Você e eu
Faz agora um longo tempo desde a primeira vez que te vi. Você me olhou como se tudo tivesse valido a pena (o que era esse tudo, eu nunca saberei) e eu te olhei como se só você existisse para mim (meu lugar seguro para sempre). Eu sei que teve outro antes de mim e que depois de mim seguiu-se mais uma para te partir em três, mas, naquele pequeno momento em que nos vimos pela primeira vez sempre será apenas você e eu.
E depois do primeiro olhar vieram, então, tantas outras primeiras vezes entre nós que nem sei por onde começar a lembrar… teve a primeira vez que te chamei desesperada, com medo de que você fosse embora e me abandonasse sozinha nesse planeta inóspito que tu insistes em chamar de lar. Teve, também, aquele primeiro passo vacilante em tua direção, onde meu medo de cair só era superado pelo teu entusiasmo genuíno em me ver andar até ti. Teve, um pouco depois, uma porção de cartas mal escritas, desenhos mal feitos e rimas desbotadas que você só gostou porque seu amor independia de meu talento não lapidado… Teve vários outros momentos em que o mundo ficava de lado e nos tornávamos apenas você e eu.
Então, os anos passaram e nosso ‘você e eu’ foram ficando mais raros… medrosos… distantes… foram tempos difíceis em busca de algo voltado tanto para o ‘eu’ que esqueci de contar que você (com natais fora de época, apoio incondicional, experimentos gastronômicos estranhos e risonhos, aquela mão que me dava força em meio a cada doença, aquelas piadas ruins, a canção de ninar que me acalentava durante a febre, a palavra que me impulsionava mais para frente…) ainda era meu lugar seguro para sempre. Quando olho para trás eu percebo o quanto esqueci de te mostrar a importância que tinha em minha vida e em minha formação como a pessoa que fui e que serei, e, me arrependo de não ter sabido contar para a pessoa que me assistiu dançar mal e cantar desafinadamente naquele palco mal decorado e escuro por 10 minutos (acredite em mim isso é MUITO tempo…) que era ela e só ela para sempre.
Quando entendi que independente da queda do mundo era tu quem me acolheria eu sinto que perdi um longo tempo longe… mas tu me acolheste de braços abertos e me ofereceu tua mais sincera amizade enquanto caminhávamos fazendo planos para todos os lugares que queremos conhecer (de motorhome ou a pé) e todos os bares nos quais queremos beber até termos mais e mais histórias para contar. Entendi que independe de entender-me ou não, tu lutou e luta cada uma das batalhas ao meu lado… obrigada por tentar entender minhas escolhas tortas e certas. Ao teu lado eu sou feliz.
Faz agora um longo tempo desde a primeira vez que te vi e anseio que falte um tempo mais longo ainda para a última, e, espero que nesse intervalo ainda existam muitos momentos em que sejam apenas você e eu… (moldando e transformando nossos corações por meio de emoções coloridas)
Te amo mais que tudo que existe em mim. Obrigada por nunca ter desistido ou ido embora e que o tudo seja realmente Tudo... minha mãe.
(03.05.22)









