I FEEL LIKE I'M CONDEMNED TO WEAR SOMEONE ELSE'S HELL (third day of a seven day binge)
07.01 Um novo rastro de destruição que desemboca no retorno ao Aletheia.
Alex se levantou de supetão, cambaleante, apoiando-se, então, na beirada da cama, porque somado ao sono inconsciente e ao índice alto de tantas substâncias, seu corpo ainda não lhe obedecia direito. A mente, porém, estava acelerada, ativa demais, muitíssimo pronta para perturbá-lo como sempre: as emoções não vinham separadas, mas amalgamavam-se entre si, como a confusão de não saber como chegara ali, a paranoia crescente, a raiva antiga reacendida com violência, a humilhação que nunca passou e que só trouxera à tona toda a trajetória permeada por censura, limitações e dores de todo tipo.
Respirou fundo e tentou recuperar parte dos sentidos. Estava descalço, somente com a calça de moletom que tendia a usar mesmo quando pegava voos e agora que procurava seu celular, levou algum tempo até constatar que não estava por perto, fazendo-o zanzar mais um pouco pelo quarto, chegando à conclusão, também, de que havia perdido o aparelho de fato, sobretudo porque isso já havia acontecido na Indonésia. Sentia o maxilar doendo por conta das últimas noites de viagem, da briga na qual havia se enfiado de forma totalmente gratuita, como também sentia o corpo dar indícios de que já estava sofrendo com alguma abstinência, provando que não, ele não fora até Santorini por estar tão drogado quanto achou que estaria ao ir até a janela e constatar que conhecia aquela vista. Mas o que diabos estava fazendo ali, então?
E, instantaneamente, alguns nomes lhe vieram à mente, aprofundando sua preocupação ou mesmo necessidade, por algum motivo, de saber como estavam, ainda que fosse incapaz de saber que também estavam de volta ao Aletheia. Rostos como os de Vivian, Beatrice, Michiel, Eric, Bouchard, Olívia e até mesmo Ophelia, vieram-lhe à mente. Talvez vislumbres do que havia vivido com cada uma daquelas pessoas, mas, ao mesmo tempo, não parecia ser o caso. Esmeralda também era um nome que tilintava em seu cérebro, urrando num lembrete de procurá-la para atualizar o quão próximo do próprio fim estivera, ainda estava, mas sem o desejo necessário de rumar em direção a ele.
Pensamento este que se dissipou tão rápido quanto surgiu, engolido por uma sensação mais concreta: a de estar fora de lugar dentro do próprio corpo, fazendo com que Alex passasse a mão pelo rosto, pressionando os olhos por um instante maior do que o necessário, como se isso pudesse reorganizar o que havia se partido durante aquelas horas perdidas. Entretanto, quando tornou a abri-los, o quarto continuava o mesmo, naquela vibe clara, organizada, real demais para alguém que acordara sem passado imediato. Ainda mais quando esse alguém era ele.
Começou a andar, primeiro devagar, depois com mais firmeza, inspecionando um território conhecido e, ainda assim, hostil, como Ares realmente faria após batalhas em confins. Na mesa próxima à parede, os objetos estavam dispostos com um cuidado que também não combinava com o Crowther: carteira fechada, as chaves alinhadas ao lado, um relógio pousado como se tivesse sido retirado no fim de um dia absolutamente comum. Alex franziu o cenho, pensativo. Impossível. Até que abriu a carteira e atestou que tudo estava ali. Documentos, cartões, dinheiro. Nada faltava.
— Não faço ideia de que porra tá acontecendo. — Murmurou para ninguém, também gemendo baixo por conta da dor de cabeça que sentia.
Foi até a janela novamente. Santorini estava ali, branca e azul, intocável, indiferente, fazendo-o retomar o pensamento de que conhecia aquela vista. Inconscientemente, sabendo que outros lugares tendiam a chamá-lo de volta, sobretudo quando envolviam o fundo do poço ou regiões perigosas para alguém com sua personalidade ou com sua história de vida. E, como a vista não tão distante de si, seu corpo também reagia em ondas, trazendo um desconforto rasteiro, depois uma pontada mais aguda, depois o cansaço pesado nos músculos. Abstinência. Não completa ainda, mas anunciada. Alex conhecia aquele ritmo como conhecia os próprios batimentos cardíacos, pensando, então, sem ironia, que algumas dependências eram mais fiéis do que qualquer pessoa que já passara por sua vida. Lamentavelmente.
Por fim, passou os dedos pelos cabelos e soltou uma risada curta, sem humor: aparentemente nunca havia tido havido outra opção. Havia pessoas feitas para serem lapidadas, ajustadas, corrigidas, enquanto outras eram moldadas para o impacto, para a força bruta, para atravessar as coisas mesmo que isso significasse se despedaçar no processo e, querendo ou não, Alexander sempre soubera, em algum nível, de qual grupo fazia parte.
Olhou em volta mais uma vez. O quarto continuava impecável. Ele, não.
Sentou-se na beirada da cama, o olhar perdido em um ponto indefinido do chão. Não havia resolução ali. Apenas uma constatação cansada, quase pacífica: ele sobreviveria, assim que se recuperasse da claridade do quarto contra os olhos ressacados. Não porque aprendera, não porque evoluíra — mas porque era isso que fazia. Resistir, cair, levantar e repetir. Sobretudo quando se tratavam dos mesmos erros e, agora, por mais que isso lhe custasse sua sanidade e integridade, não sentia mais a necessidade de negar isso. De negar a si mesmo, por conseguinte.
Então, o dia 7 começava do lado de fora e Alexander Crowther estava de volta exatamente onde havia se acabado tempos atrás.










