Trinity Blood - Reborn on the Mars
Volume II - Anjo das Areias Escaldantes
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⚠️ ESSA OBRA EM HIPÓTESE ALGUMA É DE MINHA AUTORIA. TRADUÇÃO REALIZADA DE FÃ PARA FÃS. NÃO REPUBLIQUE OU POSTE EM OUTRAS PLATAFORMAS SEM AUTORIZAÇÃO. SE CASO POSSÍVEL, DÊ SUPORTE AOS AUTORES E ARTISTAS COMPRANDO AS OBRAS ORIGINAIS. ⚠️
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Capítulo 3: O Estigma do Pecador
— Fui ferido pela vara da ira do Senhor e conheci o sofrimento.
Fui expulso para vagar nas trevas, caminho sem forças.
(Lamentações, capítulo 3, versículo 23 – Versão Japonesa)
Mesmo antes do pôr do sol, as pessoas começavam a desaparecer das ruas.
No mercado (souk), que normalmente permanecia barulhento até altas horas da noite, os compradores, com sacolas nos braços, apressavam-se de volta para casa. Nas portas das tavernas e cassinos — que deveriam estar entrando na hora de maior movimento — balançavam, indiferentes, placas de 'Fechado'. Na Cidade Antiga (Medina), envolta pelo manto azul do anoitecer, quem agora caminhava imponentemente, no lugar dos bêbados habituais, era um grupo vestido de preto em uniformes de combate, com submetralhadoras penduradas nos ombros.
Faltavam apenas dez minutos para o toque de recolher, decretado três dias antes, entrar em vigor. A cidade de Cartago ia, perdendo a olhos vistos sua vitalidade.
— Isso é surpreendente... Parece até uma lei marcial, não?
Não... talvez fosse ainda pior que uma lei marcial.
Pelo menos, sob uma lei marcial, os responsáveis pela repressão seriam as forças armadas da própria nação. Mas agora, os que rondavam pelas ruas de Cartago... não eram do exército cartaginês. Na verdade, nem sequer eram militares. No pedestal da estátua de Santa Elissa — uma cavaleira imponente, trajando uma armadura reluzente, erguida diante da Grande Catedral —, quem fitava a rua com olhos vigilantes era um soldado vestido de preto, com uniforme de combate. No colarinho de sua farda, reluzia um emblema em forma de 'Vineam Domini', o Martelo de Deus — o brasão da infame unidade especial antiterrorista do Vaticano, os Carabinieri, a polícia secreta especial.
— Poxa... isso complicou as coisas. Assim, não tem como eu chegar até a embaixada. Que situação, que situação.
Enquanto isso, um dos pedestres que caminhava cabisbaixo — um beduíno alto puxando um camelo — soltou um leve estalo de língua sob o turbante, bem aos pés de um jovem policial especial que havia desativado a trava de segurança da submetralhadora, pronto para atirar a qualquer momento.
Carregando um grande saco de papel, talvez ele tivesse vindo da vila no deserto para uma compra depois de muito tempo. Porém, se o policial especial de vigilância tivesse sido um pouco mais cauteloso, poderia ter notado que, entre o haik (manto tradicional) levantado até o rosto e o turbante abaixado até quase cobrir os olhos, o que se via não eram os olhos negros típicos dos cartagineses, mas sim olhos azuis como um lago no inverno. Poderia também ter percebido que os passos do homem com o saco de papel eram estranhamente desajeitados, como se estivesse ferido. Mas o carabinieri, distraído por um grupo de cidadãos lançando olhares cheios de hostilidade do outro lado da rua, não reparou na figura perigosa que passava bem ao seu lado.
— Bem, não tem jeito... Por hoje, só nos resta desistir de tentar entrar em contato com a Caterina-san.
Diante de um inimigo esmagadoramente poderoso, mesmo que quisesse se apressar, não havia o que fazer. Além disso, antes de mais nada, o próprio corpo dele, agora...
Passando calmamente bem na frente dos olhos dos carabineiros — os policiais especiais que o procuravam — Abel seguiu seu caminho.
O ferimento de bala aberto no ombro branco era horrível, mas ao redor dele já começava a se formar um tecido de granulação rosada. Assim, a menos que forçasse muito além do limite, provavelmente estaria completamente curado dentro de uma semana. Curar-se tanto em apenas três dias, mesmo depois de um dano tão grande... De fato, sob os padrões humanos, essa capacidade de recuperação era simplesmente impensável.
— Mas, até que esteja completamente curado, por favor, não mova o ombro direito, ok? Acho que o sangramento já parou, mas pode ser que o músculo acabe se rompendo de novo.
Com uma expressão séria, Esther transmitiu o aviso a seu paciente, que havia se sentado na cama. Tratar ferimentos era uma das habilidades que ela dominava desde seus tempos de partisana. Mesmo os movimentos com que aplicava o desinfetante e tornava a enfaixar a ferida eram firmes e sem hesitação.
— Mas, você teve sorte também. Se tivesse desviado só um pouco mais, teria atingido o coração.
— Teve sorte, hein... Radu também disse a mesma coisa.
O garoto, que estava meio sentado na cama encostada em um canto do quarto — para que nem por acaso a luz do sol pudesse entrar —, soltou um suspiro cansado. Mesmo deitado nessa cama encardida de uma hospedaria barata, sua pele translúcida e branca, e aquela beleza andrógina típica de quem ainda não completou o processo de diferenciação sexual, faziam-no parecer uma princesa saída de um conto de fadas. Para quem não soubesse a verdade, seria difícil perceber que ele era um garoto — ou até mesmo... que não era humano.
O garoto — Ion — mexia no lençol com seus dedos finos e, mais uma vez, soltou um suspiro profundo.
— Mas se ao menos eu tivesse morrido naquela hora, talvez nunca tivesse visto a traição de meu amigo. Se eu tivesse morrido lá, Radu jamais teria me traído.
— Que bobagem o senhor está dizendo?! De todo modo...
Diante das palavras sombrias do garoto, Esther ergueu a voz, alarmada. Quase em seguida, tentou abrir a boca para dizer algo que pudesse animá-lo, mas no fim, não conseguiu dizer nada; apenas abriu e fechou os lábios em vão, sem som algum.
Esther conhecia melhor do que ninguém aquela sensação de ter o coração agarrado com garras afiadas, a dor de ser traído por quem se acreditava. Ela mesma havia provado disso até não aguentar mais, lá nos túneis congelantes de sua terra natal. Justamente por compreender, como se fosse nela mesma, os sentimentos que agora inundavam o peito do garoto, qualquer palavra de consolo soaria vazia, e ela não conseguia pensar em nada apropriado para dizer. No fim, apenas abriu a boca inutilmente e suspirou baixo.
— Radu... era meu irmão de leite...
Sem buscar encontrar o olhar da freira, que havia silenciado, Ion continuou:
— Desde o nascimento, ele e eu sempre estivemos juntos. E ele era... meu único amigo e tovarăș.
“Então, eram amigos de infância? Mas, para isso, eles parecem ter uma diferença de idade bem grande... Ah, entendi.”
Enquanto ouvia o relato do garoto, Esther se pegou lembrando, de repente, das aulas que tinha recebido no centro de treinamento sobre a fisiologia dos Methuselahs.
Eles não nascem imortais. Os Methuselahs recém-nascidos possuem uma vitalidade não muito diferente da dos humanos e envelhecem normalmente. Por outro lado, não são feridos nem pelo sol nem pela prata. Eles só se tornam vampiros ao passarem por um processo que eles mesmos chamam de 'despertar'. Acredita-se que a época desse 'despertar' varie de indivíduo para indivíduo, e que a idade aparente seja determinada pelo momento em que ocorre. Provavelmente, Ion passou por esse 'despertar' mais cedo do que seu amigo...
— Eu sou um tolo... um tolo irremediável!
A voz áspera trouxe Esther de volta à realidade, e ela agarrou apressada a mão de Ion. Algo vermelho escorria por entre os dedos cerrados em um punho firme.
Mas, como se nem isso percebesse, o Methuselah ferido golpeou o lençol com o punho ensanguentado.
— Pelo bem dele, eu pensava que nem mesmo a vida me era preciosa! Se ele me pedisse para morrer, eu teria entregado essa vida de bom grado! E, ainda assim... nem percebi o quanto meu amigo estava atormentado até aquele ponto!
Olhando para os pequenos ombros trêmulos, Esther mordeu os lábios como se fosse ela a ser acusada.
Ela amaldiçoava sua própria inexperiência. Em momentos assim, que tipo de palavras uma pessoa realmente precisa?
A vida que cada um carrega é única. Esther não era arrogante a ponto de acreditar que poderia consolar o sofrimento alheio. Mas, ao menos, queria encontrar palavras capazes de suavizar aquela dor. Das palavras que já ouvira ao longo da vida, as que mais a alegraram quando estava desanimada foram...
— De-de qualquer forma, Excelência...
Esther proferiu essas palavras enquanto ainda segurava a mão do garoto.
— Eu estou do lado de Vossa Excelência!
Surpreso com aquelas palavras inesperadas, Ion levantou o rosto, franzindo as sobrancelhas como se até mesmo sua angústia tivesse sido esquecida.
— O que você está dizendo?
“Es... estraguei tudo...!”
Com a sensação de que seu rosto irradiava fogo, Esther mordeu os lábios. De repente, o que ela estava dizendo?
Apavorada, a jovem freira soltou as mãos que segurava e tentou se explicar, toda atrapalhada.
— Mesmo que Vossa Excelência se culpe o quanto for... mesmo que acabe se tornando seu próprio inimigo... eu... eu vou ficar do seu lado, sabe... quer dizer, mais ou menos isso... ou algo assim...
Ion soltou um leve suspiro. Baixando um pouco a cabeça, balançou-a de lado e disse friamente:
— Não entendi nada do que disseste.
— É-é claro... desculpe...
No instante em que ergueu o rosto sem pensar, Diante dos olhos de Esther, o garoto sorria timidamente. Era o primeiro sorriso dele que Esther via.
— Você é diferente, Esther... como posso dizer... para uma terran, você é interessante.
O que exatamente ele queria dizer com ‘interessante’ era um pouco ambíguo, mas Ion baixou suavemente seus cílios dourados e, com dedos levemente aquecidos, entrelaçou-os gentilmente com os da freira.
Esther, sentindo o rosto completamente vermelho, tentava desesperadamente raciocinar. Era o momento logo após o cair da noite. Um belo rapaz, com o torso nu. Apenas os dois, sozinhos, num quarto com uma cama, as cortinas totalmente fechadas... pensando bem, era uma situação perigosa.
— C-certo, Excelência! Que tal se eu abrisse as cortinas?
Com isso, ela poderia soltar as mãos e ainda abrir as cortinas — pensando nesse plano dois-em-um, Esther se levantou.
— Sua Excelência me disse que gosta da vista noturna daqui, não é?
Enquanto soltava os dedos entrelaçados, relutante, Ion assentiu com um leve gesto de cabeça. O aposento ficava no terceiro andar de uma hospedaria de três andares, situada em um dos pontos mais elevados de Cartago. Da janela, era possível contemplar toda a cidade iluminada pela noite.
— A paisagem que se vê daqui... se parece um pouco com a da Capital Imperial... Claro, está muito longe de igualar-se em termos de beleza.
Da janela que Esther abrira, uma brisa noturna misturada com o cheiro do mar entrou soprando. Sob a tênue luz da lamparina, o vampiro brincava com os fios dourados de seu cabelo, enquanto lançava o olhar para fora da janela. O brilho em seus olhos era belo, mas havia algo de melancólico ali, e por vezes parecia até um pouco vazio.
— ...Será que ainda a verei mais uma vez?
Ao ouvir a tristeza naquela voz, Esther, que estava guardando as ataduras, levantou o rosto às pressas. Forçou um sorriso radiante, como se quisesse encorajar a si mesma e à outra pessoa. Esther nunca tivera irmãos, mas se os tivesse... talvez fosse exatamente assim que se sentiria.
— Mas é claro! Eu e o Padre Nightroad protegeremos Vossa Excelência a todo custo! Até que Vossa Excelência se encontre com a Cardeal Sforza e retorne em segurança ao seu país, o protegeremos, mesmo que isso custe nossas vidas!
Porém, o coração de Esther não era tão simples quanto seu sorriso animado deixava transparecer. Já haviam se passado três dias — e a cidade ainda permanecia sob o controle da Inquisição, não era uma situação que se permitia qualquer movimentação. Levar Ion até a embaixada estava fora de questão; na verdade, até mesmo sair daquela hospedaria era uma tarefa difícil. Além disso... até quando poderiam permanecer seguros...?
A pessoa que mais desejava ter alguém para bater encorajadoramente em seu peito era ninguém mais do que ela mesma.
— É isso mesmo. Assim como tu dizes.
Mas, como se tivesse sido contagiado pelo sorriso da freira, Ion também deixou escapar um leve sorriso. Ele também, devia ao menos estar ciente do perigo da situação. Ainda assim, como que para não desperdiçar o cuidado da jovem que tentava animá-lo, ele forçou um sorriso.
— Com certeza... no fim, tudo vai dar certo. Eu cumprirei a ordem imperial de Sua Majestade, retornarei são e salvo à capital, e poderei aproveitar plenamente daquela linda vista noturna... Posso acreditar nisso, Esther?
— Claro. Esse é o meu trabalho, afinal.
No momento em que o garoto e a garota reconheceram um sorriso envergonhado no rosto um do outro — Ouviu-se o som pequeno de uma batida na porta.
— Ah... com licença, sou o Nightroad. Acabo de voltar.
— Ah, Padre, você demorou, hein.
Ao ver o homem que entrou no quarto acompanhado por um leve som de tosse, Ion suspirou, aliviado. Em contraste, sem perceber que o rosto de Esther se tornara tenso e rígido, dirigiu palavras de apreço ao homem, que tirava o turbante e se sentava.
— Bom trabalho no reconhecimento. Você demorou para voltar, então estava um pouco preocupado. O caminho de volta foi seguro?
— Olá. Estava cheio de policiais especiais por toda parte, até andar pela rua foi um sufoco... Ah, Esther-san, aconteceu alguma coisa estranha enquanto eu estive fora?
Esther respondeu sem sequer olhar para o padre, que a abordava com naturalidade. Diante daquela expressão fria, tão diferente da de pouco antes, Ion fez uma cara de estranhamento.
— Eh? Não, não é nada, não.
Enquanto tentava forçar um sorriso apressado, não importava o quanto fizesse, não conseguia evitar que sua expressão ficasse rígida e tensa.
Abel olhou furtivamente para o perfil da jovem com um leve ar de tristeza, mas não disse nada em voz alta. Em vez disso, limpou a garganta levemente e, com uma alegria, de alguma maneira, igualmente forçada, se dirigiu a Ion.
— E então, Excelência, como está a situação dos seus ferimentos? Já consegue se mover um pouco?
— Hum, está indo muito bem. Parece que a prata também já foi expelida em boa parte, e, nesse ritmo, acho que em uma semana estarei completamente curado. Se for assim, pelo menos eu conseguirei me infiltrar na embaixada.
Ion assentiu, mostrando uma determinação firme. Talvez por ter sido encorajado por Esther mais cedo, ainda estivesse tendo seus efeitos, sua voz soava leve. Contudo, em contraste, o rosto do padre permanecia sombrio.
— Uma semana? Entendo... Ainda vai demorar tanto assim?
Ion não deixou escapar o murmúrio baixo.
— Sim, na verdade... com licença.
Tossindo levemente, Abel levou um lenço à boca. Estaria com um resfriado? Nos últimos dias, ele vinha tossindo de maneira estranha de vez em quando.
— Está tudo bem, Padre? Você não parece muito bem, sabia?
— Perdão. Estou bem. Acho que só peguei um pouco de friagem enquanto dormia...
Com um lenço ainda pressionado contra a boca, o padre balançou a cabeça. Seu rosto não estava com uma boa aparência, mas sua voz já havia voltado ao normal.
— Perdão... Bem, continuando a conversa, parece que os agentes da Inquisição estão se movendo de forma mais ativa do que esperávamos. Nesse ritmo, talvez não consigamos resistir por mais de dois ou três dias.
Esther franziu as sobrancelhas, e o padre assentiu com o rosto um tanto pálido.
Nestes três dias, a cidade de Cartago esteve completamente à mercê da Inquisição. Com o pretexto do ataque de um vampiro à embaixada do Vaticano e usando o direito canônico como escudo, eles estavam agindo com total arrogância, como se fossem os donos do lugar. Provavelmente, pretendiam aproveitar a oportunidade para demonstrar a superioridade da Igreja perante os príncipes seculares. A soberania do governo municipal, era na prática, inexistente. Qualquer sinal de resistência, e mesmo cidadãos comuns sem ligação com o incidente ou funcionários do governo, eram detidos sem piedade.
— Então, o encontro com a Cardeal Sforza...
— É uma situação bastante difícil.
Enquanto enxugava a boca com um lenço, Abel deu de ombros.
— A embaixada está completamente bloqueada. Claro, oficialmente dizem que é por 'segurança', mas provavelmente Caterina-san — a Cardeal Sforza — está sob prisão domiciliar. Talvez seja melhor desistir da audiência... Ah, não, eu entendo perfeitamente como se sente.
Com o rosto sombrio, o garoto abaixou a cabeça. Para consolá-lo, Abel balançou a cabeça de leve.
— Mas, do jeito que as coisas estão, teremos que estar preparados para assumir um risco considerável. Além disso, até mesmo fugir desta cidade já se tornou algo extremamente difícil.
— Sou um nobre boyère do Império.
Com o rosto pálido, mas carregado de uma decisão firme, Ion balançou a cabeça.
— Além disso, para um nobre, o decreto imperial de Sua Majestade é absoluto. Eu preferiria perder a vida a desobedecer um édito.
— Entendo seus sentimentos. Mas forçar essa audiência e se expor ao perigo não é um risco só seu. Caso a Inquisição invada o local, a posição da Cardeal Sforza se tornará a pior possível. Por favor, desista desta audiência e espere por uma próxima oportunidade...
— Já sei. Devo fazer um chá?
De forma um tanto abrupta, Esther se levantou. Não conseguia mais suportar ver por mais tempo a decepção de Ion.
— Vai ser uma conversa demorada, então... que tal continuarmos enquanto tomamos um chá? Padre, pode me ajudar um pouco?
Abel tentou balançar a cabeça, mas se calou diante do olhar cortante de Esther. Com um ar de relutância, levantou-se e, deixando Ion absorto em seus pensamentos, seguiu em direção à cozinha.
— ...O que foi, Esther-san?
— Você estava falando sério agora há pouco?
Assim que entrou na apertada cozinha, Esther sussurrou com uma expressão severa. Embora falasse em voz baixa para não ser ouvida pelo garoto no quarto, seu olhar era afiado.
— Você pretende mandar aquele menino de volta assim, de mãos vazias? Sem sequer permitir que ele se encontre com Sua Eminência?
Como se tivesse percebido um tom perigoso na voz da garota, Abel desviou o olhar. Empurrando para cima a ponte de seus óculos trincados, começou a se justificar, mesmo sem estar sendo questionado.
— Na verdade, a situação já chegou a um ponto bem crítico. E as chances de piorar ainda mais são extremamente altas, enquanto as de melhorar são praticamente nulas. Dado isso... ao menos quanto à segurança dele, deveríamos tirá-lo desta cidade, ainda que temporariamente...
— Mas... a ordem da Cardeal Sforza não era proteger ele e levá-lo até Vossa Eminência? Nesse caso...
— A situação agora é completamente diferente de antes. Naquela vez, os inquisidores ainda não tinham chegado, e o Barão de Luxor ainda não havia nos traído. Para começo de conversa, não imaginávamos que o próprio Conde de Memphis estivesse ferido daquele jeito, incapaz de se mover. Aah... Seria bom que ao menos este transmissor estivesse funcionando...
Enquanto murmurava uma desculpa, Abel levou a mão à orelha com uma expressão triste. Com movimentos desajeitados, ele removeu o transmissor auricular quebrado quando fora atingido pelo inquisidor.
— De qualquer forma, não temos mais outras opções. Tenho certeza de que Caterina-san também compreenderá isso.
— Não estou falando de”Caterina-san”!
Mesmo naquele momento, a sensação nauseante sentida durante o banquete voltou a aflorar. Com um tom feroz, Esther disparou:
— Estou falando é sobre o Conde de Memphis. Aquele garoto veio a esta cidade arriscando a própria vida, sabia?! E agora está dizendo para mandá-lo embora de mãos vazias?!
Aqueles sujeitos da Inquisição podem até ser inimigos formidáveis. Especialmente o Irmão Petros — aquele inquisidor — é, de fato, uma ameaça.
No entanto, ainda tinham uma carta na manga.
Se ao menos o padre à sua frente usasse o “Crusnik” — aquele poder absurdo e quase profano de tão forte — os inquisidores não seriam páreo para ele. Não, pensando bem, se ele ao menos tivesse usado aquilo lá no porto subterrâneo, Ion não teria passado por tanto perigo. Se ele tivesse capturado Radu ali mesmo, ou ferido o irmão Petros, talvez nem estivessem agora encurralados numa situação tão desesperadora. Mesmo assim...!
— Não havia outra opção, Esther-san.
No entanto, como se não percebesse os sentimentos da jovem, Abel apenas deu de ombros.
— Fizemos tudo o que podíamos. Lamentar pelo que não conseguimos realizar não adianta nada.
As palavras do padre, ditas como se nada tivesse a ver com ele, feriram profundamente o coração de Esther. Ela pôde sentir claramente algo que havia selado com cuidado se agitar dentro de si, despertado por aquela dor.
— Padre... o senhor realmente pretende dizer isso? Pode mesmo afirmar, de cabeça erguida, que fez tudo o que podia?
Sim, não era só por causa desse incidente. Era uma frustração que vinha se acumulando desde István — quando se deu conta, Esther já estava agarrando Abel pela gola e gritando com ele:
— Você não fez tudo que podia! Porque você sempre está poupando forças!
— Esther-san, eu... eu não estou fazendo corpo mole, sabe?
— Mentira! Então por que você não faz aquilo... aquilo de István?!
Esther sacudiu a mão com que agarrava o peito de Abel. Se tivesse permanecido um pouco mais calma, talvez tivesse notado o quão anormalmente pálido estava o semblante do padre. No entanto, para a garota que naquele momento explodia a frustração acumulada ao longo de meses, era impossível prestar atenção nesse ponto.
— Se você tivesse levado as coisas a sério, tudo teria dado muito mais certo! Aquele garoto também não teria passado por uma situação tão perigosa! Mesmo assim...
Deixando-se ser sacudido, Abel não tentou se justificar além disso, permaneceu em silêncio, apenas apertando os lábios com o semblante sombrio. Aquela expressão inexplicável — como se suportasse algo escondido dentro de si — irritou ainda mais Esther. E quando ela intensificou o olhar, se preparou para atirar contra ele palavras afiadas o suficiente para perfurar suas entranhas.
A voz hesitante que veio de suas costas soou exatamente no momento em que Esther estava prestes a falar.
— O-o que foi, Excelência?
— É que... no meio da conversa, me desculpe um pouco, mas...
Olhando alternadamente a garota de expressão mal-humorada e o padre, que piscava os olhos como se estivesse perdido, Ion também fez uma cara de quem não sabia o que fazer. Mas, após pigarrear uma vez, apontou para fora da janela.
— Tem umas pessoas estranhas lá fora... Parece que algo está errado.
Esquecendo completamente sobre a briga até então, Esther e Abel trocaram olhares. Em seguida, como se tivessem sido impulsionados, espiaram por debaixo da janela.
As duas vozes se sobrepuseram perfeitamente.
Na frente da estalagem, havia cerca de trinta homens vestindo uniformes de combate negros. Ao lado deles, apontando em direção a eles, estava o dono desta estalagem.
— Excelência, vista-se por favor!
Com uma voz firme, Esther deu ordens a Ion. Enquanto ajudava o garoto a trocar de roupa com uma das mãos, com a outra, organizava rapidamente remédios, comida e outros suprimentos em uma bolsa. Nesse meio tempo, Abel saiu para o corredor e parecia estar sondando por presenças no andar de baixo. Lançando um olhar breve às costas dele...
“Talvez eu tenha exagerado um pouco...”
Por fim, quando Esther recuperou a calma, um pequeno fragmento de arrependimento atravessou o canto de sua mente.
Ao se lembrar daquela expressão triste que vira há pouco, começou a sentir que talvez tivesse acabado por dizer coisas cruéis demais.
Mas logo em seguida, a garota balançou a cabeça, afastando aquela hesitação. Ela não estava errada. O culpado era ele. Sim, se ao menos ele tivesse mais...
Graças aos preparos feitos com antecedência, em menos de um minuto os preparativos já estavam prontos para a fuga. No entanto, mesmo nesse curtíssimo intervalo, sinais de agitação repentina vindo do andar de baixo começaram a se fazer sentir através do assoalho. Esther puxou a mão de Ion e saiu para o corredor. Abel, que já havia seguido na frente, entrou no quarto vazio do outro lado do corredor usando uma chave-mestra previamente preparada. Haviam planejado com antecedência tanto os métodos quanto a rota de fuga, justamente para uma situação como essa.
Nesse caso, fugir pela porta dos fundos seria ainda mais perigoso. O fato de eles terem invadido de forma tão barulhenta só podia significar que pretendiam surpreendê-los por trás. A essa altura, a saída dos fundos já devia estar cercada. Precisariam, portanto, antecipar ainda mais o movimento deles. Além disso: até o amanhecer, teriam que encontrar um novo esconderijo. Não havia tempo a perder.
Sob a janela do quarto em frente, o telhado da casa ao lado estava bem próximo. No beco além dele, era possível ver relances das fardas da polícia especial, mas se dessem a volta pelos telhados, talvez conseguissem evitar serem vistos.
— Então, eu vou primeiro!
Os passos apressados de botas militares já podiam ser ouvidos subindo a escada.
Esther passou com cuidado pela janela que Abel havia removido. Por um instante, seus olhos se encontraram com os do padre — e ela pensou em pedir desculpas, mas...
— Por favor, depressa, Esther-san! Eles já estão quase aqui!
Pressionada, no fim das contas, ela não conseguiu dizer nada.
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