo ser diferente. Faz parte de quem eu sou.
"Crianças pequenas são estoicas. Choram se tropeçam e caem, mas aceitam as coisas difíceis quando elas vêm, não ficam choramingando como tantos adultos."
— Os Despossuídos, Ursula K. Le Guin