Fui embora sem olhar para trás, sem titubear, sem pensar duas vezes. “Não entendo” eles disseram. “A vida dela é perfeita” eles disseram. “É a depressão” eles disseram. E foi então que eu entendi: Eles nunca me enxergaram. Nunca me viram. Insistiam em me reduzir a uma caixa, um rótulo.
Muito cedo eu aprendi a não dar trabalho. A ser auto suficiente. Depender dos outros era um erro, pedir ajuda então, nem se fala. “Não peça nada e aceite tudo que lhe é oferecido”.
Sempre fui uma menina sonhadora mas guardava os sonhos só para mim, não conhecia ao meu redor qualquer um que sonhara.
Por um bom tempo acreditei não ter opções. Que a vida só fluía tranquila para aqueles que tinham feito as escolhas corretas. E assim, eu fui me afundando no meu próprio eu. Dei adeus a graduação, a carreira policial, a independência financeira, a festa de casamento dos sonhos. Tudo porque acordei um dia a menina sonhadora e fui dormir mãe e esposa. Assim, na mesma duração de um piscar de olhos, eu passei de protagonista da minha vida a coadjuvante. Quis morrer naquele dia. Esse acontecimento me assombrou por meses. Eu só sobreviva.
Até que, dessa gravidez não planejada, nasceu uma força que nem sabia que existia. Não era cristã nesse período, mas consigo enxergar com muita clareza a mão de Deus sobre mim, me anestesiando em todos os sentidos, para que eu pudesse fazer com muita excelência o que precisava ser feito.
Fui revestida de uma armadura que me fazia ser quase que inabalável. Prometi a mim mesma que o meu filho nunca passaria pelo que eu passei. E assim o fiz, por ele, por todos ao meu redor. O certo, o que era esperado. Me tornei a mulher empoderada que trabalha fora ( que atura todos os desaforos do empregador com um sorriso no rosto) e chega juntinho nas contas da casa; a mãe que lê histórias antes de dormir, cria memória afetiva e ensina pacientemente as lições de casa (sozinha); a esposa que encoraja (perdoa tudo, lida contudo) e que é uma eximia companheira (recebendo o mínimo de afeto em troca).
Estava bom para todo mundo, menos para mim. Vivia um verdadeiro teatro. Acreditava que viver era isso.
Até que me vi em um completo quarto escuro do qual eu tentava sair a todo custo, ao qual eu me sentia cada vez mais aprisionada. Pedia ajuda, mas eles não entendiam.
Afinal, nunca me enxergaram.
Esgotamento mental, falta de paciência e angústia, se tornaram meus companheiros diários.
A ficha caiu, quando eu fitei o Sol irradiar lá fora e eu estava completamente trancada dentro de casa. Eu amava tanto a sensação do raio de Sol queimando a pele... o que estava acontecendo comigo? Quando me perdi de mim?
Foi então que entendi. Ninguém pode te salvar, senão você mesmo. Ninguém sente como você, ninguém enxerga pela sua ótica. Nesse milésimo de segundo que dura um pensamento, ao me encarar no espelho, eu vi no fundo dos meu olhos aquele fraco cintilar. Internalizei essa conquista. Estava no caminho certo! Estava me reconectando comigo mesma.
E então, eu fui, sem olhar para trás...
Caminho que me trouxe até aqui, que me faz aprender a ser mais solidária comigo mesmo. Caminho que me ensinou que ao errar, redefinir a rota é melhor que persistir - e que tá liberado recomeçar quantas vezes forem necessárias.
Entendi que a minha jornada não me faz melhor nem pior, me faz humana.