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Cícero - Pelo Interfone
Se tu soubesse como machuca, não amaria mais ninguém. [...] Ah, se tu soubesse, não contaria pra ninguém.
Cícero.
“Fala p’ra ele que ele é um sonho bom, que mudou o tom da tua vida comprida. Fala p’ra ele do disco do Tom Jobim, do seu apelido e de mim e chora. Ah, Dindi, se tu soubesse como machuca não amaria mais ninguém. Fala p’ra ele que a vida é um balão, p’ra cuidar do seu coração, e chora. P’ra onde elas vão? Embora. Ah, Dindi, se tu soubesse como machuca não amaria mais ninguém. Ah, Dindi, se tu soubesses ah, se tu soubesses não contaria p’ra ninguém. Fala p’ra ele o que nunca falou p’ra ninguém. P’ra ele também. [Pelo Interfone, Cícero]
Fala pra ele do disco do tom jobim, Do seu apelido e de mim... E chora.
Fala pra ele Do disco do Tom Jobim Do seu apelido e de mim E chora
Cícero
Pelo interfone
[Mini-conto fictício inspirado na música de Cícero Rosa Lins, de mesmo nome. Esta é apenas uma interpretação sem o menor compromisso com a realidade] Cecília era apaixonada por Cícero, até conhecer João. João chegou e fez uma bagunça nos sentimentos da moça que, cá entre nós, já não eram lá tão organizados. Cecília começou a passar por aquilo que todo mundo deve passar alguma vez na vida: ficou dividida entre dois amores. Tomar decisões nunca foi o seu forte, mas naquele momento, ela sentiu que precisava. Afinal, a quem ela queria enganar? Seu coração, que era maior que ela mesma, jamais seria capaz de aceitar ser entregue à pessoa errada. Não que Cícero fosse uma pessoa errada. Mas também não era a certa. Não naquelas circunstâncias. Não para Cecília. Não depois que João entrou na história. Cecília, então, depois de muito penar consigo mesma, decidiu que era melhor pôr as cartas na mesa de uma vez por todas. Primeiro foi até João e disse: - A vida é um balão. Vê se cuida do meu coração, viu? Então, subitamente, começou a chorar. João, surpreso, quis saber o porquê. Ela relatou tudo o que acontecia dentro dela e João a acolheu. Cecília disse coisas que nunca falou pra ninguém. Nem para Cícero, que foi o grande amor da sua vida durante uma eternidade curta demais. Depois foi até Cícero. O jovem moço de cabelos encaracolados estava em seu apartamento, na mesa da cozinha, tomando um café recém passado com sua irmã mais nova a quem carinhosamente apelidava de "Dindi", fazendo referência a uma música famosa de Tom Jobim, que era um de seus maiores ídolos. Coitado. Nem imaginava que o seu mundo estava prestes a desabar. O interfone tocou. Cícero atendeu e ouviu a voz de Cecília e seu coração quase não coube no peito. Até que ela começou a falar. Sem rodeios, Cecília contava de seu novo amor, e parecia tão impiedosa, que nem dava pra saber o quanto aquilo doía para ela também. - "Ele é um sonho bom que mudou o tom da minha vida cumprida. Ah, ele também tem um disco do Tom Jobim e me apelidou de 'Ceci'. Ele não é um amor?" Cecília quase parecia cruel, até que sua voz trêmula no final da mensagem a entregou. Cecília chorava. Cícero chorava. E assim aconteceu a despedida mais triste da história daqueles dois jovens. Pelo interfone. Cícero passou a mão nos olhos como se isso fosse maquiar a sua dor. Não queria que sua irmã soubesse o quanto o seu coração estava despedaçado. Ela não merecia isso. Dindi, sem entender nada do que estava acontecendo, perguntou a seu irmão: - Pra onde ela vai? Cícero respondeu, se referindo à moça, as lembranças, e todas as coisas bonitas da vida que antes de Cecília não eram tão claras para ele: - Elas? Depois de alguns segundos de silêncio externo e escarcéu interno, concluiu: - ... embora. Sentou-se novamente à mesa e, segurando o pranto que insistia em ser derramado, olhou para sua irmã e disse: - Ah, Dindi... Se tu soubesse como machuca, não amaria mais ninguém. Ah, se tu soubesse... Não contaria pra ninguém. Layla Martins.
Ah, Dindi Se tu soubesse como machuca Não amaria mais ninguém
Cícero