— uma coisa eu tenho que admitir, sou boa em disfarçar dores
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— uma coisa eu tenho que admitir, sou boa em disfarçar dores
A vida carece habilidades que ainda não desenvolvi. / Acho que posso resumi-las em maturidade. / Como deixar ir o que precisa ir e assumir o controle das coisas que podem ser controladas / Ainda que escassas as possibilidades de controle da própria vida /Viver dos planos para além das expectativas /Acreditar neles como fazem os produtivos / Eu odeio a palavra produtividade e a ideia de metas e eficiência / O máximo que planejo é meu café da manhã / E sempre falho na missão de realizar / A ideia contemplativa de vida em sua ciclicidade por vezes me traz uma ilusão/ De que estou andando em círculos / Mas porque me falta produzir, isso parece ruim/ Talvez esperaram demais de mim nisso e eu mesma também / E agora não posso. Expectativas sempre me congelaram. / Como no primeiro encontro incrível que descobri achar alguém incrível / E construí pedestais para as expectativas / Hoje as bebo como veneno, todo santo dia. / Eu gosto das cores com que pintam os artistas, / Da ordem das palavras dos poetas, da construção de pensamentos de quem pensa. / Gosto dos estudos. Do falar coerente. Da mudança de paradigma e da subversão. / Dos músicos que não tem medo de posicionar-se, dos filmes silenciosos; dos que plantam / Com suas técnicas revolucionárias e milenares. Dos que ensinam por amor. Dos que lutam / Por compaixão. Gosto como vão a bares e viajam. Temo como constroem suas famílias / Projetando em seus futuros filhos sem planos mal sucedidos. / Como reclamam da política convencional e planejam viagens internacionais definitivas. / E continuam a comprar de quem financia a política convencional tão primitiva. / Falando em compras, me preocupo com os influenciadores. / Como nos pescam as redes com iscas da nossa própria carne. / Como vivem essas pessoas na realidade? Me pergunto essas e outras coisas. / São iscas por vaidade? E as respostas vem de várias fontes. / Com diálogos imaginários de uma relação imaginária que já gostaria de ter vivido / Mordemos a isca o tempo todo. Ilusões em torno do amor à rodo. / Todo mundo ainda tem medo de morrer só. E todo mundo tá mal acompanhado. / Porque não dá pra se livrar dos monstros todos os dias. / As vezes eles nos comen as pernas, as vezes tapam o sol.
16.06.2020
Reticências
Me lembro quando aprendi sobre reticências na aula de português e aqueles três pontinhos seguidos passou a ser minha expressão escrita favorita. Quando me faltava explicação, quando esquecia o que queria escrever ou até mesmo quando queria deixar a dúvida no ar, lá estavam as reticências. Naquela época mal sabia aquela garotinha que três seguidos pontinhos fariam parte da sua vida, hoje em conversas se tornou o odiado, mas num contexto amplo e talvez paralelo se tornou o substituto das suas interrogações. Para as partidas, para os momentos tristes e até alegres e até mesmo para algumas "soluções". Há tantos mistérios, tantas omissões, tantos espaços vagos, tantas palavras não ditas e tantos pensamentos não acabados; há duvida e dívida de relacionamentos que se foram, emoções demasiada e até insinuações de pessoas falsas(...) tudo rodeado pelos ingênuos três pontinhos, a incógnita, breve, a tão famosa reticências ...
Thaís Macedo
Quero tanto...
Quero tanto, mas tanto ser...
...Quero ser muito mais do que os olhos alcançam, ser tudo aquilo que tenho em mim. Quero ser simplesmente pura essência, ligar-me aqueles que me tocam, criar raízes e deixar a alma transbordar. Quero ser muito mais do que sou, pois às vezes sou tanto no que em mim guardo, mas tão pouco no visível. Ser só presente, hoje, aqui e agora e não tanto o talvez o ontem ou o amanhã.
Quero tanto conseguir respirar, não ter este peso que me esmaga e não me sentir sufocada com tanta incerteza. Ser tanto, tudo e sem medos, gritar do fundo sem receios e viver sem fronteiras, nem limites. Quero ser do lado de fora, viver o mundo à minha volta e dançar com a felicidade da existência. Quero tanto mas tanto ser, tornar-me escultora dos sonhos mais profundos, dar-lhes forma e torná-los reais.
E hoje, respiro fundo e decido ser, enquanto rasgo as máscaras e os floreados e deixo voar aquilo que sempre fui...
Queria tanto mas tanto ser, que um dia acordei e vi que já o era...
166º dia
Hoje, depois de muito tempo, eu passei a tarde de uma segunda-feira em casa, a primeira sem você. 166 dias se passaram desde que você se foi e aqui continua tudo igual. Suas coisas estão no mesmo lugar que você as deixou. Eu ainda cogito a sua volta, mesmo sabendo que não dá mais, que não tem jeito.
Não sei dizer o porquê de escrever só agora, depois de todo esse tempo. Mas, por favor, não pense que eu não senti saudades. Ultimamente o que eu mais sei ser é um acervo de memórias suas. Sua risada, sua voz, o jeito de me olhar. Tudo se foi e deu lugar a um vazio enorme.
A nossa casa também sente sua falta. O reflexo do sol entrando pela janela do quarto não é mais o mesmo, as tardes chuvosas muito menos. Com a sua ausência, a casa se tornou uma enorme caixa com uns móveis espalhados pelos cantos.
Assistindo à programação da TV nessa quarentena lembrei da gente. Da nossa relação. Desculpa por não vir aqui antes, andei ocupada, mas nem tanto. Acredito que o real motivo era que eu não estava pronta. Pronta para aceitar e colocar pra fora as palavras ‘você. se. foi.’.
Eu estou do mesmo jeito, tendo dias 'ok’ e outros nem tanto. Não sei mais dizer se sou ou estou feliz. Minha alegria se resumia à sua presença e, como você, ela já não está mais aqui. Talvez um dia eu fique bem de novo, enquanto isso, cuida de mim de onde estiver.
Com amor, Sarah C.
Você;
Eu nunca quis qualquer um. Eu pedia por você, gritava o seu nome. Eu sempre desejei que fossemos nós. Aqueles bem apertados, que não se desatam facilmente. Veja bem, eu não queria nada demais, só ter para quem voltar ao fim do dia. Alguém que pudesse chamar de lar e que também fizesse morada em mim. — Nós, na pele
4º dia
Eu não me acostumei. Não sei acordar de manhã e não ouvir seu bom dia. Tampouco aprendi a lidar com sua ausência. As pessoas dizem que é melhor assim. Eu sei que é egoísmo querer te prender aqui. A verdade é que eu não aprendi a caminhar lado a lado com a saudade.
Com amor, Sarah C.
ainda não sei o que me faz estar aqui mais uma vez, como não sei o que me puxa a você tão insistentemente. E parece que as palavras se ajustam à plataforma e saem mais dramáticas do que deveriam. E eu escrevo pra você com a certeza de que nunca lerá, ou nunca se reconhecerá nas palavras. Essa é minha paz. No ensino fundamental minha professora de português disse que nunca se começa uma frase com “e” e talvez por isso eu goste tanto de colocar um ponto no meio das orações e começar a próxima com essa simples conjunção. “e”. É mais uma dessas coisas que a gente não explica com lógica, é só um gosto, um capricho. Como o jeito que eu digo e parece que coloco as palavras numa ordem que o resto das pessoas não fazem e eu não consigo explicar. às vezes fica tão confuso que até foge do entendimento. é engraçado pensar que sempre que divago acabo caindo no mesmo lugar de te escrever e toda vez que te vejo em algo ou algum lugar, eu estremeço e sinto raiva de mim por isso. porque eu odeio me importar com quem não se importa. e eu não lembro do seu beijo como lembro da maioria, não lembro dos detalhes de quando nossos corpos se encontraram, como me lembro de todos os outros. e ainda assim é você o devaneio. desvario. as pessoas fazem planos e eu continuo nos sonhos. talvez por isso eu me prenda à sua impossibilidade enquanto recuso toda oportunidade real de afeto. há segurança em escrever uma carta amarga e confusa e inocência em escrever todo mês uma nova carta de adeus. por isso nessa eu não vou dizer além. eu espero pelas respostas desse equívoco da forma que posso. as vezes sem paciência nenhuma. decepcionada comigo mesma por não saber uma outra forma mais fácil ou mais rápida de sair daqui. mas eu sei que meu comprometimento é com aquilo que sinto e não posso fugir de lugar algum que não deixe de existir dentro. sei que meu lapso desmemoriado é a necessidade de sentir pra então voltar e entender. um purgatório mental. um dia minhas palavras não serão mais amarradas como essas. o plano é esse.