Task 02: Missões.
Helena não era, para ser justa, uma figura muito presente nas atividades do Acampamento. Se elas envolvessem qualquer tipo de luta ou altercação física, então, era certo que ela estaria de fora. Os meses que passaram não foram o suficiente para que Helena fizesse do Acampamento o seu lar e, às vezes, era quase inacreditável que o lugar seria sua morada derradeira. Justamente por causa dessa apatia, Hell considerou seriamente ignorar a proposta de Quíron: afinal de contas, ela nunca havia ido a uma missão. O dia estava lento, porém, e ela não tinha muito que fazer, o que foi o fator decisivo para ela tentar arriscar e mexer naquela ferida que ela tanto ignorava: o dia de seu resgate.
Se refugiou na caverna dos deuses, seu canto favorito do Acampamento, e deixou que o clima calmo do lugar tomasse conta de seu corpo enquanto considerava o que escrever na folha de papel que lhe foi entregue. O que sentia quando pensava naquele dia? Luto. Mágoa. Saudade. Terror.
Olhou fixamente para a folha de louro que lhe entregaram, considerando se faria mesmo aquilo. Seria saudável reviver as lembranças que tanto lhe faziam mal? Uma vez que desenterrasse esse passado, o que ela faria com ele?
Decidiu deixar de ser covarde ao menos por um momento e acendeu o isqueiro, ateando fogo à folhinha, e logo estava de volta na casa de sua infância, sentada à mesa de jantar com seus pais e seu namorado.
Jimmy não era um cara ruim, Helena pensava enquanto assistia àquele momento, a ansiedade em sua garganta por saber o que estava prestes a acontecer. Ele não era muito romântico, engraçado ou o melhor conversador do mundo, mas era estável e confiável. Não havia surpresas com Jimmy; ele tinha uma rotina e era fiel a ela, assim como era fiel a Helena. Se tudo isso não tivesse acontecido, talvez eles tivessem se casado e então Hell viveria seus últimos dias com segurança, mesmo que sem amor.
Seus pais também não eram ruins, pelo contrário; sempre deram tudo o que Helena queria e precisava, além de muito cuidado e proteção. Eles a amavam, mesmo que não a entendessem, e a filha de Macária sabia que suas excentricidades os preocupavam - era justamente por isso que tentava se adequar o máximo que pudesse. Eles não a entendiam, o que estava tudo bem, porque Helena os entendia e sabia o que eles precisavam. Ela sabia o que todos precisavam, e estava mais do que disposta a oferecer isso.
Haviam coisas, porém, que a semideusa simplesmente não podia evitar, e sua essência era uma delas; que se esconda atrás de roupas entediantes, faculdades seguras e amigos previsíveis, nada disso é capaz de disfarçar seu cheiro divino quando há um grupo de harpias por perto. Os quatro monstros, famintos e ambiciosos, invadiram a sua casa e atacaram seus habitantes em uma carnificina que ficaria para sempre gravada na memória de Helena. A jovem mulher gritou, desesperada, mas nada era capaz de distrair as harpias de seu jantar, e a semideusa teria feito parte do cardápio não fosse pela Fúria que adentrou o lugar, matou as harpias e tirou Helena dali, a levando para o Acampamento.
Sua casa normal, seus pais normais, seu namorado normal. Tudo destruído em questão de minutos e, ainda que Hell não soubesse, tudo por causa dela.
A cena se rebobinou, então, e voltou a circular desde antes do ataque das harpias. Desta vez, quando os monstros aparecem, Helena tenta distraí-los para fora da casa, na tentativa de se sacrificar para salvar os outros, mas nada acontece; eufóricas pela visão de tanta carne fresca, as harpias ignoram aquela que era o seu alvo inicial.
Não adianta, uma voz familiar sussurrou em seu ouvido. Ainda é 2023. Sua hora ainda não chegou.
Helena estava de volta na caverna dos deuses, os olhos fixos no nada enquanto considerava tudo o que havia acontecido em sua visão. A mulher que tanto se considerava dona de seu destino começou a entender que aquelas eram engrenagens sobre as quais ela não tinha poder algum; sua morte pertencia a si, mas a hora dela estava nas mãos das Parcas.
O que vou fazer até lá?, ela perguntou para o nada. Tem alguma coisa que eu possa fazer?
O nada se manteve em silêncio. Só havia uma forma de descobrir.
@silencehq














