Teenage Dream - Capítulo Vinte e Seis
Clara
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Capítulo Vinte e Cinco / Capítulo Vinte e Sete
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Obs: Estamos a 3 capítulos do final. E teremos um epílogo.
Harry abre desesperadamente a porta do banheiro dos seus pais, encontrando você debaixo do chuveiro quente sentada em um banquinho. Sua mãe está ao seu lado, uma mão segurando a sua e a outra esfregando suas costas. Ela é a única que o percebe, você está profundamente mergulhada na terra do trabalho de parto, respirando fundo, inspira, expira.
“Meu amor” Harry se ajoelha na sua frente, pegando sua outra mão. “Eu estou aqui.”
“Harry?” você levanta o olhar, encontrando os olhos dele.
“Vou deixar vocês dois sozinhos.” sua mãe se afasta “Estamos esperando as contrações ficarem mais ritmadas para podermos levá-la ao hospital, tudo bem?”
“Tudo bem.” ele assente, sem tirar os olhos de você.
Sua mãe explica para ele como verificar o ritmo das suas contrações pelo aplicativo. Ele presta atenção em cada detalhe, e você observa. Antes de sair do banheiro, sua mãe olha nos olhos de Harry, procurando uma confirmação do comprometimento dele com aquele momento. E ele assente. Uma promessa silenciosa.
“Vou estar na sala se precisarem de qualquer coisa.” ela também assente para ele, deixando vocês dois sozinhos.
“Amor” ele sussurra “Como você está se sentindo?”
“Péssima.” você ri baixinho “Meu Deus, eu vou dar à luz nossa menina, Harry.”
“Vai sim.” ele sorri, beijando seus lábios “Tenho tanto orgulho de você. Você é uma mãe forte e feroz.”
“Promete que não vai sair do meu lado, por favor.” você implora.
“Nunca mais.” os lábios dele encontram os seus delicadamente “Eu amo vocês duas demais.”
Um grunhido escapa da sua boca quando a dor volta, irradiando da lombar até o umbigo. Parece que vai ser partida ao meio. Você aperta a mão de Harry como se quisesse transformá-la em pó. Toda vez que sente aquela dor terrível, você, na verdade, quer matá-lo por ter transado tão bem com você na França.
“Estou aqui, estou aqui" ele esfrega sua lombar “Clara vai estar aqui em breve, mostrando como o nosso amor é lindo.”
“Cala a boca, Harry!” você grita.
“Ah, tudo bem!” Ele segura o riso.
A dor começa a diminuir e você sente que consegue respirar de novo. Você olha para Harry. Dentro dos seus olhos existe cada sentimento dos últimos meses. Ressentimento, amor, empolgação, gratidão, raiva, ódio, segurança e orgulho. Orgulho de conseguir exatamente o que queria.
“Tudo o que eu preciso agora é de você, meu amor” você sorri suavemente “Mesmo que eu queira muito te matar por ter voltado, gozado dentro de mim e sido exatamente o que eu precisava.”
Vocês dois riem e você morde o lábio inferior. Na verdade, você não quer matá-lo. Isso é tudo o que você sempre quis. Harry a beija novamente, a mão sobre sua barriga dura como pedra, e você sente Clara se mexer. Ele sorri contra seus lábios.
“Ei, menininha, pega leve com a mamãe, tá bom?” ele olha para sua barriga “Estamos ansiosos para te conhecer.”
“Sim.” seus olhos se enchem de lágrimas “Harry, eu tô com medo.” é a primeira vez que você admite isso.
“Vai ficar tudo bem, tá?” ele a tranquiliza “Nós te amamos pra caralho, e você é a mulher mais maravilhosa que eu já conheci. Aquela por quem eu sou apaixonado desde sempre. Eu sinto muito por ter estado ausente, mas amo vocês duas demais, e estou aqui agora. Prometo que não vou embora.”
“Merda” você exclama.
A dor volta e, quando Harry verifica o aplicativo, é hora de ir para o hospital. O coração dele dispara. Ele está tão assustado quanto você. O mundo inteiro dele está diante dos seus olhos. Por um momento, ele apenas observa você gritando, o rosto vermelho e a mão esmagando a dele. Ele engole todo o medo que existe dentro dele e respira lenta e profundamente.
“Amor, precisamos ir para o hospital, tá?” ele diz suavemente “Está na hora.”
“Meu Deus” o desespero toma conta dos seus olhos.
“Vem cá” ele segura sua mão e ajuda você a se levantar “Eu cuido de você.”
Harry pega uma toalha e a enrola em você. Ele a mantém perto do corpo e a tira do chuveiro, levando-a para o quarto. Ele chama sua mãe para ajudar e, enquanto a seca e ela pega roupas, você grita, ajoelhada no chão. As contrações estão ficando mais fortes e mais próximas umas das outras.
“Segura firme, querida” sua mãe se aproxima “Você consegue. Vale a pena, eu prometo.”
Harry a segura, beijando sua têmpora, enquanto sua mãe ajuda você a vestir as calças. Você nunca imaginou que seria tão doloroso. Suas pernas estão fracas, seu corpo inteiro está encharcado de suor, sua visão embaçada e sua garganta queimando de tanto gritar. Seu marido continua segurando você firme enquanto sua mãe a veste com um moletom simples.
Seu pai está levando as malas do hospital para o carro às pressas, tentando lembrar de tudo, falando sozinho e andando de um lado para o outro. Ele liga desesperadamente para Frank para contar. Sua mãe está tremendo, e é aí que a ficha cai. Da próxima vez que você voltar para casa, para seu apartamento, estará carregando um bebê nos braços. Você será mãe de alguém.
Uma responsabilidade tão grande que você não se sente pronta para carregar. Como você vai ensinar alguém o básico? A andar, a falar, a fazer lição de casa. Como vai cuidar de alguém se às vezes nem consegue cuidar de si mesma?
Essa realização faz você estremecer e, misturada com outra contração, faz você gritar e então chorar, soluçando. Sua respiração falha e seu coração dispara. Ao parar, você sente a mão de Harry em seu ombro, e o rosto dele traz tantas lembranças que seu corpo começa a se acalmar. Clara chuta. Vocês são uma família, e ele “cuida de você”.
“Vamos, minha vida” ele beija sua testa, ajoelhando-se para colocar seus sapatos “Vamos conhecer nossa Clara.”
“Eu não consigo, mãe” você murmura em pânico “Eu não consigo. Por favor, eu não consigo.”
“Sim, você consegue!” sua mãe para na sua frente “Você consegue! Nunca mais diga isso.”
“Mamãe” você olha nos olhos dela “Eu estou com medo.”
“Meu amor, olhe para mim. Eu entendo. Já passei por isso duas vezes” ela acaricia seu rosto, e Harry lhe dá espaço “Você deve estar com medo. Esta é uma grande mudança na sua vida. Mas você tem todos nós para ajudar. Estamos aqui e não vamos embora. Você está segura. O melhor hospital, os melhores médicos. Eu te conheço desde o dia em que você nasceu.”
As duas começam a chorar. Sua mãe se lembra de quando deu à luz você, de como se sentiu da mesma forma. Tão linda em seus braços, chorando e implorando por comida.
“Eu conheço a sua força” ela sorri através das lágrimas “Você é corajosa, forte, teimosa e amorosa. Vai ser uma ótima mãe. A melhor. Não tenho dúvida nenhuma disso. Agora entre nesse carro e traga a nossa preciosa menina ao mundo.”
Sua mãe sorri para você e, com o toque mais gentil, a conduz até o carro, onde Harry espera com a porta aberta e um sorriso no rosto. Ele ajuda você a entrar no carro, sentando-se no banco do motorista, e segura sua mão. Você tenta se acomodar naquele terrível banco de couro.
Ele liga o motor e começa a dirigir em direção ao hospital. O GPS mostra que chegarão em quinze minutos, e ele sabe que será uma tortura. Ouvir sua esposa sentindo dor e sua filha prestes a vir ao mundo. Há uma mistura de sentimentos que faz sua mão apertar o volante.
Uma onda de dor atravessa você, fazendo seu corpo se contorcer no banco e arrancando mais um grito. Você não consegue ver nada, apenas pontos brilhantes. Com a mão, aperta a coxa de Harry com força. Ele também geme de dor. E você sorri. Às vezes, só queria que ele sofresse como você. Ele dirige com cuidado, querendo manter vocês duas seguras.
“HARRY!” você olha para ele, respirando fundo “MAIS RÁPIDO!”
Ele afunda o pé no acelerador e faz os pneus cantarem. Obedecendo você, afinal, é você quem está sofrendo. Com o pisca-alerta ligado, buzinando em cada cruzamento, tentando ser cuidadoso. E outra contração vem, fazendo você apertar os olhos.
“DEVAGAR!”
‘Meu Deus!’ Harry pensa ‘Estou ferrado’. Uma risada baixa escapa de sua boca. Você se vira para ele, rosto vermelho, maxilar travado. Solta o ar, e ele engole a risada, mordendo os lábios. Fechando os olhos. Você quer dar um tapa na cara dele.
“O que tem tanta graça?” você pergunta com um sorriso assustador no rosto, saído diretamente de um filme de terror.
“Nada, meu amor.” ele segura o riso “Eu só-”
“Eu só-” você imita a voz dele, furiosa.
O jeito como Harry olha para você derruba suas barreiras e você também ri. Como é possível? Você está em trabalho de parto, gritando até perder a voz, com uma dor terrível e impossível de medir, e mesmo assim está rindo com seu marido. Por que está rindo? Não importa. Isso pode levar minutos, mas também pode levar horas.
Você grita de novo, agarrando a alça acima da porta. A dor é mais forte agora, seu corpo grita com você. Como você pôde? Você tenta respirar. Inspirações e expirações rápidas, focando na estrada à frente. Estes são os quinze minutos mais longos da sua vida. É uma estrada sem fim.
“Harry, fala comigo” você implora, a dor não está passando.
“Sobre o quê?” ele pergunta, assustado.
“QUALQUER COISA!”
“Você sabe qual foi a primeira coisa que pensei quando te beijei pela primeira vez no baile?” sua mente viaja pelas lembranças.
“Claro que não, eu não estou dentro da sua cabeça!” você volta a ficar irritada.
“Eu estava inseguro, pensando como você, a irmã do meu melhor amigo...” ele engole em seco “A mulher mais linda que eu já conheci, estava me beijando, sentada no meu colo, dentro do meu carro.” isso aquece seu coração.
“Bom...” você lhe dá um sorriso suave.
“E sabe o que pensei no momento em que ouvi sua voz de novo pelo telefone?” a mão dele encontra sua coxa “Que eu precisava de você mais do que qualquer coisa. Mas nós dois éramos dois idiotas. Você me beijou de novo e eu me lembrei de como era se sentir vivo.”
Por um momento, isso ameniza sua dor. Parece que as palavras dele são anestesia. Ele se lembra de cada detalhe do relacionamento de vocês. Cada sentimento. Cada momento. Você sempre foi a pessoa certa, e ele sabia disso.
“Frank me chamou para ser padrinho dele, e eu soube” ele assente “Eu soube que teria você de volta, e dessa vez para sempre. O destino fez sua parte com aquele seu ex idiota perdendo o voo, os quartos um ao lado do outro e, como Milan Kundera diz, ‘se um amor está destinado a ser inesquecível, as coincidências devem imediatamente começar a pousar sobre ele como pássaros’”
“Você está citando um livro?” você ri.
“Sim, porque é a verdade” ele assente, olhos na estrada “Nossos encontros foram feitos puramente de coincidências. E, a propósito, acabamos de chegar ao hospital.”
“Não acredito!” você sorri enquanto ele estaciona o carro “Eu te amo, Harry.”
Ele pega uma cadeira de rodas; suas contrações ainda estão te torturando, claro, então você precisa dela. Todas as bolsas estão penduradas em seus braços e costas. Harry empurra você para dentro do hospital o mais rápido que pode e, assim que vocês param na recepção, a realidade atinge novamente. O caos do hospital acontecendo diante dos seus olhos. As palavras de Harry parecem tão distantes.
“Castillo” ele repete, soletrando “C-A-S-T-I-L-L-O.”
“Por favor, preencha estes formulários. As enfermeiras vão levá-la.” a recepcionista lhe entrega alguns papéis.
“Para onde elas vão levá-la?” ele pergunta, desesperado, observando enquanto uma enfermeira loira afasta sua cadeira dele.
“Para a sala de parto, Sr. Castillo. Apenas preencha os formulários, por favor.”
Harry mal consegue ler as letras. Está ansioso. Não pode perder o nascimento da filha. Escreve as informações tão rápido que fica impossível de ler. Tudo o que quer é estar com você. Seu coração está acelerado. Enquanto entrega os formulários à recepcionista, uma mulher passa com um bebê nos braços e o pai logo atrás dela, com o braço sobre seus ombros.
A cena o faz imaginar e idealizar como será quando forem vocês saindo dali. Como Clara será? Ele pensa em você sozinha naquele quarto agora. A recepcionista parece estar brincando com ele, digitando lentamente, e sua perna não para de balançar.
“Moça, posso ir ficar com a minha esposa agora, por favor?” ele implora.
“A enfermeira virá buscá-la” ela nem levanta os olhos para ele.
Harry pega as bolsas e espera ansiosamente pela enfermeira. Cada segundo parece uma eternidade. Ele quer ver você, tocar você, ajudar você. E, no exato momento em que pensa nisso, a enfermeira se aproxima dele, a mesma que levou você. Ela o ajuda com as bolsas e o conduz até um quarto.
Alguns minutos depois, ela leva Harry até a sala de parto. Lá está você, de quatro, gritando. Ele corre até você e se agacha ao seu lado, a mão acariciando suas costas.
Harry está falando com a recepcionista e você vê uma jovem loira caminhando até você. No crachá dela está escrito ‘Anna’ e abaixo do nome, enfermeira. Ela empurra sua cadeira de rodas para longe do seu marido. A visão dele ficando para trás faz você ficar apavorada.
“Não, não, não” você tenta se levantar “Meu marido”
“Calma, ele virá logo atrás de nós” ela tenta acalmá-la
E então você geme alto, uma dor horrível, mas você aguenta. Harry não está aqui. Mas parece que você será rasgada ao meio. Você se curva na cadeira. A partir deste momento tudo é como um sonho, e você apenas sente. Tudo é primitivo e instintivo.
O quarto para o qual a levam é azul-claro, grande, há uma bola de exercícios, uma banheira, um chuveiro e, claro, uma cama. Mas está tudo vazio. Harry não está lá. Você está sozinha. Clara está fazendo um esforço para entrar neste mundo de uma forma muito dolorosa. Quando outra contração vem, você instintivamente fica de quatro. E isso a torna menos dolorosa.
3…2…1, respire! 3…2…1, respire!
Durante essa contração, o resto do mundo desaparece, você não vê nem ouve nada, as vozes parecem estar tão distantes. Há apenas você e Clara. Você consegue senti-la se movendo, mais devagar agora. A cada contração você sente sua pelve doer.
“Meu amor” a voz de Harry a traz de volta à realidade, ele está lá agora “Estou aqui, desculpa, eu queria ter vindo com você”
Não há resposta sua além de um aceno. Anna, a enfermeira, está ao seu lado, e quando vê Harry, seus lábios se curvam em um sorriso educado. Ele começa a esfregar suas costas.
“Sr. Castillo, tenho algumas perguntas” ela começa
“Ok” ele não olha para ela, seu foco está em você, apenas em você
“Este é o primeiro bebê de vocês?” ela pergunta
“Sim, para nós dois” ele assente
“Ela é alérgica a algum medicamento?”
“Naproxeno” ele nem pensa “Zofran também”
“Ok” Anna assente “Ela tem alguma especificação sobre o parto? Desculpe estar perguntando, mas ela não conseguiu responder nada”
“Ela quer usar tudo o que for possível para um parto natural, mas se tiver que fazer uma cesárea ela aceita” ele tenta se lembrar “Nada de banho na Clara por 24 horas”
“Ok, senhor” ela assente “Nós não interferimos no processo, a menos que vocês precisem de nós, ela sabe o que está fazendo, ok? Vou medir o quanto ela dilatou”
Mesmo Harry assentindo, ele está assustado. Como eles não ficam em cima de você o tempo todo? Você está tão focada no momento que ele entende. Você é a única que sabe o que dói e qual é a melhor maneira de trazer sua menina para os seus braços, ele confia em você. Sempre confiou.
O relógio marca o tempo na parede, você está sentada na bola de exercícios, seus braços ao redor dos ombros de Harry, sua cabeça entre eles. Seu cabelo e roupas estão molhados do banho que você tomou uma hora atrás. Já são oito horas de trabalho de parto, e Harry consegue ver o quanto você está cansada.
“Eu nunca vou te perdoar, Harry Castillo” você sussurra, movendo os quadris e chorando
“Amor, vamos para uma cesárea, eu não consigo te ver assim por mais tempo” ele implora, baixinho
“Não, Harry, eu quero tentar mais um pouco” você levanta a cabeça, olhando diretamente nos olhos dele
“Vou dar mais três horas para isso, amor” sua voz é séria “Eu não consigo te ver assim”
“Ok, querida” Anna se aproxima, sorrindo, e tudo o que você quer é dar um soco na cara dela, pena que você está cansada demais “Vamos ver se você chegou aos nossos dez”
O exame é desconfortável, ela coloca o dedo dentro de você. Você fecha os olhos e suspira. Pedindo e implorando a Deus para ter chegado aos dez centímetros. Leva segundos, mas para você é uma eternidade. Harry está ali, apenas olhando. Ambos têm olheiras profundas.
“Ela está com seis centímetros” Anna olha para a Dr Jamieson e ela caminha até você
“Deixe-me examiná-la, ok, querida?” ela murmura, gentilmente
A médica toca você. Sua barriga, ela também a penetra com os dedos, e a essa altura o hospital inteiro conhece você por dentro. Tudo a irrita mais do que deveria. Ela não parece preocupada.
“As contrações não estão fortes o suficiente para continuar dilatando seu colo do útero” seus olhos vão de você para Harry “Podemos usar Pitocin, que é uma oxitocina sintética, para tornar suas contrações mais eficazes, mas vocês precisam autorizar”
“O que pode acontecer? Há alguma complicação para Clara?” Harry pergunta, seus olhos tentando se arregalar, mas a essa altura ele já não consegue
“Não” Karen balança a cabeça “Há consequências, mas elas são relacionadas à intensidade das contrações, elas serão mais frequentes e mais dolorosas”
“Me dê!” você não hesita
“Amor!” Harry se assusta com a ideia de você sofrer ainda mais
“Harry, eu quero ela comigo, e para ser sincera, a espera está me matando mais do que qualquer coisa” você fecha os olhos e assente
“Eu acredito em você” ele sorri, escondendo o medo “Você vai conseguir”
“Eu te amo” você sussurra “Mas quero te dar um soco”
“Eu também te amo, você é uma guerreira” ele beija seus lábios gentilmente
Anna volta com uma bolsa de medicamento, e você suspira, desesperada. Mas seu cérebro só consegue pensar que precisa acabar com isso. Você quer descansar, mas não quer fazer cirurgia. Isso a assusta mais do que a dor. Ela pendura a bolsa no suporte de soro ao seu lado e conecta o tubo ao seu acesso intravenoso.
Você e Harry observam atentamente enquanto ela ajusta a primeira dosagem na bomba de infusão. Seu coração dispara, a ansiedade tomando conta, e você se pergunta por que fez sexo com Harry. Agora você está grávida e terá que passar por tudo isso. Mas, ao mesmo tempo, mal pode esperar para ter um bebê e viver esse momento com ele.
Leva alguns minutos para você sentir a primeira contração e é a mais dolorosa até agora. Você rosna como um animal e Harry observa desesperadamente. Quando você olha para ele, seu rosto está vermelho. Vermelho intenso. Vermelho sangue. Por um momento, ele acha que você vai desmaiar, mas lá está você, aguentando firme. Essa é a mulher que ele ama mais do que qualquer coisa.
“Porra!” você grita, cravando as unhas nos ombros dele “Harry!”
“Amor, aguenta firme!” ele a segura apertado “Respira comigo”
O homem que você vê à sua frente logo se transforma naquele jovem adulto que você beijou dentro do carro ao som de Teenage Dream da Katy Perry. Ele é quem você escolheu, e está ajudando você a respirar, mesmo precisando respirar também enquanto seu útero parece estar sendo rasgado.
“Eu te amo, e acredito em você, ok?” Harry continua, aproximando-se mais “Você consegue”
“Harry” você diz fracamente “Se alguma coisa acontecer comigo, cuide dela, por favor”
“Cala a boca, nada vai acontecer com você” ele entra em pânico só de pensar que algo poderia dar errado com você “Eu não vou sair daqui sem Clara e sem você”
Por um momento a contração para, dando a você tempo para respirar. Não muito tempo, porém, exatamente como o médico disse, elas viriam mais próximas umas das outras. E cada uma delas é mais dolorosa do que a anterior. Harry está sempre ali, esfregando suas costas. Segurando você. Beijando você. Sem se importar consigo mesmo. E ele realmente não se importa.
A raiva de meses desaparecendo em 10 horas de trabalho de parto. Harry está ali. Focado em você. Nada mais importa. Cada sorriso, cada beijo, cada lágrima e gota de suor de vocês dois mostra o quanto se amam e estarão um ao lado do outro pelo resto de suas vidas.
Você está tremendo agora, debaixo do chuveiro. As contrações são terríveis, cada uma mais forte do que a anterior. Dez horas. Você consegue mais do que isso. Mas a exaustão está vencendo. Harry está fechando os olhos enquanto você apoia a cabeça no colo dele, tentando encontrar uma posição melhor para ajudar com a dor.
“VOCÊ ESTÁ DORMINDO?” você observa enquanto ele se assusta
“Não!” ele arregala os olhos e segura uma risada “Eu só estava pensando”
“Ah, Harry Castillo” você estreita os olhos
“Respira, amor!” ele murmura, afastando o cabelo do seu rosto suado “Só respira”
“Não venha me mandar respirar agora, Bela Adormecida!” você revira os olhos
“Ah, Deus!” ele reclama
“Nem pense nisso!” você estreita os olhos “Você me engravidou!”
“Justo” Harry dá de ombros e consegue ver a outra enfermeira, Janice, segurando uma risada
Não há nem tempo para você se recuperar, outra contração chega fazendo você se contorcer de dor, cravando agora as unhas na coxa dele. Harry segura um grito, amanhã estará completamente roxo. Mas pelo menos terá Clara, e valerá a pena. Seu corpo se tensiona.
“Tudo bem, querida” Dra. Jamieson diz gentilmente, ficando ao seu lado “Acho que podemos conversar sobre controle da dor”
Você abre os olhos e olha para Harry. O que isso significa? Você adoraria que parasse de doer. Está com 8 centímetros, quase lá. Mesmo assim, não vai aguentar por muito mais tempo, dói demais, você está cansada demais. Seus olhos encontram os de Karen e você assente.
“Sim, me deem qualquer coisa que não tenha risco para nenhuma de nós” você suspira, a mão sobre a barriga “Eu confio em você”
Harry olha de você para Karen, assustado, mas não quer mais vê-la sofrendo. Ele também confia na Dra. Jamieson, ela está com vocês desde o início. Você lança um olhar para ele e ele também assente.
“Não sou eu quem está dando à luz” ele beija sua testa “Eu apoio qualquer decisão que você tomar, desde que não afete Clara nem você”
“Vou chamar o anestesista, ok?” ela sorri, virando-se e saindo do quarto
Você nem tem tempo para pensar, outra contração a atinge. Harry observa você com dor, se contorcendo, tremendo e quase explodindo. Ele não se sente bem com a anestesia, mas não é ele quem está sentindo a dor que você está. Ele tenta focar em você, e não em todos os cenários florescendo dentro da sua mente.
Cerca de vinte minutos depois, que parecem anos para você, o anestesista, um homem de meia-idade, talvez da mesma idade de Harry, e a Dra. Jamieson entram no quarto.
“Olá, mamãe” o homem sorri, as rugas nos cantos dos olhos ficando visíveis
Não resta nem um pingo de força dentro de você, tudo dói e sua respiração está tão fraca que você tem medo de morrer. O homem é gentil e calmo, explicando tudo da maneira mais tranquila possível. Ele administrará uma dose de epidural na parte inferior das suas costas, e você relaxará, sem sentir nada.
“Preciso que você se sente na beirada da cama, querida. Consegue fazer isso por mim?” o médico está agachado, procurando seus olhos.
“Eu cuido dela, doutor.” Harry se levanta imediatamente.
Ele ajuda você a se sentar devagar. Mesmo em meio a todo aquele caos, você é a mulher mais bonita que ele já viu. E ele sorri ao perceber isso. Seu cabelo está completamente bagunçado, os olhos cercados pelas olheiras mais escuras, a barriga enorme. A cada segundo, ele se apaixona ainda mais por você.
Antes mesmo de o médico conseguir tocar em você, a próxima contração a atinge, fazendo você gemer e se curvar para frente. Harry a segura. O médico balança a cabeça para seu marido.
“Sra. Castillo, eu sei que é difícil, mas preciso que fique o mais parada possível.”
Quando ele diz aquelas palavras, seu coração dispara. O pânico invade você. Você olha para Harry, e ele entende apenas pelo olhar em seus olhos. O que aquilo significa?
“Eu não consigo” você começa a balançar a cabeça.
“Amor, você consegue” ele assente “Ei, olha para mim, meu amor.”
Você sente outra contração se formando e grita, agarrando a camisa dele. Seus olhos estão vermelhos de exaustão e das lágrimas. O médico espera; ele precisa que você se acalme.
“Eu não consigo fazer isso, Harry.” você sussurra.
“Você quer uma cesariana? Eu ligo para a Dra. Jamieson e peço para ela vir” os olhos castanhos dele estão fixos nos seus.
“Não, eu estou quase lá.” você fecha os olhos, quase derrotada.
“Você consegue fazer isso.” ele sorri, o polegar acariciando sua bochecha.
“Não, eu não consigo.” você choraminga.
“Sim, consegue!”
“Dói, amor.” você começa a chorar.
“Eu sei que dói, meu amor.” ele encosta a testa na sua “Olha para mim.”
Harry olha dentro dos seus olhos, as íris castanhas dizendo explicitamente o quanto ele está preocupado.
Você não responde. Em vez disso, se apoia nele. Seus braços se enrolam ao redor do pescoço dele, e os dele envolvem sua cintura, trazendo estabilidade. O anestesista está atrás de você, preparando a seringa. Seu coração dispara como se estivesse disputando uma corrida, e sua mente vai para outro lugar, tentando escapar daquele momento.
“Você vai sentir, mas será só por um segundo” diz o médico, introduzindo a agulha em sua coluna.
“Olhos em mim, amor” Harry repete “Olhos em mim. Você é tão corajosa.”
“Merda.” você sente apenas uma fisgada e o líquido se espalhando pelas suas costas.
“Quase terminando. Você está indo bem.” o médico murmura atrás de você.
O mundo inteiro começa a girar e você não consegue focar, sua respiração ficando irregular. Seu marido percebe e, com a mão acariciando seus braços e suas costas, começa a guiá-la.
“Inspira, amor” os olhos dele estão presos aos seus “Expira.”
Você inspira e expira de forma trêmula.
“Isso mesmo, minha mulher favorita.” ele vê outra lágrima escorrer pela sua bochecha. Ele é sua âncora.
“Perfeito, mamãe e papai.” o médico sorri “Em alguns segundos você não vai sentir mais nada.”
“Viu? Você é tão corajosa, meu amor” Harry beija sua testa e lhe dá um selinho.
“Eu odiei cada segundo” você ri fracamente.
“Eu sei que odiou. É exatamente por isso que você é corajosa.” as mãos dele seguram seu rosto enquanto ele olha nos seus olhos “Você fez isso mesmo odiando, mesmo em meio a todo esse caos.”
Harry a mantém perto, sua cabeça apoiada em seu peito, enquanto sua mão acaricia seus cabelos e você respira profundamente. Permanecendo naquela posição até finalmente sentir aquilo que desejava havia doze horas. Alívio.
A dor desaparece aos poucos. Não completamente, mas o suficiente para lhe dar tempo de respirar. Harry observa seus ombros relaxarem pela primeira vez nas últimas horas.
“Como está se sentindo, meu amor?” ele sorri ao ver o alívio estampado em seu rosto.
“Não dói mais, amor” você olha para ele, rindo baixinho.
“Quer se deitar um pouco?” ele pergunta “Eles só vão continuar monitorando Clara e sua dilatação.”
“Você também não está cansado?” você pergunta, preocupada.
“Sim.” ele assente “Mas é você quem está dando à luz. Precisamos da sua força.”
“Obrigada” você sorri, fracamente.
Harry sente um enorme alívio e seus olhos ficam marejados. Durante horas ele viu você sofrer, gritar, chorar, tremer. Agora você está quieta, confortável.
Depois de ajudá-la a se deitar, ele beija sua mão e sua testa. E permanece ao seu lado, acariciando sua cabeça e sua barriga. Clara se mexe, claro que se mexe.
Você acorda com uma sensação. É diferente de tudo o que sentiu até agora. Você está pronta.
Levantando-se, vai até o chuveiro. Harry apenas observa. Janice faz um gesto afirmativo para ele, dizendo que está tudo bem. Mesmo assim, ele a segue, sem tocá-la. Ligando o chuveiro, observa enquanto você fecha os olhos com força.
“Amor, você consegue fazer isso” a voz dele parece abafada por tudo o que você está sentindo.
Uma necessidade de empurrar. Uma necessidade desesperada. Como se seu corpo soubesse exatamente o que está fazendo.
A água quente ajuda a tornar a dor um pouco mais suportável. Você fecha os olhos e se conecta com sua filha. Ela está chegando e você precisa saber como ela está. Nunca imaginou que seria capaz de fazer isso.
Harry observa, maravilhado com a cena. Você está simplesmente ali, concentrada, deixando seu corpo fazer aquilo que sabe fazer. Instintivamente. Você levanta o olhar para ele com um sorriso. Está sentindo sua filha chegar.
“Preciso me sentar, você pode me segurar?” seus olhos estão claros e brilhantes “Ela está vindo.”
“Claro que posso, meu amor.”
Ele segura sua mão, ajudando-a a ficar de pé e sustentando seus antebraços por trás, o peito dele encostado em suas costas. Sem saber de onde vem toda aquela força, mas ela está ali. Sua mão aperta a de Harry com tanta força que seus nós dos dedos ficam brancos e os dele quase quebrados.
“Ela está vindo, querida” A Dra. Jamieson se agacha para receber Clara “Consigo ver o cabelo dela. Sim, muito cabelo escuro.”
“Essa é a minha menina” Harry ri entre as lágrimas.
Você geme, fazendo força, apertando a mão dele. Chorando e tremendo.
“Vamos, amor, você consegue! Está quase lá, a cabeça dela já está aparecendo!” ele incentiva. “Vamos, Clara!”
Depois do seu último grito, há silêncio. E então choro. Um choro agudo. Ela chegou.
Você começa a soluçar naquele exato momento, soltando um longo e pesado suspiro. Dra. Jamieson a puxa completamente para fora e você se ajoelha para poder segurá-la. Ela entrega Clara para você. Que desmorona. Harry desmorona também, abraçando você por trás. Soluçando, ele olha para sua filha. Clara é linda, cabelo escuro, seus olhos, mas o resto é todo Harry.
“Oi, minha menina” você sussurra
“Ela está aqui, meu amor, você conseguiu” Harry beija sua cabeça, acariciando os pezinhos minúsculos da filha
“Ela se parece exatamente com você, que injusto” você ri baixinho, ainda soluçando
“Ela é exatamente como meu pai disse que seria” Harry desmorona, chorando copiosamente
“Sim, meu amor, ela é. Ele ficaria tão feliz” você beija Harry nos lábios, provando as lágrimas um do outro “Promete que vai ficar conosco para sempre?”
“Eu prometo, eu juro”
Tudo parece perfeito. Sua família está ali, os três. Harry corta o cordão umbilical, chorando como um bebê, soluçando. E você está mais feliz do que jamais esteve, entregando-a para ele. O amor da sua vida, segurando o outro amor da sua vida. Ele olha para você com um enorme sorriso.
A placenta sai logo depois de Clara, e seu útero fica vazio. Karen observa a cena com os olhos marejados. Mas ela olha para baixo depois da saída da placenta e percebe o sangue escorrendo, e você ficando visivelmente pálida. Ela olha para Janice.
“Janice, chame o Dr. Hann e outra enfermeira, por favor” ela quase grita, correndo em sua direção.
Você percebe a movimentação e olha para Harry, assustada. Ele olha para baixo e congela. Ele consegue ver uma poça de sangue sob você. Seu coração dispara e sua respiração falha. E então ele ouve Karen.
“Harry, nos dê espaço, por favor. Leve Clara para o berço dela” sua voz é desesperada e alta
A última coisa que você vê são os olhos arregalados de Harry. Clara não está mais chorando, ela está choramingando. E você sorri. Tudo fica preto e você apenas ouve vozes à distância. Até não ouvir mais nada.
“Para onde vocês a estão levando?” ele grita “Dra. Jamieson!”
“Cirurgia, Harry” ela apenas balança a cabeça
Seu marido observa enquanto outro médico pega você e a coloca em uma maca. Dra. Jamieson sai com ele e outra enfermeira. Janice fica com ele e Clara. Outro médico entra, mas Harry está atordoado demais para entender o que quer que esteja acontecendo. Ele apenas sente e protesta quando Janice pede Clara.
“Precisamos fazer as medidas dela, senhor” o médico explica e Janice olha para ele
“Ela vai ficar bem, Sr. Castillo” ela garante
“O que está acontecendo, Janice?” sua voz quase não sai
“Ela está sangrando demais. Eles vão ver o que está acontecendo. Cuide da sua filha” ela engole em seco e seu rosto não é nada reconfortante
O estômago de Harry se revira, há um nó em sua garganta. Seu coração, que antes estava disparado, agora quase para. Clara volta para seus braços, e sua mãozinha minúscula segura o dedo dele e é nesse momento que as lágrimas começam a cair de seus olhos, uma sensação agridoce.
Sua filha está ali, mas você não. Ele perdeu você uma vez, não pode perder de novo. A única coisa em que consegue pensar é: ‘Pai, por favor, cuide da sua garota favorita.’
“Mamãe está bem” Harry repete e quando Clara ouve sua voz ela se acalma, nenhum som, apenas calma “Ela está bem, bebê dinossauro”

















