É lindo quando as máscaras caem e a gente se mostra por inteiro, quando tudo vira motivo para deixar as melhores sensações fluírem. Nunca achei que amar fosse algo feio, então, por que fingir que o que queremos é um final feliz? Por que viver escondendo o que nos faz feliz?
Houve um tempo em que o armário era meu esconderijo, mas isso não durou muito. No meio de tantos comentários e críticas, ninguém sabia o que eu sentia, o que se passava nessa linda cabecinha que não é só feita de alargadores e piercings. Tudo o que eu queria era ser feliz com minhas escolhas. Assumi minha homossexualidade com 14 anos e, aos 16, isso veio a público junto com um relacionamento às escondidas. Ele nunca soube o que queria, mas eu já tinha certeza de que havia um traço diferente na minha genética, e isso não podia ser meu maior segredo.
Minha mãe era solteira; sempre fomos eu, ela e minha irmã mais velha. Quando criança, eu era criança, então não me assumi por causa dos comentários. Por fim, o falatório parou, e eu percebi que as pessoas falavam da vida dos outros porque precisavam de certezas. Então, lá estava eu, gay assumido. Na minha família, tudo estava bem. Minha educação sempre foi a melhor, então meus pais tinham certeza de que eu não seria uma má pessoa.
Sou filho único do meu pai, e ele sempre sonhou com um filho homem, mas não gay. No início, tivemos muitos anos de distância. Às vezes eu o via uma vez por ano, quando não estava na casa dos meus avós. Isso também era raro. Meu pai é legal, mas tem o jeito dele de ver as coisas. Ele me exigiu a verdade muitas vezes, e sempre que entrávamos nesse assunto, ele acabava chorando ou irritado. Graças a Deus, ele nunca levantou a mão para mim. De alguma forma, sou grato a ele por, mesmo com muitas informações, sempre preferir ser meu amigo. Ele teve suas fases ausentes, mas hoje, com quase 33 anos, consigo entender muita coisa. Nós não falamos dos meus relacionamentos, mas sim das minhas expectativas para a vida, e isso é ótimo. Fico pensando: “Meu pai bebe a cerveja ou a cerveja bebe ele?” Brincadeiras à parte, tivemos nossas fases ruins, e eu percebi que meu pai também tinha os traumas dele, mas nem por isso ele levava as coisas para um lado pesado. Já nos agredimos com palavras, sim, mas fisicamente, jamais.
Houve uma fase da minha vida em que eu só brigava com ele. Às vezes eu pensava: "Qual é a história do meu pai? O que se passou na cabeça dele para ele falar isso?". E, honestamente, eu parei de pensar e só deixei as coisas acontecerem. Apesar de todo o passado, temos um bom relacionamento.
A ausência dói pra caralho, mas com o tempo tudo foi resolvido.
Mas, voltando ao que mascaramos para sermos felizes, nem todos têm a sorte que eu tive de uma aceitação familiar. O outro já não tinha tanto contato com a família, mas o que ele conhecia como família era o carinho de quem havia cuidado dele quando pequeno. O outro também cresceu em uma família onde, não sei como, ele colocou na cabeça que eu tinha que esconder sua homossexualidade. Não sei bem quem é mais birrento.
Tivemos muitas escolhas e, pelo visto, ele não teve nenhuma. Era impossível não pensar nele; era a questão que mais rendia assunto entre a gente. Todo fim de conversa era uma despedida diferente. Aquele jeitinho dele nunca me enganou. Eu falei sobre você para ele, chamei-o várias vezes na cama entre um suspiro e outro, e com desculpas intermináveis. O sentimento era maior, tudo nele era diferente. A pergunta que não queria calar em mim era: “Você continua mesmo pelo sexo, ou porque sabe que depois de uma garrafa de vodca e algumas cervejas eu só penso nele, que você era algo novo?”. Eu sei que fui fraco demonstrando todas as minhas dores, mas essas dores não eram só dores, era um desejo de estar completamente entregue a alguém.
Você era o novo. Eu só me entrego se realmente tiver sentimento, e por você, eu sempre tive os melhores. Solteiro, na flor da idade, inteligente, bom de conversar, doce que nem limão azedo, mas sempre com um bom coração, e isso já me ganha. Lembro que bati o olho em você e pensei: “Quem é essa merda de filho da puta que brotou no meu rolê com meus amigos a convite do mais descolado e 'transante' da turma?”. Você veio, nada muito comum: um All Star branco, bermuda jeans e uma regata amarela, tipo universitário se lascando para ser alguém. Já eu, sempre fui o tipo punk de butique. Que rico isso.
Eu realmente pensei: "Já gostei". Você me olhou nos olhos. Não sei se você só entendeu que meu nome era Sol, ou se eu estava chapado de maconha o suficiente para não conseguir... não vi nada de errado, você conversou muito comigo naquele dia. Eu quase não consegui falar, logo eu que falo pra caralho. Voltei para casa e pensei: "Porra, tô fodido com alguém que não se assume nem por decreto. Vou continuar ali pra quê? Pra sofrer só mais um pouquinho?".
"Não, espera aí, vou me arriscar com esse maluco". De alguma forma, eu sabia que você queria. De primeira, não peguei seu contato. Eram somente encontros em rolês, tipo o que aconteceu de forma inesperada. "Vamos ali mijar, eu balanço pra você". Foi esse o papo. Mijamos e, no final, demos nosso primeiro beijo. Depois daquilo, eu não te vi mais. Colocava minhas amigas para conversar contigo, porque eu era ruim de papo diário. Eu sou neurótico, lunático e possessivo.
Ele foi caindo no esquecimento, a distância também colaborou muito para isso. Logo, ele já era apenas uma lembrança. Ele já tinha aparecido com uns amigos em vários rolês para ver se pegava nós dois juntos. A rotina de ir para a Lapa toda sexta com os mesmos amigos era o que o deixava em paz. Até você enviar aquele pedido meses depois. Aquilo o deixou sem chão. Ele gritou: “Seja feliz com seu novo bonequinho Ken, só falta você virar a Barbie!”. Mas não era sobre isso, era sobre quem tinha o direito de achar que eu iria viver submisso a toda aquela situação. A aceitação dos meus pais já basta. Ele não entendia que eu tinha encontrado você, e mesmo apaixonado por ele, eu larguei tudo o que tínhamos por você. Foi sem briga, somente ironias, e está tudo bem. Quem nunca decepcionou, né?
Dessa vez era diferente, eu estava magoando, mentindo, enganando. O amargo desse doce. Eu escrevia músicas para você. Eu, com os melhores arranjos. Que inocente você, Saulinho, meigo que nem coice, jamais se trocaria por ninguém. Partiu o coração do Brendon Urie, acabou Panic! at the Disco. Tá bom pra você?