⟨ ❝ B A E L O R C A L O R E ❞
Um deus? Não, BAELOR RHAEGON MERANDUS CALORE II é só um prateado do tipoardente, bem como um orgulhoso representante da Casa CALORE. Com seus 26 anos, Baelor é extremamente parecido com CHRIS WOOD, apesar de essa pessoa existir somente em seus livros de história.
Aegor Calore fora sábio em se casar com Cassana; não era como se realmente fosse atraído pela mulher, entretanto. A Merandus soube articular a corte ao seu favor, soube atrair Aegor da melhor forma possível, mas não era um casamento por amor —— política em Norta sempre fora um tópico sensível, e casamentos daquela espécie estavam fadados a adormecer diante dos contextos que se apresentavam. Conviviam um com o outro, eram respeitosos pelas posições de cada um reciprocamente, mas a faísca que Aegor viria a ter com a mãe de Maegor jamais esteve tão presente no casamento entre os Calore e os Merandus; feridas passadas ainda ardiam, e Aegor se deixara influenciar pelo que o próprio pai passara com a madrasta Merandus. Anos de casados sem que um filho nascesse tornaram a situação ainda mais difícil para Cassana, ainda que mantivesse a corte sobre a palma da mão —— a rainha dos sussurros, muitos diziam. Ela conhecia cada uma das amantes de Aegor, sabia o que falavam de si e de sua linhagem pelas costas, mas ainda assim se mantinha altiva, orgulhosa e ilibada de qualquer comentário hostil —— ao menos publicamente. Assassinatos foram orquestrados pela Rainha, comícios destruídos ao seu bel prazer, e quando Aegor descobria sobre suas peripécias, a mulher meramente o mantinha sob sua rédea curta. Não era, de fato, uma rainha doce e inocente —— talvez por isso o rei não tenha tido muito afeto por ela. O que se sabe é que, anos após a consumação do casamento, Cassana dera a luz ao primogênito Calore, a quem dera o nome Baelor —— seu pai, para desgosto de Aegor. O rei desejava que se chamasse Tiberias, como o seu pai, mas a loira fora irredutível; controlara a mente do marido tempo suficiente para que a mudança viesse tarde demais, o decreto real já espalhara aos sete cantos de Norta quem era o herdeiro do trono: Baelor Rhaegon Merandus Calore II. De olhos azul escuros e cabelos tão negros quanto carvão, o herdeiro se tornou a razão de viver dos Calore e de Norta. Saudável, enérgico e espevitado, era uma das únicas alegrias genuínas na vida de Cassana. Em meio à conspiradores e pessoas que desejavam deturpar a legitimidade de seu trono, a loira nunca abaixou a guarda por tempo suficiente para que lhe atacassem ou ao seu filho.
Baelor seria o próximo rei de Norta, ela sabia disso, e sempre desejara que fosse o mais justo possível; aquele que traria algum tipo de ordem ao país destroçado pela guerra que a mãe de Aegor insuflara. Enquanto se mantinha implacável em meio aos seus súditos e marido, a mulher se permitia um pouco de paz enquanto na companhia do pequeno bebê que carregara consigo por nove meses. Aegor sempre olhara para o filho como algum tipo de orgulho —— seu primogênito, que se assemelhava em muito a ele próprio quando mais jovem, ainda que os olhos dos Merandus estivessem presentes na compleição física do filho; olhos frios, gélidos e impassíveis que pareciam atormentá-lo sempre que dormia. O homem lhe ensinou por pouco tempo —— sempre parecia estar atarefado com seus deveres de rei, de forma que Baelor nunca fora realmente ligado ao homem, mas à mãe. O tempo com a mulher, entretanto, pareceu pouco demais assim que a rainha engravidou novamente; uma gravidez de risco na qual poderia não sobreviver, segundo os Skonos. Não era como se fosse fazer muita falta para a grande parte da Corte —— tinha-os todos embolados em suas tramas intrincadas; eles pareciam até mesmo aliviados com o afastamento da rainha. Afastamento esse que permitiu que Sierra se infiltrasse não só na cama, como na mente de Aegor.
Por meses a rainha se debilitou sobre uma cama, fazendo de tudo para sobreviver e conseguir reinar no dia seguinte, após o nascimento do novo herdeiro. Foram nove meses difíceis, nos quais uma criança de pouco mais de dois anos se manteve próxima à mãe o maior tempo que conseguiu ——- não parecia ser suficiente. Baelor tornou-se cada vez mais irritadiço, birrento e estressado, a não ser quando na companhia da loira. Com o nascimento das gêmeas, todavia, a paz que parecia finalmente chegar ao palácio de Archeon enveredou em outros termos. Sierra envenenara o amante o suficiente para que ele matasse a própria mulher, que sobrevivera ao difícil parto. O rei não se lembraria da ocasião posteriormente, e Baelor, novo demais para se lembrar da cena, carregaria os traços traumáticos pelo restante de sua vida, acrescentando-os à lista interminável que parecia ser a sua sina. De início, o moreno rejeitara as irmãs, ignorando-as quando estavam no mesmo recinto —— para ele, elas haviam sido as verdadeiras assassinas da mãe, e uma criança sempre acharia que sua hipótese é a correta. Um novo casamento se transpôs à morte de Cassana, e Baelor fora obrigado a comparecer ao evento, ainda que não desejasse realmente; a Samos já estava grávida do pequeno bastardo quando Aegor a desposara, e, ainda que não fosse de seu feitio, o moreno, por alguns segundos, chegou a gostar da possibilidade de um meio-irmão; era novo demais para pensar muito largamente, entretanto.
As guerras entre Norta e Piedmont nunca realmente cessaram, até o moreno completar quatro anos; a Samos convencera o rei a se desfazer do filho, usá-lo como vantagem para que a oferta de paz entre os países fosse assegurada: um refém de Piedmont, um país longínquo e de cultura diferente demais da de Norta. A decisão que se interpôs ao findar da guerra entre as duas potências ensejou na ida do jovem herdeiro para o Estado, agora amigo, como um espólio de guerra. Por anos ele seria relegado à posição de convidado real no Estado enquanto as irmãs, Sierra e Maegor viviam na corte de Archeon; por anos ele internalizaria todos os costumes de Piedmont, contrários a tudo o que era acreditado pelos nortenses. Em meio à prostitutas, bigamia e incesto, o moreno viveu em Piedmont tempo suficiente para que acreditasse que todas aquelas práticas eram naturais. O rei do país pareceu acolher o filho de Aegor como um dos seus, e o homem se manteve próximo ao príncipe por algum tempo; tempo suficiente para que aprendesse alguns truques sujos, fossem eles em batalha ou mesmo na corte. Os habitantes do país eram selvagens, exóticos e nada convencionais, e com o tempo tudo o que restava da cultura de Norta se desfez nas práticas de Baelor —— problema esse que ensejaria em consequências drásticas para si mais tarde. O moreno aprendeu tudo o que o príncipe de Piedmont aprendeu; foram criados como iguais, ainda que Baelor possuísse algumas restrições quanto ao próprio uso do poder. Nunca fora realmente ligado a regras ou a coleiras que lhe reprimissem, e eram fartas as vezes em que deixara o poder destruir boa parte dos compartimentos do palácio —— alas inteiras reduzidas a cinzas em apenas um acesso de raiva por parte do Calore.
Cinco anos após a chegada à Piedmont, o moreno fora sequestrado por um grupo que, ele sabia, não poderia fazer parte dos guardas da nação; o rei nunca permitiria que algo como aquilo fosse feito ao príncipe de Norta. Na época, ele era genioso, astuto e capacitado o suficiente para que tivesse algum tipo de chance de escapar da provação, mas pedras silenciadoras foram capazes de conter as labaredas do bracelete que ganhara quando nascera do pai. Por semanas, os cortes cobriram a extensão de seu corpo, e até hoje o Calore exibe a cicatriz mais proeminente no rosto com algum tipo de orgulho, cortando da parte superior da bochecha até a sobrancelha; difícil de ser escondida, de toda forma. Semanas suficientes para que qualquer parte do menino que esteve com Cassana se diluísse em algo mais perigoso, cruel e maligno. Quando enfim o encontraram, o filho de Aegon não era mais o mesmo —— havia um brilho modestamente insano em seu olhar, que apenas aumentaria conforme o tempo passasse. Desde então, Leloran não reprimiu mais o protegido, internamente satisfeito pela mudança; o Calore era como uma bomba relógio, que estaria marcada para explodir justamente em Norta, de preferência no palácio de Archeon. Treinado conjuntamente ao príncipe de Piedmont, partilhando das camas das mais diversas mulheres enquanto crescia, Calore era a epítome da luxúria e sabia como ter seu prazer saciado, fosse lutando, desmembrando opositores de Leloran —— a quem considerara como um padrinho, se existisse esse termo na época —— ou entre quatro paredes. Desde então, quando passava por Archeon em ocasiões festivas, chocava a nobreza com os trejeitos de Piedmont e até mesmo as irmãs. As tramas da corte já não lhe pareciam estranhas, e um aspecto há muito adormecido despertou em seu interior —— a rainha dos sussurros não estava completamente morta; ainda vivia no filho, que passara a lidar magistralmente com aquela questão. Não era diplomático, todavia —— parecia ser direto demais para aquele tipo de acinte, incapaz de sugerir algo quando já sabia exatamente a resposta.
Impulsivo e incapaz de manter as mãos irrequietas, sempre em busca de uma ameaça, o moreno provavelmente deveria ter se mantido na corte de Piedmont, para o seu próprio bem; a cada ano, menos se identificava com Norta, ainda que visse os problemas que despontavam no país. A cada ano, os sussurros se tornavam cada vez mais fortes sobre o irmão mais novo, Maegor —— uma ameaça, diziam. A prepotência elevada a níveis estratosféricos não acreditava realmente, todavia, nos sussurros que vinham a seu conhecimento. Os poderes pareciam aflorar de forma mais ordenada enquanto em batalha, em parceria com o príncipe de Piedmont e seu guarda pessoal; a mente afiada se tornava uma das armas que Baelor usava contra os inimigos, assim como o martelo gigante que carregava consigo —— detestava espadas desde os dez anos; o martelo serviria melhor do que um espeto para destruir os rostos dos inimigos, assim como chegaram perto de destruir o seu. Poderia não ser tão bem instruído nas diplomacias nas quais o irmão mais novo fora, mas era impiedoso em uma guerra, e um guerreiro voraz por sangue, fosse ele prateado ou vermelho. A crueldade parecia tomar requintes a cada dia, e ele jamais negou que poderia ser deveras temerário quando assim o desejava, de forma que, sem que percebesse, fora apelidado pelos inimigos como Baelor, o dragão sádico. Estava na hora, todavia, de voltar à Archeon —— o pacto entre Norta e Piedmont se manteria, mas aos vinte e um o herdeiro nortense fora liberado para o seu próprio país, para que convivesse com a própria família —— os laços já estreitados; a aliança não se desfaria tão cedo, uma vez que os herdeiros de ambos os países pareciam concordar em questões estatais.
De volta à Norta, o choque não poderia ter sido menor; as culturas distintas o desnortearam, os esquemas nobiliárquicos o entediavam, ainda que o próprio Baelor tivesse uma mente afiada para aquele tipo de trama. Em meio aos irmãos, os olhares para Rhaenyra e Visenya não demoraram a ocorrer, e que surpresa não fora quando recebeu justamente a visita da morena mais nova em seus aposentos no mesmo dia em que voltara definitivamente para Norta. Não diria que se apaixonou pela irmã, mas havia algum tipo de faísca entre os dois que apenas ardentes poderiam compartilhar —— esquecera-se por completo de que, quando criança, desprezara ambas as irmãs, de fato. O envolvimento secreto com Visenya também se sucedeu; pareciam ter encontrado algum tipo de estratégia durante aquela noite —— ambos sozinhos dentro da sala do mapa de Norta; ataques ao norte indicavam rebeldes prontos para desintegrar as tropas legalistas prateadas, e a união de ambas as estratégias, cada uma à sua própria forma, trouxe ao Estado algo de benéfico. Antes que pudesse perceber, já a tinha içado sobre a mesa do mapa, rasgando suas roupas da forma que lhe parecia comum —— Piedmont não o ensinara os modos de um príncipe, mas de um rei; pegava o que desejava, sem recear as consequências.
Os encontros eram muitos; a discrição parecia vir apenas das irmãs, entretanto. Em meio à corte, a relação dos três foi se estreitando cada vez mais, de forma que o moreno, anos depois, as escolheria sem sequer um peso na consciência —— não era algum tipo de paixão passageira, mas algo muito mais forte do que aquilo; os três se completavam mutuamente. A estadia em Norta não conseguiu destrinchar as tradições que aprendera em sua antiga casa, e Baelor não desejava aquilo, de toda forma. De fora, ele podia ver exatamente os pontos em que Norta falhava, tinha capacidade suficiente para não ser meramente um guerreiro, mas um general, um líder. Maegor e Sierra o fechavam a todo custo, e Baelor era orgulhoso demais para exigir algum tipo de atenção do pai —— o próprio o renegara ao mandá-lo para Piedmont, era um verme que mereceria ser exterminado, tão logo tivesse a chance, que não tardou a aparecer. Aos vinte e quatro anos, o novo Queenstrial fora revelado, e Baelor se lembrava de ter feito todas as selecionadas como marionetes; torturado-as física e psicologicamente antes da Prova Real. No dia do evento, entretanto, a surpresa se interpôs a toda Norta quando escolheu não só uma das irmãs, mas ambas, o meio sorriso brincando em seus lábios enquanto o bracelete incandescia com as faíscas, cada vez mais perigosas. O país não aceitou a prática muito bem, ainda que fosse natural para Baelor se casar com ambas as irmãs —— a bigamia e o incesto eram incentivados até no Estado em que crescera, uma forma de manter o sangue puro. Não havia outras que se equiparassem à Visenya e Rhaenyra, de toda forma; fracas, patéticas desculpas de selecionadas. Ele precisava das melhores ao seu lado, se desejava dar algum tipo de jeito em Norta. Maegor, todavia, vira naquilo a chance para subir ao poder —— não se Baelor pudesse evitar.
O bastardo jamais seria o rei de Norta.