Piscadelas: uma criança, uma aldeia
por Renata Lins
"É preciso toda uma aldeia para educar uma criança". É bonito, né? Esse saber coletivo. Esse cuidar coletivo. Mas acho que a gente para pouco pra pensar o que isso implica. Uma aldeia. Toda uma aldeia. As crianças fazendo parte. Que são parte. As crianças não são dos pais, são da aldeia. São do grupo. Aí corta pra gente: cidade, apartamentos fechados, amontoados uns em cima dos outros. Gente que não se fala. Às vezes, nem no elevador. Às vezes, nem no corredor. A solidão da cidade grande: a gente fala disso também. Busca caminhos e espaços. A solidão dos pais. Das mães sem pais. Dos pais sem mães. Das crianças sem pai nem mãe. Das babás com crianças que cuidam das crianças dos outros. A necessidade das crianças aprenderem a ser gente ali naquele mundão que também é delas. “É”, no presente. Não "vai ser". É o mundo delas hoje. O latifúndio em que uma parte lhes cabe. Como a mim, como a você. O mundo, esse, é de todo mundo. O mundo dos velhos. O mundo dos novos. O mundo das crianças. Esse mundo. Vamos aprender a viver e a conviver. Nesse mundão de meu deus que é de todo mundo. Ou não será.













