O café esfria
De repente, o café parou de abraçar. O calor da xícara virou frio nas mãos, e o cheiro da manhã perdeu o rumo.
Os abraços que não repeti continuam pesando nos ombros, como se ainda esperassem retorno.
De repente, as palavras secaram, mas o choro não vinha. E no olhar de um cachorro cansado encontrei tudo o que não consegui dizer.
Pensei em te contar das minhas vitórias, das vezes que quase desisti, dos desenhos que ainda guardam seu riso. Mas a voz ficou trancada, presa entre o medo e o costume do silêncio.
Seu lar se desfez em pedaços, dividido em caixas e lembranças, e mesmo assim você continua em cada canto de quem te amou.
Às vezes ainda penso em te levar um pedaço de bolo, mesmo sabendo que agora meu gesto não encontra endereço.
Choro o que antes não consegui, não por fraqueza, mas porque aprendi que o luto também mora na calma, no gesto pequeno, na memória que já não fere.
Nem todo luto é feito de lágrimas. Às vezes ele apenas se senta ao nosso lado, sem dizer nada, esperando que o silêncio nos abrace de volta.











