“O Conflito das Interpretações” de Paul Ricoeur
EXISTÊNCIA E HERMENÊUTICA
Qualquer leitura de um texto não é feita por uma pessoa apenas. Mesmo quando é a pessoa sozinha que lê, com ela lê sempre uma comunidade de tradições, pensamentos ou pressupostos. Nesta medida, não há leituras a solo. Também por isso, qualquer leitura é um exercício filosófico, em que se mexe nessa história de pensamentos que estão implícitos. Logo, a exegese, a compreensão do texto exige teorias de signos e significados, que é o campo onde a filosofia, naturalmente, é inseparável do texto que é lido.
“O trabalho de interpretação revela (…) superar uma distância, um afastamento cultural, o de equiparar um leitor a um texto que se tornou estranho e, assim, incorporar o seu sentido à compreensão presente”.
A hermenêutica é sempre um problema filosófico (sobretudo a partir de Schleiermacher e Dilthey), psicológico até porque “compreender é transportar-se para outra vida”. Como fazemos história nossa uma história que nos é tão distante? A vida do outro tem de se tornar parte da minha, para realmente ler o que estou a ler.
Ricoeur quer compreender, não tanto um modo de conhecimento mas como um modo de ser—a ontologia da compreensão. “O que é um ser cujo ser consiste em compreender?” Nesta medida, a epistemologia da compreensão, em toda a sua pertinência, deve ser ultrapassado por esta ontologia. O que daí virá, pergunta Ricoeur? Afinal, quando compreendemos algo, não somente conhecemos algo mas somos algo, “atingir um vínculo do ser histórico com o conjunto do ser, que seja mais originário que a relação sujeito-objecto da teoria do conhecimento” (e uma suspeita das pretensões epistemológicas das chamadas ciências sociais). Também é desta preferência que virá uma valorização do lebenswelt, “o mundo da vida, como “uma camada da experiência anterior à relação sujeito-objecto” (“a primeira fenomenologia pode aparecer como a contestação inicial do objectivismo”).
Menos Platão, menos idealização das teorias da significação. Mais descoberta dos campos de significações anteriores. “A questão da verdade não é mais a do método, porém a da manifestação do ser, para um ser cuja existência consiste na compreensão do ser” (também foi disto que Heidegger foi atrás).
O ponto de partida terá de ser necessariamente o da linguagem, porque é aí que a compreensão existe. É na linguagem que veremos que a compreensão é um modo de ser.
“Resistiremos à tentação de separar a verdade, própria à compreensão, do método utilizado pelas disciplinas oriundas da exegese”. Só podemos compreender o que é existir “a partir da elucidação semântica do conceito de interpretação comum a todas as disciplinas hermenêuticas”. Quem interpreta já não é um cogito mas alguém “pela exegese da sua vida, que é posto no ser antes mesmo que ele se ponha ou se possua”. É como se tivéssemos de matar o pensar como atividade autónoma para, sempre no seio da linguagem, recuperá-lo da maneira mais legítima.
“A filosofia torna-se na interpretação das interpretações” (e Freud anda aqui perto). É no jogo do que se mostra e se esconde, na “semântica das expressões multívocas”, que se compreende a linguagem. “É na linguagem que o cosmos, que o desejo, que o imaginário acedem à expressão”.
“Ao propor relutar a linguagem simbólica à compreensão de si, penso satisfazer ao desejo mais profundo da hermenêutica. (…) [Ela] é a compreensão de si mesmo mediante a compreensão do outro”. A pessoa, que quer interpretar, só aí chega quando ela própria resulta desse mesmo exercício. É neste campo que se expressa uma desconfiança da limpeza funcional do cogito cartesiano. “É somente no movimento da interpretação que percebemos o ser interpretado”.
E temos depois um passo verdadeiramente agostiniano: “uma restauração da problemática da existência como desejo”. Assim como a psicanálise recupera a antologia criticando a consciência, “deve-se dizer do sujeito da reflexão o que o evangelho diz da alma: é preciso perdê-lo para poder salvá-lo”.
“A filosofia permanece uma hermenêutica, uma leitura do sentido oculto no texto do sentido aparente. A tarefa dessa hermenêutica é a de mostrar que a existência só vem à palavra, ao sentido e à reflexão, procedendo a uma contínua exegese de todas as significações que se manifestam no mundo da cultura”. São implicações ontológicas da interpretação. “A ontologia é a terra prometida para uma filosofia que começa pela linguagem e pela reflexão”.