Se havia algo que Ryan Roosevelt nunca tinha imaginado para si era ser rei dos Estados Unidos da América. Não que não se visse capaz ou não estivesse preparado, mas porque não estava nos planos da realeza que ele fosse. Ele não era o herdeiro.
No entanto a vida é cheia de reviravoltas e ele começou apenas como rei regente, tomando conta de um país temporariamente. Inseguro por dentro, mas se mostrando forte por fora e quando se notou, Ryan tornou-se rei e deu tudo de si para seu país assim como fazia quando era piloto de caça da Força Aérea Americana.
Ryan era o raio antes do trovão.
Sentia-se absurdamente mais velho do que há cinco anos. Não era fácil ser rei e muito menos de uma nação tão poderosa. Estava agradecido de poder contar com tanto apoio que recebia e também de ter escolhido Roan e Luna para estar em seu Conselho. Quanto a seu pai, esses conselhos vinham mais informais mas não menos sábios, assim como os de Rhaella.
O que mais deixava Ryan feliz olhando esses últimos anos era ver que o povo gostava dele e isso não era só porque ele era um bom homem. Era também porque ele não apenas sentou em um trono e aceitou o título de rei, mas ele fez melhorias do país. Aumentou alianças com outros países, restabeleceu os contatos com a China, focou nos problemas internos e tentou os resolver. Focou no povo e em suas necessidades. Continuou o bom trabalho que seu pai fazia.
Era cedo e a festa de comemoração da chegada de seu terceiro filho (ou filha?) ainda não tinha começado. Da janela de seu escritório ele observava de fora dos muros do palácio, para a rua movimentada. Muita coisa ainda precisava ser feita para seu país e seu povo. Não eram uma nação perfeita mas Ryan tinha ciência disso e faria o que pudesse para tornar os EUA o mais próximo do país ideal. Não faria isso sozinho. Nunca estava sozinho.
Thorn nunca tinha viajado pelo espaço tempo em seus 25 anos de vida.
Era 1377 e tal teoria nem sequer sonhava em existir. O jovem guerreiro tinha praticamente acabado de ganhar sua benção do Deus da guerra e, com a sua incapacidade de envelhecer, havia lutado ao lado de Eduardo III, rei da Inglaterra até aquela época, e participado de conselhos que dariam início posteriormente à Guerra dos Cem anos. Aquilo tudo era quase como uma brincadeira para Thorn, que nem sequer entendia ainda o motivo de todos aqueles conflitos. Ele era um garoto órfão, filho de mãe anônima e pagã, e tinha descoberto a pouco tempo que tudo o que cresceu acreditando era, na verdade, real. A promessa do rei de uma boa vida era o que o mantinha ainda à mercer de seus comandos, a dívida só aumentando a cada noite de farra e contos entre tavernas mal frequentadas. Foi então que, com uma visita inesperada, sua vida virou de cabeça para baixo.
Thorn caminhava entre becos e vielas imundos com a companhia apenas dos ratos naquela madrugada, a visão turva pelo tanto de cerveja que havia bebido nas últimas horas. Vez ou outra uma risada lhe escapava sem ele nem sequer sabia o motivo, quando um homem simplesmente se materializou em seu caminho. Era tarde demais, estava escuro demais, e qualquer guerreiro saberia distinguir, estando bêbado ou não, que nada bom viria de um encontro àquela hora. Pensou, a princípio, que fosse mais um dos monstros com a qual estava acostumado a lutar desde pouco mais de 14 anos, quando foi capturado pelos mercadores e permaneceu preso nas masmorras para servir de entretenimento ao clube de luta clandestino. Eles costumavam aparecer as vezes como outros homens ou mulheres, ou até mesmo como grandes animais, mas logo transformavam-se em sua verdadeira forma. Claro que os mortais eram incapazes de vê-los devido à alguma magia que lhe era ainda desconhecida, mas ele os enxergava com mais clareza a cada ano que passava. Porém, aquele homem não era um deles, e a constatação do não óbvio fez seu corpo relaxar.
O homem se aproximou a passos calmos, a expressão mais do que indiferente, como se aquela visão não fosse nenhuma novidade. As mãos entrelaçadas permaneceram atrás das costas quando ele parou à frente de Thorn, e o sorriso sutil no canto da boca remexeu algo dentro do garoto, como algo familiar a si mesmo. Muito embora Thorn já fosse uma figura popular entre a guarda real, ainda não passava de um garoto, principalmente aos olhos do pai.
“Talvez isso possa doer, ou causar enjoo... mortais nem sequer sobreviveriam” o homem havia dito.
E primeiro veio o enjoo. Thorn não teve tempo de sacar sua espada, estava bêbado demais para que seus reflexos funcionassem de forma eficiente, quando foi arremessado pelo espaço-tempo ao toque da mão de Caos em seu ombro. Naquela época a única coisa que conseguia pensar era que estava em um sonho. Um sonho muito louco. Não era nada confortável aquela viagem, pelo contrário, sentia cada partícula do seu corpo diminuir e esticar-se como se fosse uma mola, o ouvindo zunindo e a dor pressionando cada osso do seu corpo. Quando finalmente parou, ele se viu jogado no chão de areia do que posteriormente reconheceria como a ilha de Creta. Nem sequer teve tempo de perguntar onde estava e quem era a figura com quem havia viajado pelo o que pareciam segundos, quando vomitou toda a bebida que havia ingerido. Ao erguer os olhos, ele podia ver o homem o olhando com uma mistura de desprezo e diversão, mas antes que pudesse questiona-lo o garoto sentiu uma forte pressão em sua mente, a visão escurecendo gradativamente antes de o semideus simplesmente apagar no meio da praia.
Quando acordou, Caos estava sentado em uma cadeira de frente para ele, remexendo uma adaga entre as mãos ágeis. Thorn vasculhou o lugar com os olhos verdes desconfiados, até que estes reconheceram o teto de uma cabana de palha, utensílios de cozinha precários e quase nenhum móvel. A visão parou na figura a sua frente, que agora o observava divertidamente. A cor dos olhos eram praticamente iguais aos seus.
“O grande guerreiro abençoado por Ares...” a voz de Caos era como um som nunca ouvido antes, grave e melódica, cheia de notas e ao mesmo tempo vazia de todas elas. Como uma hipnose. “... eu realmente esperava mais. Bêbado contando lorotas no meio de um beco qualquer? Você realmente não aprendeu nada? Parece que a essência de um rato de canal está em seu sangue” ele se levantou abruptamente, caminhando de um lado ao outro pelo pequeno cômodo.
Thorn procurou por algo com a qual pudesse se defender mas a espada que carregava consigo na noite anterior estava distante demais de seu alcance. Algo naquela presença o intimidava e o admirava ao mesmo tempo. Contudo, de tudo o que estava sentindo naquele momento, o medo era a sensação mais forte.
“Quem é você?” foi a única coisa que saiu de sua boca desde que havia encontrado o Deus. Sim, Deus, agora ele sabia -- ou achava que sabia. A menção ao Deus da Guerra havia clareado a sua mente pelo menos um pouco. “O que você quer?” embora quisesse que suas palavras fossem ameaçadoras o que acabou por proferir foi um ruído baixo, quase engasgado pelo medo que sentia.
Caos virou-se para encará-lo, o rosto se transformando em uma careta irritada. A mão livre da adaga abria e fechava sem parar, os dedos indo de encontro à boca e a testa como se o mandasse se calar. “Shhhh, estou pensando o que faço com você!” Thorn já havia visto alguns maníacos e aquela postura indicava que estava na frente de mais um. “Ora, onde já se viu, pensar que Ares é seu pai! Ares?!” a risada abafada e incrédula de Caos embrulhou o seu estômago. A lembrança da vez em que Ares o havia visitado e o tirado das masmorras, antes de ter lhe presentado com a benção, surgiu em sua mente. Naquele dia havia descoberto, por alguém que não era seu pai, sua verdadeira identidade. Não havia sido reclamado por nenhum Deus desde então, mas se pudesse escolher, teria escolhido ser filho de Ares. E talvez uma pequena parte de si tinha esperanças quanto àquilo. Fora ele que o tinha tirado do fundo do poço e lhe dado a gloria eterna, afinal.
Mas agora, diante do que acabara de ouvir, algo lhe dizia que aquela esperança era terrivelmente perigosa.
“Graças a ele você agora é imortal, mas se acha que vai sobreviver sem minha ajuda está completamente enganado” ele completou, aproximando-se de Thorn e logo puxando a cadeira mais para perto do catre que o mais novo permanecia desesperadamente inerte. “Eu quem sou seu pai, eu sou o criador! E você... você é um moleque burro, inconsequente e deslumbrado!” a tranquilidade com a qual ele falava era quase incompreensível. Thorn esperava que Caos o dilacerasse com meras palavras mas o que conseguia enxergar era quase como uma criança mimada depois que haviam tirado seu doce e entregue ao irmão mais novo “Se continuar sendo um peão no jogo entre reis muito em breve eles vão descobrir que você não pode envelhecer, e ai ou vão te queimar na fogueira junto com qualquer mulher que quiserem nomear como a bruxa que te enfeitiçou. Se acha que vão te endeusar por ser imortal está enganado! Ares não lhe deu uma benção, ele brincou com você! Nessa época reis mortais não querem ninguém além deles no poder, e você se tornará uma ameaça, um alvo...” as pernas de Caos agora cruzavam-se em cima de um banquinho, um sorriso gélido pairando em seus lábios.
“Você até pode ser um imortal, mas jamais será um Deus.” não era uma ameaça, embora Thorn quase ficasse tentado a acreditar. Se Caos era um Deus então era coerente que não quisesse que um mero filho seu se tornasse seu igual. “As crianças iriam te caçar até que não sobrasse um mísero pedacinho seu. Eles são mimados, os Deuses...” seu tom era gracioso, como se perder o filho para a guerra dos Deuses fosse algo divertido. “Além disso você não é filho de um Deus qualquer, eu sou Caos, o primeiro dos Deuses, o mais velho entre todos eles! E você não pode ficar vagando por ai como se fosse igual aos filhos deles...” seu tom agora tinha um que de vaidade. Como se a ideia daquilo fosse inadmissível. Foi então que Thorn começou a compreender. Entre os Deuses existia uma hierarquia, ele era o fruto das brincadeiras pessoais dos Deuses. Nada era mais como ele havia imaginado, nem como sua mãe imaginaria. Ela sabia da verdade? Pretendia lhe dizer antes de morrer? Ele era muito jovem quando ela morreu e voltar no passado seria impossível.
“Eu vou fazer de você um grande guerreiro....ainda maior do que Aquiles foi! E logo deixará de servir a reinos, servirá apenas a mim e será um dos grandes guerreiros da história... meu filho!” o tom sonhador de Caos perturbava Thorn em todo o seu ser. Em um dia era órfão, em outro havia recebido uma missão e a benção de um Deus, em outro estava diante do seu pai que jamais havia aparecido para si antes, e que agora queria fazer dele o maior guerreiro da história.
Algo lhe dizia que deixaria de ser um peão de um lado e passaria para outro, e nada mudaria de verdade.
Caos manobrou a adaga entre as mãos e em seguida apontou-a para Thorn, que continuava estupefato na cama. O Deus ergueu a mão livre e com alguns estalos dos dedos todo o cenário mudou a sua volta. Estavam no meio de uma arena de combate Grega, só bastava saber se era tudo real ou apenas uma ilusão. “...mas para isso tem que levantar essa bunda daí e começar a lutar. Vamos ver o que você sabe fazer!”
→ message from 엄마 às 8h: Eu já sei que está com você.
→ message from 엄마 às 8h01min: Daewi, preciso que você devolva antes que eles desconfiam de minha demora. Eu sei que irá fazer a escolha certa.
→ message from 엄마 às 8h30min: Eu fiz o que tinha que fazer por nossa família.
→ message from 엄마 às 8h33min: Daewi, filho, eu preciso do envelope.
→ message to 엄마 às 8h40min: volto para jeju no sábado!
→ message from 엄마 às 8h40min: Não é para sábado, filho. Pegue um avião agora.
→ message from 엄마 às 8h42min: Me diga em quanto tempo chega no aeroporto para eu providenciar a passagem.
→ message from 엄마 às 8h50min: Daewi?
→ message from 엄마 às 9h: Não ignore sua mãe mais do que vem fazendo por todo esse tempo. Eu te amo, você sabe disso.
→ message from 엄마 às 17h: Tudo o que faço é para proteger seu pai e você.
𝐒𝐄𝐗𝐓𝐀-𝐅𝐄𝐈𝐑𝐀, 𝟑𝟎/𝟎𝟒.
Pensou que se vomitasse, o almoço e o coração sairiam juntos. Foi difícil não fazer quando se deparou com a bagunça que agora era o apartamento de Jongup.
O primeiro sinal foi na porta que se encontrava encostada. Não fechada, mas encostada. Tinham certeza de que não havia sido assim que a deixaram quando saíram para a viagem, dias atrás. Daewi tinha certeza, como oxigênio é necessário para respirarem, que havia deixado a porta fechada – e trancada.
O segundo sinal foi mais como sinais quase equivalentes à placas de neon apontadas para todas as direções. Do sofá afastado ao tapete virado às gavetas arrancadas do armário da sala. O mesmo havia acontecido com a cozinha; e não foi surpresa quando o cenário se repetiu nos demais cômodos, livros e papéis fazendo parte de um cenário e outro e roupas para todos os lados em um específico. Mas, aparentemente, nada de valor havia sido levado – a televisão continuava no mesmo lugar, o videogame agora só estava no chão, o computador ainda estava na mesinha.
Se precisavam mais do que aquilo para saber que o apartamento havia sido invadido e revirado, que algo em específico tinha sido procurado, então as definições de realidade precisariam ser atualizadas.
Mas o quê o fez sentir como colocando tudo para fora depois de um soco no estômago, foi reconhecer o que realmente havia acontecido ali.
Pela primeira vez naquele (eterno) um mês, precisou usar o cartão de crédito. Não importava o preço da passagem para Jeju, porque tempo não estava sendo um amigo.
A única mochila que havia levado consigo quando deixou sua casa, sua terra natal e sua cidade - quando deixou todos seus vinte anos de vida -, também era a voltava consigo. Mas não mais tinha um kit (ridículo) improvisado de sobrevivência. Fazia-se praticamente vazia, feita principalmente para guardar o envelope amarelado que bagunçou toda sua percepção de vida.
Esse mesmo envelope que queriam aqueles que invadiram o apartamento - e que precisava entregar à Hera, antes que outra tempestade alcançasse aqueles com quem se importava.
→ message to 엄마 às 16h32: as portas do avião fecharam. estou voltando.