Memórias póstumas
O que significa viver? Durante toda a vida me perguntei se viver não era mais uma ilusão criada de se estar vivo. Mais um jogo suicida de provas e inúmeras expiações, onde o homem que se achava rei, num tabuleiro imenso de xadrez, não passava de um mero cavalo. Ouvi dizer que quando não se encontra motivos para viver, significa que naquele momento, você está morto. E eu morri. Cravaram-me penas dolorosas e não resisti. Os muitos tombos lesionaram a a orta da minha existência. Havia morrido quando ouvi que era insuficiente. Morri naquele momento em uma faca apunhalou meu peito e sangrei, sorrindo. Noutra vez, que socaram-me a face sem motivo aparente. Morri quando fui jogado às cobras e, duvidaram da minha fala. Morri quando inúmeras vezes tentei levantar e fui impedido. Morri na chegada, morri no caminho e no final da corrida. Mataram-me pouco a pouco e, vitoriosos celebraram meu velório sem piedade. Gozaram e riram das maldades enquanto o defunto ainda esfriava.
Subiu numa cadeira ao lado do carro da mãe, orou pela última vez, mesmo sabendo que não teria salvação. Não queria. Havia cansado e chorado dias seguidos em silêncio. Pediu ajuda em textos, disfarçou imaginando que ficaria bem no final, mas não ficou. Orou e pediu a Deus que o deixasse perdido no vale das sombras, por que era o que merecia. Puniu-se para não punir os falsos punidores. E morto, póstumo não seria lembrado. Seria envolto num tabu marcado de segredos enquanto a cidade toda questionava: “Por quê?” E o defunto nunca respondeu.
“Tão fraco e sensível, um moleque mimado. Sempre teve de tudo e morreu infeliz”. Escutou outro dizer: “Ah, ele foi bom amante, bom trepador e não reproduziu. Poderia ter deixado pelo menos um filho. Nem para isso serviu, coitado”. Em seguida, a mãe estática relembrara do dia em que pediu para que ele suicidasse logo, já que andava sempre doente a dar gastos. Não chorava e apenas observava catatônica o filho partir. A ex amante que muitas vezes desejou sua morte, em visível desespero a cobrir-se de culpa. Viu a depressão arrancar-lhe os cabelos, a felicidade e a vontade de viver. Ela o traíra e no seu último ato de misericórdia, desejou-lhe a morte. E a morte a ele havia chegado. Ela mais tarde descobriu que o amava. Ao pai, restou-lhe espiar de fora, já que fora impedido de entrar. O pai? O pai era quem havia lhe socado a face, dito que o odiava e que ele era fraco. Ceifou-lhe os sonhos e suas vértebras. Calado sofria seu purgatório de culpa, mas a vida seguiria. E a morte daquele que amor foi, assustou a todos. Disseram que ele suicidou-se, mas o enigma ainda seria lançado: será se não que sua morte não fora o resultado de todas as ações que a ele foram impostas? Será se nenhum dos citados não tiveram suas parcelas de culpa? Mas o responsável havia sido ele pela morte. A ele recaiu a fraqueza por ter sido forte demais. A ele recaiu mais uma vez a culpa. E culpado foi. Não voltou, se prendeu ao vale de torturas e não pediu ajuda. Calou-se em sua dor que perdurou a eternidade. Ele era amor, mas o amor lhe consumiu as vísceras e os sorrisos. Resumiu: o amor mata. E o matou.














